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Um barco pesqueiro saiu do Amapá, sumiu a mais de 400 km da costa numa área que a própria Marinha reconhece como sem vigilância suficiente e que o PCC e o Comando Vermelho já escolheram como corredor para escoar cocaína para a Europa

Escrito por Noel Budeguer
Publicado em 10/06/2026 às 14:06
Assista o vídeoUm barco pesqueiro saiu do Amapá, sumiu a mais de 400 km da costa e nenhuma busca foi organizada, numa área sem radar da Marinha, sem patrulha permanente e que o PCC e o Comando Vermelho usam como rota para mandar cocaína à Europa
O programa federal que deveria rastrear barcos pesqueiros por satélite não cobre embarcações artesanais, pescadores conseguem desligar o sinal sem que ninguém perceba e as autoridades admitem que não há pessoal para monitorar a costa 24 horas por dia
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Segundo reportagem do portal O Eco, pescadores conseguem burlar o sistema desligando o dispositivo ou bloqueando o sinal. O mesmo portal registrou que as autoridades do Ibama admitem não ter contingente suficiente para monitorar todos os barcos em toda a costa durante 24 horas por dia.

No litoral norte do Brasil, uma realidade assustadora se repete sem que as autoridades consigam controlar: embarcações pesqueiras artesanais saem do Amapá, avançam centenas de quilômetros para o alto-mar e simplesmente desaparecem. Sem rastreamento. Sem vigilância. Sem resposta.

O caso não é isolado. É o retrato de um vazio de monitoramento marítimo que coloca vidas em risco todos os dias, numa área que a própria Marinha do Brasil reconhece como estratégica, vulnerável e praticamente invisível para o Estado.

O rastreamento oficial não alcança os barcos artesanais

O Brasil tem um programa federal chamado PREPS, o Programa Nacional de Rastreamento de Embarcações Pesqueiras por Satélite. O problema é que a participação é obrigatória apenas para embarcações com comprimento igual ou superior a 15 metros ou com Arqueação Bruta de pelo menos 50. Barcos menores, que formam a maioria da frota artesanal do Amapá, estão completamente fora do sistema.

E mesmo as embarcações obrigadas a usar o rastreamento encontram brechas. Pescadores conseguem burlar o sistema desligando o dispositivo ou bloqueando o sinal, e as próprias autoridades admitem que não há contingente suficiente para monitorar todos os barcos em toda a costa durante 24 horas por dia.

A Marinha apreendeu barco a mais de 400 km da costa, sem qualquer rastreamento

Embarcação pesqueira Iomar foi abordada pela Marinha a cerca de 420 km de Macapá, no litoral do Amapá, transportando aproximadamente 500 kg de lagosta de forma irregular e sem o rastreamento exigido pelo PREPS.
Embarcação pesqueira Iomar foi abordada pela Marinha a cerca de 420 km de Macapá, no litoral do Amapá, transportando aproximadamente 500 kg de lagosta de forma irregular e sem o rastreamento exigido pelo PREPS.

A dimensão do problema ficou exposta num episódio concreto. Conforme registrado pela Agência Marinha de Notícias, o Navio-Patrulha “Guarujá” abordou a embarcação pesqueira “Iomar” a cerca de 420 quilômetros de Macapá, no litoral do Amapá. O barco transportava de forma irregular aproximadamente 500 quilos de lagosta e não possuía o equipamento de rastreamento exigido pelo PREPS.

Se uma embarcação ilegal consegue operar a essa distância sem ser detectada, o que acontece com um barco em dificuldades que precisa de socorro urgente nessa mesma área?

A estrutura de vigilância no Norte é insuficiente, segundo documentos de defesa

Segundo estudo institucional analisado pelo portal Poder Naval, a estrutura naval atual no Norte e no Nordeste é limitada diante da importância estratégica da região. O investimento em radares Over The Horizon (OTH) na Costa Norte é apontado como componente essencial para ampliar a vigilância. Essa estrutura ainda não existe.

O projeto que poderia mudar esse cenário tem nome: SisGAAz, o Sistema de Gerenciamento da Amazônia Azul. Foi anunciado em 2010. Mais de uma década e meia depois, o sistema ainda está travado por entraves burocráticos, deixando o Brasil com áreas de sombra na vigilância marítima. A primeira unidade do SisGAAz está sendo instalada em Ilha Grande, no Rio de Janeiro, não no Norte do país.

O Amapá no centro de uma rota criminosa internacional

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A ausência de monitoramento tem outra dimensão preocupante. Conforme levantamento do Portal Plural com base no estudo Cartografias da Violência na Amazônia, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o Amapá é disputado pelo PCC e pelo Comando Vermelho justamente por sua posição geográfica: o estado está inserido na rota amazônica do narcotráfico, com cocaína e skunk destinados à Europa saindo pelos portos e rotas marítimas da região.

Segundo reportagem do Intercept Brasil, o Brasil se tornou polo central de distribuição de cocaína, com a Amazônia servindo como corredor de escoamento para os portos atlânticos. O Atlântico Equatorial concentra exatamente essas rotas de crimes transnacionais, numa área onde a presença brasileira ainda é considerada insuficiente pelos especialistas.

Pescadores somem e barcos aparecem vazios

Enquanto o debate estratégico se arrasta, as consequências concretas já chegam às famílias. Em junho de 2023, um grupo de pescadores paraenses desapareceu enquanto trabalhava na costa do Amapá, entre o Cassiporé e Calçoene. O caso foi registrado pelo portal SelesNafes em julho do mesmo ano, quando o barco foi encontrado deteriorado no Pará, sem nenhum dos ocupantes a bordo.

A reportagem destacou que havia tripulantes que nem chegaram a ser identificados formalmente, dado que a informalidade é estrutural no setor pesqueiro artesanal. Os tripulantes nunca foram encontrados.

O silêncio que custa vidas

O que une todos esses fatos é uma mesma falha sistêmica: centenas de quilômetros de oceano com cobertura de vigilância insuficiente, sem rastreamento obrigatório para embarcações artesanais, numa área atravessada por rotas do narcotráfico internacional e frequentada por barcos que não aparecem em nenhum sistema.

Enquanto o SisGAAz não sai do papel e os investimentos no Norte não saem do planejamento, pescadores continuam saindo do Amapá em direção ao mar aberto. E quando não voltam, o Estado brasileiro muitas vezes sequer sabe que eles foram.

O que precisa acontecer para que essas águas deixem de ser uma zona morta para a segurança pública brasileira?

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Noel Budeguer

Sou jornalista argentino baseado no Rio de Janeiro, com foco em energia e geopolítica, além de tecnologia e assuntos militares. Produzo análises e reportagens com linguagem acessível, dados, contexto e visão estratégica sobre os movimentos que impactam o Brasil e o mundo. 📩 Contato: noelbudeguer@gmail.com

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