Estudante brasileiro cria ferramenta de inteligência artificial para mapear ilhas de calor urbanas, cruzando dados ambientais e imagens de satélite em uma solução voltada ao planejamento de cidades mais preparadas para temperaturas extremas.
O estudante brasileiro Isaque Carvalho Borges desenvolveu um projeto que usa inteligência artificial, imagens de satélite e análise de dados ambientais para indicar áreas urbanas onde intervenções podem ajudar a reduzir o calor.
A ferramenta, chamada EcoAção Brasil, surgiu a partir da experiência dele em Palmas, no Tocantins, uma cidade planejada onde diferentes regiões podem registrar variações de temperatura associadas ao uso do solo, à presença de vegetação e à concentração de superfícies construídas.
A proposta do sistema é mapear pontos de calor dentro das cidades e apoiar decisões sobre medidas como arborização, criação de áreas verdes, uso de telhados verdes, pavimentos permeáveis, materiais com maior refletância e melhorias na circulação de ar entre ruas e edifícios.
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O foco está na identificação de locais em que essas ações podem ser priorizadas com base em dados.
O projeto venceu a etapa regional da The Earth Prize 2025 para a América Central e do Sul, competição internacional voltada a estudantes de 13 a 19 anos.
Com o reconhecimento, Isaque recebeu US$ 12,5 mil para avançar no desenvolvimento da iniciativa.
Segundo o Instituto Federal do Tocantins, onde ele estuda no Campus Palmas, o EcoAção Brasil combina sensoriamento remoto, inteligência artificial e análise preditiva para orientar estratégias de mitigação do calor urbano.
Inteligência artificial contra ilhas de calor urbanas
Palmas é uma cidade planejada, fundada em 1989, e foi projetada para organizar a ocupação urbana da então nova capital do Tocantins.
No entanto, segundo Isaque, o desenho urbano não eliminou desigualdades térmicas entre diferentes áreas da cidade.
Algumas regiões concentram mais calor do que outras, o que pode criar microilhas de calor dentro do próprio espaço urbano.
No texto original, o estudante afirmou que a cidade foi pensada para atrair moradores, mas que certos aspectos ficaram fora do planejamento.
“Um desses pontos tem a ver com o calor”, disse ele, ao explicar que determinadas áreas se tornam mais quentes do que regiões próximas e passam a funcionar como microilhas de calor urbano.
As ilhas de calor urbanas ocorrem quando espaços construídos registram temperaturas superiores às de áreas vizinhas.
O fenômeno está relacionado à substituição de vegetação por asfalto, concreto e outros materiais que absorvem e retêm calor.
Também influenciam esse processo a baixa arborização, a impermeabilização do solo, a forma das ruas, a densidade de construções e o calor gerado por atividades humanas.
No caso do EcoAção Brasil, a análise busca observar essas diferenças em escala intraurbana.
Em vez de avaliar apenas a temperatura média de uma cidade, o projeto procura identificar variações internas e mostrar como o calor se distribui entre bairros, vias e áreas com diferentes padrões de ocupação.
Como o EcoAção Brasil cruza dados de satélite
O modelo desenvolvido por Isaque reúne dados ambientais obtidos por fontes abertas, especialmente imagens e informações de satélite.
Entre as variáveis analisadas estão a temperatura da superfície, indicadores de densidade e saúde da vegetação, índices de áreas construídas e mudanças no uso do solo ao longo do tempo.
Com esses dados, a inteligência artificial identifica padrões espaciais e temporais relacionados ao calor urbano.
A ferramenta procura indicar onde o calor se concentra, como essas áreas evoluem e quais locais podem ser considerados prioritários para ações de adaptação climática.
“Não existe uma solução por aí que diga quais são os pontos mais importantes em que você deveria focar”, afirmou Isaque no texto original.
Segundo ele, essa lacuna motivou a criação de um sistema voltado a apoiar decisões mais precisas sobre intervenções urbanas.
A ferramenta não se limita ao plantio de árvores.
O modelo também considera soluções como aumento de áreas permeáveis, uso de materiais que refletem mais radiação solar, implantação de corredores de ventilação, redesenho de trechos urbanos e criação de espaços públicos vegetados.
A indicação de cada medida depende das características observadas em cada área.
Calor extremo amplia debate sobre adaptação urbana
O desenvolvimento do EcoAção Brasil ocorre em um contexto de aumento da preocupação com o calor extremo em cidades.
Segundo a Organização Meteorológica Mundial, o período de 2015 a 2025 reuniu os 11 anos mais quentes já registrados, e 2025 ficou entre o segundo e o terceiro ano mais quente da série histórica.
Esses dados reforçam a relevância de políticas de adaptação, especialmente em áreas urbanas densas.
Nas cidades, o impacto do calor não se distribui de forma uniforme.
Idosos, crianças, gestantes, trabalhadores expostos ao sol e pessoas de baixa renda tendem a enfrentar maior risco quando vivem ou circulam em regiões com pouca sombra, baixa arborização, moradias inadequadas e menor acesso a serviços de saúde ou refrigeração.
Especialistas em clima urbano apontam que o enfrentamento das ilhas de calor exige uma combinação de tecnologia, planejamento urbano, saúde pública e participação social.
Os dados ajudam a localizar o problema, mas as decisões sobre intervenção precisam considerar fatores ambientais, econômicos, sociais e culturais.
O engenheiro ambiental Zhihua Wang, da Arizona State University, ouvido no texto original, avaliou que o uso de inteligência artificial e aprendizado de máquina para identificar pontos de calor e estratégias de mitigação é uma ideia de interesse técnico.
Ele afirmou, porém, que resultados consistentes dependem de algoritmos adequados, bases de dados de qualidade e controle rigoroso das informações usadas no modelo.
Wang também observou que imagens abertas de satélite podem ser insuficientes para análises muito detalhadas em escala hiperlocal.
Além disso, segundo ele, não há uma solução única para todos os contextos urbanos.
A escolha entre arborização, mudança de materiais, reconfiguração de ruas ou outras medidas deve considerar as necessidades dos moradores, a disponibilidade de água, a qualidade do ar, as condições socioeconômicas e até preferências culturais.
Tocantins Framework organiza análise térmica das cidades
A base metodológica do EcoAção Brasil passou a ser apresentada como Tocantins Framework, uma estrutura voltada à análise de anomalias térmicas intraurbanas.
O objetivo é medir não apenas onde há ilhas de calor, mas também a intensidade, o alcance espacial e o impacto dessas diferenças térmicas sobre o entorno.
No site do projeto, a equipe descreve o uso de aprendizado de máquina, análise geoespacial e imagens de satélite para estudar ilhas de calor e ilhas de frescor dentro das cidades.
A iniciativa menciona métricas como Severity Score e Impact Score, criadas para organizar a leitura dessas anomalias térmicas e permitir comparações entre diferentes áreas urbanas.
O grupo ligado ao EcoAção Brasil reúne voluntários e apresenta a iniciativa como uma ferramenta de apoio a decisões ambientais.
A proposta é aproximar tecnologia, educação científica e planejamento urbano, com atenção a cidades que enfrentam altas temperaturas e precisam definir prioridades de intervenção.
Em Palmas, onde a observação do problema deu origem ao projeto, Isaque afirmou no texto original que pretende oferecer a solução gratuitamente a instituições locais.
A decisão mantém o foco inicial da iniciativa, voltado à cidade em que o estudante vive e onde identificou as microilhas de calor que motivaram a pesquisa.
A trajetória do projeto insere a inteligência artificial em uma aplicação específica de interesse público.
Em vez de operar como uma ferramenta genérica, o EcoAção Brasil busca responder a uma demanda urbana concreta: transformar dados climáticos e territoriais em informações úteis para reduzir a exposição ao calor nas ruas.
“EcoAção Brasil é algo que fiz para combinar meu amor não apenas pelo meio ambiente e pela tecnologia, mas também pelas pessoas”, disse Isaque no texto original.
A declaração resume a motivação apresentada pelo estudante para desenvolver uma solução que une programação, análise ambiental e preocupação com os efeitos do calor sobre a população.
Ainda há etapas técnicas a cumprir antes que a ferramenta possa ser usada em escala mais ampla por governos, escolas, pesquisadores ou organizações.
Entre os pontos a serem acompanhados estão a validação dos modelos, a resolução dos dados utilizados, a adaptação a diferentes cidades e a capacidade de transformar diagnósticos em ações executáveis no espaço urbano.

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