No litoral fluminense, Atafona mostra como a erosão costeira pode transformar uma área urbana em ruínas ao longo do tempo, afetando moradores, pesca, turismo e a relação entre o rio Paraíba do Sul e o avanço do oceano.
Em Atafona, distrito de São João da Barra, no Norte Fluminense, a erosão costeira deixou de ser uma ameaça distante e passou a fazer parte da rotina de quem vive na foz do rio Paraíba do Sul. Ali, ruas, casas, bares, comércios e antigas construções foram engolidos pelo avanço do mar ao longo de décadas.
O dado mais forte aparece em levantamento citado pela Mongabay e republicado pelo UOL: a Prefeitura de São João da Barra já estimou que cerca de 500 residências e comércios foram destruídos. A mesma reportagem aponta que mais de 2 mil pessoas podem ter sido obrigadas a deixar a área afetada.
Atafona virou um dos retratos mais conhecidos da erosão costeira no Brasil porque a destruição não aconteceu de uma vez. Ela avança lentamente, ano após ano, apagando pedaços da cidade diante dos moradores.
-
Aos 48 anos, mulher ganha prêmio milionário, recebe cerca de R$ 7 milhões e transforma a vida da vizinha ao financiar sua primeira viagem internacional como forma de agradecer anos de apoio incondicional
-
Mulheres que foram ridicularizadas por coletar lixo se organizam em grupo, transformam resíduos orgânicos em adubo, criam renda diária e ainda fortalecem a limpeza de mercados em país que faz parte de menor PIB per capita do mundo
-
Arqueólogos encontram 3 jarros enterrados sob casas antigas na França e descobrem até 40 mil moedas romanas de bronze e cobre do século III em bairro de 1.500 m² que foi destruído por incêndios
-
Enquanto catava lixo e vendia latinhas no DF, Cícero recolhia livros descartados, estudou com fome, chegou a caminhar até 30 km para ir à escola e se formou médico depois de recomeçar o curso com bolsa integral do Prouni
O distrito onde a praia virou ruína

Atafona fica em uma região sensível: a foz do rio Paraíba do Sul, onde o encontro entre rio, mar, vento, ondas e sedimentos define a estabilidade da costa. Quando esse equilíbrio se rompe, a praia deixa de receber areia suficiente e o mar começa a ganhar terreno.
Segundo a reportagem da Mongabay, republicada pelo UOL, o avanço médio do mar em Atafona chega a 3 metros por ano. A National Geographic Brasil trouxe outro recorte: a erosão avança em média 2,7 metros por ano, mas já alcançou 8 metros em alguns períodos, como entre 2008 e 2009.
Esses números ajudam a explicar por que moradores falam de uma cidade que desaparece aos poucos. Não se trata apenas de uma faixa de areia perdida. O que está em jogo é território urbano, memória familiar, pesca, turismo e segurança.
Mais de 500 construções e 14 quarteirões

A National Geographic Brasil afirma que mais de 500 construções já foram destruídas em Atafona e que 14 quarteirões ficaram totalmente submersos desde a aceleração do processo erosivo. Entre as estruturas citadas nas reportagens estão casas, bares, mercados, um hotel de quatro andares, escola, posto de combustível para barcos, igrejas e imóveis de veraneio.
A imagem das ruínas se tornou parte da paisagem local. Em algumas áreas, restos de paredes, concreto e ferragens aparecem onde antes havia ruas e residências. Para visitantes, o cenário pode parecer turístico. Para moradores, é a lembrança concreta de uma perda que não terminou.
O Eco relatou que até placas da Defesa Civil passaram a alertar sobre áreas impróprias para banho por causa dos escombros. O risco não está apenas no avanço da água, mas também nos restos das construções destruídas pelo mar.
O problema começou há décadas
A erosão em Atafona não é recente. A pesquisa citada pela Mongabay aponta registros na Ilha da Convivência desde 1954. Poucos anos depois, o processo apareceu também na praia de Atafona e se intensificou a partir da década de 1970.
Um estudo publicado em 2024 na Revista Brasileira de Geomorfologia, com autores ligados à UFF, analisou a linha de costa entre 1954 e 2018. O trabalho identificou erosão contínua perto da foz, com taxa aproximada de 5 metros por ano em Atafona.
O mesmo estudo aponta que, entre 1976 e 2019, a erosão afetou uma área equivalente a 12 quadras. Outro levantamento apresentado nos anais do Sinageo mostrou que, entre 2005 e 2016, foram perdidas 40 edificações, 7 quadras foram afetadas e a área erodida chegou a cerca de 29 mil metros quadrados.

O rio perdeu força e a praia perdeu defesa
As fontes consultadas não tratam Atafona como um caso causado por um único fator. O avanço do mar é associado a uma combinação de elementos: redução da força do rio Paraíba do Sul, barragens, desvios de água, assoreamento, menor chegada de sedimentos à praia, dinâmica de ondas, ventos, marés, ocupação urbana vulnerável e eventos climáticos mais intensos.
O ponto central é a falta de sedimentos. Quando o rio transporta menos areia até a foz, a praia perde parte de sua reposição natural. O mar continua retirando material da costa, mas o rio já não consegue devolver na mesma proporção.
O Eco destacou que o Paraíba do Sul abastece mais de 14 milhões de brasileiros e citou o desvio de cerca de dois terços do rio para o sistema Guandu, usado no abastecimento da Região Metropolitana do Rio. Já a UFF menciona redução de quase 30% em levantamento sobre o delta. A Revista Brasileira de Geomorfologia cita queda de cerca de 35% no baixo curso entre 1934 e 2015.
Os percentuais variam porque se referem a medições e períodos diferentes. Mesmo assim, todos reforçam o mesmo contexto: o rio ficou menos capaz de sustentar a costa.
Moradores vivem entre deslocamento e memória
O impacto humano aparece nas histórias de quem viu a água se aproximar da porta de casa. A Mongabay citou moradores que acompanharam muros caírem, ruas sumirem e famílias deixarem imóveis antes considerados seguros.
A National Geographic Brasil também relatou casos de famílias que perderam casas sucessivas. O Eco registrou a história de moradores ligados à pesca que continuaram próximos ao mar porque dependem dele para trabalhar, mesmo com o risco crescente.
Atafona, assim, não é só um caso ambiental. É uma mudança forçada na vida de quem construiu rotina, renda e memória em uma área que já não oferece a mesma estabilidade.
O futuro ainda depende de estudos e escolhas caras
Não há consenso simples sobre uma solução definitiva. Pesquisadores citados por O Eco mencionam alternativas como espigões, quebra-mares, dragagem, alimentação artificial da praia e transposição de areia. Todas exigem custo alto, manutenção e avaliação de impacto.
Em 2026, a Prefeitura de São João da Barra informou avanço no processo para contratar estudo de viabilidade técnica, econômica e ambiental voltado à erosão costeira em Atafona e no Açu. A própria prefeitura anunciou a definição de uma empresa para esse estudo em abril de 2026.
O desafio é que qualquer obra precisa considerar a dinâmica da costa. Intervir em um trecho pode deslocar o problema para outro, principalmente em uma região onde rio e mar funcionam como partes do mesmo sistema.
Um alerta que vai além de Atafona
A Folha publicou, com base em relatório da ONU e ferramenta de cientistas da Nasa com projeções do IPCC, que Rio de Janeiro e Atafona podem registrar aumento médio do nível do mar de 16 centímetros entre 2020 e 2050. A reportagem também afirma que as duas áreas já tiveram alta observada de 13 centímetros entre 1990 e 2020.
Por isso, Atafona importa além de suas ruínas. O distrito mostra como uma cidade pode desaparecer não por um desastre instantâneo, mas por uma soma de decisões, pressões ambientais e mudanças acumuladas. O que o mar levou ali não foi apenas areia. Foram ruas, casas, comércios e a prova visível de que a costa brasileira já vive problemas que não podem mais ser tratados como futuro distante.

