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Uma cidade do Rio de Janeiro está sendo engolida pelo mar, já perdeu cerca de 500 casas e comércios e virou símbolo de um desastre lento que apaga ruas, quarteirões e memórias

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Escrito por Noel Budeguer Publicado em 01/07/2026 às 11:06 Atualizado em 01/07/2026 às 12:06
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No litoral fluminense, Atafona mostra como a erosão costeira pode transformar uma área urbana em ruínas ao longo do tempo, afetando moradores, pesca, turismo e a relação entre o rio Paraíba do Sul e o avanço do oceano.
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No litoral fluminense, Atafona mostra como a erosão costeira pode transformar uma área urbana em ruínas ao longo do tempo, afetando moradores, pesca, turismo e a relação entre o rio Paraíba do Sul e o avanço do oceano.

Em Atafona, distrito de São João da Barra, no Norte Fluminense, a erosão costeira deixou de ser uma ameaça distante e passou a fazer parte da rotina de quem vive na foz do rio Paraíba do Sul. Ali, ruas, casas, bares, comércios e antigas construções foram engolidos pelo avanço do mar ao longo de décadas.

O dado mais forte aparece em levantamento citado pela Mongabay e republicado pelo UOL: a Prefeitura de São João da Barra já estimou que cerca de 500 residências e comércios foram destruídos. A mesma reportagem aponta que mais de 2 mil pessoas podem ter sido obrigadas a deixar a área afetada.

Atafona virou um dos retratos mais conhecidos da erosão costeira no Brasil porque a destruição não aconteceu de uma vez. Ela avança lentamente, ano após ano, apagando pedaços da cidade diante dos moradores.

O distrito onde a praia virou ruína

Imagem aérea mostra casas encurraladas pelo avanço do mar em Atafona, no litoral do Rio de Janeiro, onde a erosão costeira aproxima as ondas das construções e transforma antigas áreas urbanas em cenário de risco permanente.
Imagem aérea mostra casas encurraladas pelo avanço do mar em Atafona, no litoral do Rio de Janeiro, onde a erosão costeira aproxima as ondas das construções e transforma antigas áreas urbanas em cenário de risco permanente.

Atafona fica em uma região sensível: a foz do rio Paraíba do Sul, onde o encontro entre rio, mar, vento, ondas e sedimentos define a estabilidade da costa. Quando esse equilíbrio se rompe, a praia deixa de receber areia suficiente e o mar começa a ganhar terreno.

Segundo a reportagem da Mongabay, republicada pelo UOL, o avanço médio do mar em Atafona chega a 3 metros por ano. A National Geographic Brasil trouxe outro recorte: a erosão avança em média 2,7 metros por ano, mas já alcançou 8 metros em alguns períodos, como entre 2008 e 2009.

Esses números ajudam a explicar por que moradores falam de uma cidade que desaparece aos poucos. Não se trata apenas de uma faixa de areia perdida. O que está em jogo é território urbano, memória familiar, pesca, turismo e segurança.

Mais de 500 construções e 14 quarteirões

Ruínas à beira-mar em Atafona revelam o impacto da erosão costeira no litoral do Rio de Janeiro, onde antigas construções foram destruídas pelo avanço contínuo do mar e hoje se tornaram símbolo visível da perda lenta da cidade.
Ruínas à beira-mar em Atafona revelam o impacto da erosão costeira no litoral do Rio de Janeiro, onde antigas construções foram destruídas pelo avanço contínuo do mar e hoje se tornaram símbolo visível da perda lenta da cidade.

A National Geographic Brasil afirma que mais de 500 construções já foram destruídas em Atafona e que 14 quarteirões ficaram totalmente submersos desde a aceleração do processo erosivo. Entre as estruturas citadas nas reportagens estão casas, bares, mercados, um hotel de quatro andares, escola, posto de combustível para barcos, igrejas e imóveis de veraneio.

A imagem das ruínas se tornou parte da paisagem local. Em algumas áreas, restos de paredes, concreto e ferragens aparecem onde antes havia ruas e residências. Para visitantes, o cenário pode parecer turístico. Para moradores, é a lembrança concreta de uma perda que não terminou.

O Eco relatou que até placas da Defesa Civil passaram a alertar sobre áreas impróprias para banho por causa dos escombros. O risco não está apenas no avanço da água, mas também nos restos das construções destruídas pelo mar.

O problema começou há décadas

A erosão em Atafona não é recente. A pesquisa citada pela Mongabay aponta registros na Ilha da Convivência desde 1954. Poucos anos depois, o processo apareceu também na praia de Atafona e se intensificou a partir da década de 1970.

Um estudo publicado em 2024 na Revista Brasileira de Geomorfologia, com autores ligados à UFF, analisou a linha de costa entre 1954 e 2018. O trabalho identificou erosão contínua perto da foz, com taxa aproximada de 5 metros por ano em Atafona.

O mesmo estudo aponta que, entre 1976 e 2019, a erosão afetou uma área equivalente a 12 quadras. Outro levantamento apresentado nos anais do Sinageo mostrou que, entre 2005 e 2016, foram perdidas 40 edificações, 7 quadras foram afetadas e a área erodida chegou a cerca de 29 mil metros quadrados.

Ruínas de antigas construções em Atafona, no litoral do Rio de Janeiro, mostram como a erosão costeira avançou sobre a faixa de areia e deixou partes da cidade expostas diante do mar.
Ruínas de antigas construções em Atafona, no litoral do Rio de Janeiro, mostram como a erosão costeira avançou sobre a faixa de areia e deixou partes da cidade expostas diante do mar.

O rio perdeu força e a praia perdeu defesa

As fontes consultadas não tratam Atafona como um caso causado por um único fator. O avanço do mar é associado a uma combinação de elementos: redução da força do rio Paraíba do Sul, barragens, desvios de água, assoreamento, menor chegada de sedimentos à praia, dinâmica de ondas, ventos, marés, ocupação urbana vulnerável e eventos climáticos mais intensos.

O ponto central é a falta de sedimentos. Quando o rio transporta menos areia até a foz, a praia perde parte de sua reposição natural. O mar continua retirando material da costa, mas o rio já não consegue devolver na mesma proporção.

O Eco destacou que o Paraíba do Sul abastece mais de 14 milhões de brasileiros e citou o desvio de cerca de dois terços do rio para o sistema Guandu, usado no abastecimento da Região Metropolitana do Rio. Já a UFF menciona redução de quase 30% em levantamento sobre o delta. A Revista Brasileira de Geomorfologia cita queda de cerca de 35% no baixo curso entre 1934 e 2015.

Os percentuais variam porque se referem a medições e períodos diferentes. Mesmo assim, todos reforçam o mesmo contexto: o rio ficou menos capaz de sustentar a costa.

Moradores vivem entre deslocamento e memória

O impacto humano aparece nas histórias de quem viu a água se aproximar da porta de casa. A Mongabay citou moradores que acompanharam muros caírem, ruas sumirem e famílias deixarem imóveis antes considerados seguros.

A National Geographic Brasil também relatou casos de famílias que perderam casas sucessivas. O Eco registrou a história de moradores ligados à pesca que continuaram próximos ao mar porque dependem dele para trabalhar, mesmo com o risco crescente.

Atafona, assim, não é só um caso ambiental. É uma mudança forçada na vida de quem construiu rotina, renda e memória em uma área que já não oferece a mesma estabilidade.

O futuro ainda depende de estudos e escolhas caras

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Não há consenso simples sobre uma solução definitiva. Pesquisadores citados por O Eco mencionam alternativas como espigões, quebra-mares, dragagem, alimentação artificial da praia e transposição de areia. Todas exigem custo alto, manutenção e avaliação de impacto.

Em 2026, a Prefeitura de São João da Barra informou avanço no processo para contratar estudo de viabilidade técnica, econômica e ambiental voltado à erosão costeira em Atafona e no Açu. A própria prefeitura anunciou a definição de uma empresa para esse estudo em abril de 2026.

O desafio é que qualquer obra precisa considerar a dinâmica da costa. Intervir em um trecho pode deslocar o problema para outro, principalmente em uma região onde rio e mar funcionam como partes do mesmo sistema.

Um alerta que vai além de Atafona

A Folha publicou, com base em relatório da ONU e ferramenta de cientistas da Nasa com projeções do IPCC, que Rio de Janeiro e Atafona podem registrar aumento médio do nível do mar de 16 centímetros entre 2020 e 2050. A reportagem também afirma que as duas áreas já tiveram alta observada de 13 centímetros entre 1990 e 2020.

Por isso, Atafona importa além de suas ruínas. O distrito mostra como uma cidade pode desaparecer não por um desastre instantâneo, mas por uma soma de decisões, pressões ambientais e mudanças acumuladas. O que o mar levou ali não foi apenas areia. Foram ruas, casas, comércios e a prova visível de que a costa brasileira já vive problemas que não podem mais ser tratados como futuro distante.

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Noel Budeguer

Sou jornalista argentino baseado no Rio de Janeiro, com foco em energia e geopolítica, além de tecnologia e assuntos militares. Produzo análises e reportagens com linguagem acessível, dados, contexto e visão estratégica sobre os movimentos que impactam o Brasil e o mundo. 📩 Contato: noelbudeguer@gmail.com

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