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Cientistas alertam para uma perda silenciosa de biodiversidade funcional nas restingas e manguezais do litoral nordestino: dados de 380 parcelas costeiras mostram que a degradação por carcinicultura, urbanização e espécies invasoras já comprometeu os serviços de proteção costeira em 34% da extensão monitorada, expondo comunidades litorâneas à erosão e à ressaca sem a barreira natural que protegeu esse litoral por milênios

Escrito por Débora Araújo
Publicado em 01/05/2026 às 14:27
Atualizado em 01/05/2026 às 14:58
Assista o vídeoEstudo revela perda funcional em restingas e manguezais do litoral nordestino, onde urbanização, carcinicultura e invasoras reduzem proteção costeira, aumentando erosão, ressacas e riscos às comunidades vulneráveis da região.
Estudo revela perda funcional em restingas e manguezais do litoral nordestino, onde urbanização, carcinicultura e invasoras reduzem proteção costeira, aumentando erosão, ressacas e riscos às comunidades vulneráveis da região.
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Estudo revela perda funcional em restingas e manguezais do litoral nordestino, onde urbanização, carcinicultura e invasoras reduzem proteção costeira, aumentando erosão, ressacas e riscos às comunidades vulneráveis da região.

Segundo a Brazilian Journal of Biological Sciences, estudos publicados em 2025 por pesquisadores de universidades brasileiras e europeias documentam que os manguezais do litoral nordestino estão entre os ecossistemas costeiros mais produtivos e mais ameaçados do planeta simultaneamente — e que a perda de sua biodiversidade funcional não é apenas um problema ecológico, mas uma remoção progressiva da infraestrutura natural que protege comunidades, estuários e economias pesqueiras de um litoral com mais de 3.300 quilômetros de extensão.

O ICMBIO estima que 25% dos manguezais brasileiros já foram perdidos, com a carcinicultura sendo a principal causa no Nordeste. Em Pernambuco, levantamentos documentaram que a carcinicultura era responsável pela perda de 9,6% dos manguezais apenas no litoral norte do estado já em 2005 — dois anos antes de grande parte da legislação ambiental atual sequer ter sido aprovada.

O que o monitoramento de parcelas costeiras ao longo dos últimos anos mostra é que a perda não parou. Ela ficou mais complexa: agora combina a expansão direta da carcinicultura com a urbanização costeira, a poluição por efluentes, o descarte de resíduos sólidos e a introdução de espécies exóticas que competem com as espécies nativas de mangue. E cada hectare de manguezal perdido é um hectare de proteção costeira que não existe mais.

O que manguezais e restingas fazem que nenhuma obra de engenharia replica

Para entender o que está sendo destruído no litoral nordestino, é necessário entender o que manguezais e restingas fazem — não ecologicamente em abstrato, mas fisicamente, em termos de serviços concretos que sustentam vidas humanas. Manguezais são ecossistemas costeiros de transição entre o ambiente terrestre e o marinho, caracterizados por vegetação de raízes aéreas adaptadas a solos salobros e periodicamente inundados.

No Nordeste brasileiro, as espécies dominantes — Rhizophora mangle, Avicennia germinans, Avicennia schaueriana e Laguncularia racemosa — formam florestas densas nas margens de estuários, nas desembocaduras de rios e ao longo de canais de maré. Suas raízes aéreas criam um labirinto de estruturas que reduzem a velocidade da corrente, depositam sedimentos em suspensão e constroem progressivamente o substrato em que crescem.

Construção e estabilização de substrato

Essa função de construção e estabilização de substrato é o que torna os manguezais insubstituíveis como proteção costeira. Quando ondas e ressacas chegam a uma costa com manguezal íntegro, perdem energia ao atravessar a floresta de raízes antes de alcançar a terra firme. Estudos de proteção costeira documentam que manguezais reduzem a altura das ondas em 50 a 70% em distâncias de 500 metros de vegetação. Durante eventos extremos como ressacas e marés de tempestade, essa amortecimento pode ser a diferença entre uma comunidade pesqueira que sobrevive ao evento e uma que perde casas, barcos e infraestrutura.

Restingas são as formações vegetais que crescem sobre as areias costeiras — os cordões de dunas e as planícies arenosas entre o mar e a vegetação de terra firme. Sua função principal é estabilizar as dunas que protegem o litoral da erosão eólica e da intrusão marinha. A vegetação de restinga ancora a areia com raízes, reduz a velocidade do vento na superfície arenosa e forma uma barreira biológica que, quando removida pela urbanização, deixa a areia solta para ser carregada para dentro de estuários e para o mar.

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Nos trechos onde manguezais e restingas foram removidos — para construção de viveiros de camarão, para condomínios, para estradas litorâneas — a erosão costeira avança em velocidade documentada por satélite. O que levou milênios para se construir pode ser destruído em uma estação de ressacas.

A carcinicultura que entrou pelo manguezal

A carcinicultura — a criação de camarão em viveiros — chegou ao litoral nordestino com força a partir dos anos 1980, aproveitando o diferencial climático e o acesso aos estuários que o Nordeste oferece em relação a qualquer outro litoral brasileiro. O modelo de negócio era simples: converter manguezais e apicuns — as planícies hipersalinas adjacentes ao mangue — em viveiros retangulares onde o camarão seria cultivado com ração e controle de qualidade de água.

O impacto foi documentado desde o início. A supressão da vegetação de manguezal para implantação dos viveiros causa perda direta de biodiversidade. O lançamento de efluentes ricos em matéria orgânica diretamente nos estuários promove eutrofização — o enriquecimento excessivo de nutrientes que gera florações de algas, reduz o oxigênio dissolvido e mata a fauna aquática. O uso de metabissulfito de sódio na despesca contamina os cursos d’água.

O escape de espécies de camarão exótico para os estuários compete com espécies nativas. E a destruição do manguezal remove a fonte de matéria orgânica particulada que é a base da cadeia trófica nos estuários — a produtividade pesqueira que as comunidades tradicionais dependem diretamente.

Consequências da supressão das matas de manguezais

Uma das consequências diretas da supressão das matas de manguezais é a erosão dos solos, que por sua vez se relaciona com processos de assoreamento de rios e canais de maré. Quando as raízes do mangue não estão presentes para reter os sedimentos, as marés os removem progressivamente. Os canais que antes permitiam a navegação de barcos pesqueiros ficam rasos.

Os estuários que antes eram criadouros de peixes e crustáceos perdem o substrato que os tornava produtivos. A carcinicultura que prometia alternativa econômica às comunidades pesqueiras destruiu, em muitos casos, a base produtiva que aquelas comunidades haviam dependido por gerações.

Quem perde quando o manguezal desaparece

A injustiça da degradação dos manguezais nordestinos tem uma dimensão social precisa que os estudos de 2025 documentam com clareza: quem perde são as comunidades tradicionais pesqueiras, quem ganha são os proprietários de carcinicultura — e os dois grupos raramente se sobrepõem.

A ineficiência da legislação ambiental para gestão de conflitos, a falta de uma gestão ambiental justa e participativa e a falta de representatividade das comunidades tradicionais na solução desses problemas têm permitido que os impactos ambientais gerados sejam agravados socialmente. A degradação dos manguezais pela supressão da vegetação e a descarga de efluentes poluentes nos estuários têm sido destacadas como as principais ameaças às atividades das comunidades tradicionais.

Marisqueiras, pescadores artesanais e outros moradores de comunidades costeiras estão sendo afetados pela degradação

Marisqueiras que coletavam moluscos e crustáceos nos manguezais por décadas encontram os estuários degradados pela eutrofização dos efluentes de carcinicultura. Pescadores artesanais que dependiam da produtividade dos estuários como criadouros naturais encontram estoques pesqueiros reduzidos. Moradores de comunidades costeiras que viviam protegidos pela barreira de manguezal contra ressacas encontram suas casas cada vez mais vulneráveis à erosão e à inundação costeira.

O paradoxo é documentado em múltiplos estudos: a carcinicultura foi implantada em grande parte do Nordeste como alternativa econômica para comunidades costeiras em situação de vulnerabilidade. Em muitos casos, destruiu as condições ecológicas que tornavam essas comunidades viáveis — a pesca artesanal, o extrativismo de mariscos, a proteção contra eventos extremos — sem criar empregos equivalentes em volume ou estabilidade. O camarão foi exportado. A destruição ficou.

O que o monitoramento costeiro revela em imagens de satélite

O Brasil tem um dos litorais tropicais mais extensos e mais monitorados por satélite do mundo — consequência da importância econômica da zona costeira e dos programas de pesquisa do INPE e de universidades federais nordestinas. O que o monitoramento de longo prazo documenta para os manguezais do Nordeste é um padrão de perda que combina eventos abruptos com erosão gradual.

Os eventos abruptos são a abertura de novos viveiros de carcinicultura, a construção de estradas e condomínios litorâneos, os desmatamentos associados ao crescimento urbano de cidades turísticas como Fortaleza, Natal, João Pessoa, Maceió e Aracaju. Cada um desses eventos remove manguezal ou restinga de forma mensurável em imagens multitemporais Landsat e Sentinel.

Imagem: IEMA

A erosão gradual é menos visível por satélite mas mais insidiosa: a degradação da qualidade da água por efluentes que enfraquece progressivamente a vegetação de manguezal sem remover fisicamente as árvores; o assoreamento de canais de maré que reduz a inundação periódica necessária para a fisiologia do mangue; a compactação do solo por descarte de resíduos sólidos que altera a aeração das raízes. A floresta parece presente nas imagens de satélite mas está perdendo sua função ecológica — um processo análogo ao que ocorre com a Amazônia sob estresse térmico e hídrico.

A conversão de apicuns e manguezais para carcinicultura, quando realizada sem planejamento adequado, demonstrou potencial para causar degradação ambiental significativa, afetando a biodiversidade e os serviços ecossistêmicos. Estes ecossistemas desempenham funções essenciais, como sequestro de carbono, proteção contra erosão costeira e suporte à pesca artesanal.

O carbono que o manguezal guarda e que ninguém contabiliza

Além da proteção costeira e do suporte à pesca, os manguezais têm uma terceira função que ganhou relevância crescente nos debates climáticos: são dos ecossistemas com maior densidade de estoque de carbono no planeta. O carbono azul — o carbono armazenado em ecossistemas costeiros como manguezais, marismas e pradarias de algas marinhas — é acumulado tanto na biomassa viva quanto, principalmente, nos sedimentos anóxicos do solo, onde a decomposição é extremamente lenta e o carbono pode permanecer por séculos.

Estudos globais estimam que os manguezais armazenam entre 1.000 e 2.000 toneladas de carbono por hectare nos sedimentos — valores muito superiores aos das florestas tropicais terrestres, que acumulam carbono principalmente na biomassa e no solo superficial.

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Quando um manguezal é destruído para dar lugar a um viveiro de carcinicultura, o carbono armazenado nos sedimentos começa a ser oxidado e liberado para a atmosfera ao longo de anos. Uma fazenda de camarão instalada sobre manguezal não apenas remove o ecossistema que sequestrava carbono — ela converte um estoque acumulado por séculos em emissão.

O valor econômico desse carbono não é contabilizado no licenciamento das fazendas de camarão. Não entra no custo de produção do camarão exportado. Não aparece na balança comercial nordestina. É uma externalidade que a sociedade paga distribuída ao longo do tempo enquanto os lucros do camarão são privatizados em câmera rápida.

O litoral que ainda pode ser recuperado

A boa notícia — e ela existe — é que manguezais têm capacidade de regeneração natural quando as pressões são removidas e o substrato está preservado. Estudos de recuperação de manguezais brasileiros documentam recolonização natural em áreas de viveiros abandonados quando a hidrologia do estuário é restaurada. A vegetação cresce, as raízes voltam a reter sedimentos, a fauna retorna progressivamente.

O problema é o que o estudo cienciométrico publicado em 2025 na Brazilian Journal of Biological Sciences identificou como padrão dominante na literatura: a degradação dos manguezais nordestinos é amplamente documentada, mas as pesquisas sobre recuperação são minoritárias e os programas de restauração efetiva são raros, sub-financiados e desconectados das comunidades tradicionais que dependem desses ecossistemas.

A observação parcial de vegetação de restinga e caatinga em recuperação em algumas áreas da zona costeira nordestina — documentada em levantamentos do Ceará — mostra que a recuperação é possível quando as pressões recuam. Mas ela não recua por conta própria enquanto a carcinicultura continua sendo economicamente viável sem pagar pelo custo ambiental que gera, enquanto a urbanização costeira avança sem exigências de compensação ambiental e enquanto as comunidades tradicionais que perderam seu sustento no manguezal degradado não têm voz no planejamento da zona costeira que habitam há gerações. A barreira natural que protegeu esse litoral por milênios não requer engenharia sofisticada para funcionar. Requer que continue existindo.

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Débora Araújo

Débora Araújo é redatora no Click Petróleo e Gás, com mais de dois anos de experiência em produção de conteúdo e mais de mil matérias publicadas sobre tecnologia, mercado de trabalho, geopolítica, indústria, construção, curiosidades e outros temas. Seu foco é produzir conteúdos acessíveis, bem apurados e de interesse coletivo. Sugestões de pauta, correções ou mensagens podem ser enviadas para contato.deboraaraujo.news@gmail.com

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