1. Início
  2. / Ciência e Tecnologia
  3. / Ucrânia coloca em combate o primeiro exército de robôs terrestres do mundo, criado em oficinas improvisadas, capaz de atacar, evacuar feridos e operar sem soldados
Tempo de leitura 10 min de leitura Comentários 2 comentários

Ucrânia coloca em combate o primeiro exército de robôs terrestres do mundo, criado em oficinas improvisadas, capaz de atacar, evacuar feridos e operar sem soldados

Escrito por Felipe Alves da Silva
Publicado em 18/01/2026 às 10:20
Atualizado em 18/01/2026 às 10:21
Assista o vídeoRobô terrestre militar da Ucrânia operando em zona de combate ao lado de drones aéreos
Robô terrestre ucraniano opera próximo à linha de frente, substituindo soldados em missões de alto risco
  • Reação
  • Reação
  • Reação
  • Reação
  • Reação
  • Reação
70 pessoas reagiram a isso.
Reagir ao artigo

O país transformou sucata, drones de consumo e tecnologia civil em sistemas robóticos de guerra que já forçam rendições, reduzem baixas a zero e aceleram uma revolução militar observada por EUA, OTAN, Rússia e China

A Ucrânia deixou de tentar competir com a Rússia no modelo tradicional de guerra, baseado em volume de tropas, blindados e artilharia pesada. Em vez disso, adotou uma estratégia radical: substituir soldados por máquinas sempre que possível. O resultado é algo que, até poucos anos atrás, parecia ficção científica — um exército funcional de robôs terrestres não tripulados, já empregado em combate real, com resultados mensuráveis no campo de batalha.

A informação foi divulgada por Business Insider, Current Time, Army Technology e confirmada por relatos diretos de comandantes ucranianos envolvidos nos programas de robótica militar, além de imagens de combate analisadas por especialistas independentes. Segundo essas fontes, os sistemas robóticos terrestres da Ucrânia já realizam missões de ataque, logística, evacuação médica, minagem, desminagem, reconhecimento e até defesa aérea, mantendo soldados humanos longe da chamada “zona da morte”.

Esse conceito não nasceu em laboratórios sofisticados nem em contratos bilionários. Pelo contrário, foi construído em garagens, armazéns soviéticos abandonados e oficinas improvisadas, muitas delas localizadas a poucos quilômetros da linha de frente.

Da ausência total de robótica à primeira ofensiva 100% automatizada da história

Imagem: divulgação

Quando a invasão russa começou, em 2022, a Ucrânia praticamente não possuía capacidade em sistemas não tripulados terrestres. As forças ucranianas contavam com cerca de 20 drones Bayraktar TB2 de fabricação turca e algumas unidades voluntárias operando quadricópteros civis adaptados. Robôs terrestres simplesmente não existiam no inventário militar do país.

No entanto, à medida que o conflito avançava, a necessidade de inovar se tornou existencial. Em meados de 2022, voluntários começaram a converter drones comerciais da DJI em plataformas de ataque improvisadas. Eram sistemas lentos, vulneráveis à guerra eletrônica russa, mas ainda assim capazes de destruir tanques avaliados em milhões de dólares.

Em 2023, ocorreu a virada decisiva: a revolução dos drones FPV. A Ucrânia produziu aproximadamente 600 mil drones FPV naquele ano, descendentes diretos de drones de corrida, capazes de voar entre árvores, ruínas e trincheiras com precisão cirúrgica. Já em 2024, a produção saltou para 15 milhões de unidades. Em 2025, o país caminha para produzir 45 milhões de drones FPV, o equivalente a mais de 12 mil por dia.

Enquanto os drones aéreos dominavam as manchetes, algo mais silencioso acontecia no solo. Brigadas ucranianas começaram a experimentar veículos terrestres não tripulados (UGVs) em escala limitada. Algumas testavam plataformas com rodas, outras com esteiras. Tudo era feito por tentativa e erro, diretamente no campo de batalha.

O ponto de ruptura ocorreu em dezembro de 2024, quando forças ucranianas executaram o primeiro ataque totalmente robótico documentado da história militar. Nenhum soldado humano participou diretamente da ofensiva. Drones aéreos forneceram vigilância e orientação, enquanto robôs terrestres avançaram para destruir posições russas.

Em julho de 2025, a 3ª Brigada de Assalto foi ainda além. Utilizando apenas drones e robôs terrestres, conduziu uma operação completa que forçou tropas russas a se renderem, com zero baixas ucranianas. Para analistas militares, esse episódio representou um vislumbre concreto do futuro da guerra terrestre.

Oficinas de guerra: onde civis e soldados constroem armas que salvam vidas

Imagem: divulgação

Para entender como a Ucrânia chegou a esse nível em menos de três anos, é necessário visitar locais como a oficina comandada por Alexander, líder de pelotão do Batalhão Antares, que opera a partir de um antigo armazém soviético na região de Donetsk.

A trajetória de Alexander resume a revolução dos robôs terrestres ucranianos. Sua unidade foi construída por meio de conexões pessoais, arrecadações civis, rifas e doações voluntárias. Apenas uma pequena parte dos robôs permanece com seu pelotão; a maioria é enviada para brigadas que enfrentam maior pressão no front.

Quando fabricantes entregam novos veículos terrestres não tripulados, eles chegam com um problema crítico: sistemas de comunicação analógicos, facilmente neutralizados pela interferência russa. Segundo Alexander, esses sistemas “desaparecem sob interferência como papel molhado”.

Por isso, sua equipe desmonta completamente cada robô. Estruturas são soldadas novamente, fiações refeitas e os sistemas substituídos por comunicações digitais criptografadas, redes LTE militares ou terminais Starlink. Converter um único robô terrestre exige milhares de dólares, sem contar o custo do hardware e das assinaturas de comunicação.

Além disso, a manutenção é constante. Essas máquinas sofrem danos severos após praticamente cada missão. Ainda assim, o investimento compensa, porque cada robô operacional representa vidas ucranianas preservadas.

A evolução desses sistemas ocorreu em velocidade inédita. No início de 2022, a capacidade robótica da Ucrânia era praticamente zero. No fim de 2023, robôs terrestres começaram a aparecer em imagens de combate, entregando suprimentos ou evacuando feridos sob fogo inimigo. Em dezembro de 2024, tornaram-se plataformas de ataque. Em 2025, passaram a integrar operações em nível de brigada.

O próprio governo ucraniano anunciou planos para implantar pelo menos 15 mil robôs terrestres até o fim de 2025, não como protótipos, mas como sistemas plenamente operacionais.

Assista o vídeo
Vídeo do YouTube

Robôs que atacam, salvam vidas e transformam a logística na zona da morte

À medida que os robôs terrestres ucranianos evoluíram, seus usos no campo de batalha se multiplicaram rapidamente. Segundo Alexander e Iab Chanka, chefe de sistemas robóticos do batalhão 20 Wolves, existem pelo menos oito aplicações principais para essas plataformas, sendo uma delas considerada a mais promissora: o uso como armas explosivas móveis.

De acordo com entrevista concedida ao Business Insider, a lógica é simples e brutalmente eficiente. Robôs terrestres podem carregar muito mais explosivos do que drones aéreos. Enquanto os maiores drones voadores suportam cerca de 10 kg de carga útil, os menores robôs terrestres usados no front carregam mais de 22 kg, com modelos maiores transportando volumes ainda superiores.

Vídeos verificados do campo de batalha mostram esses robôs avançando diretamente para trincheiras, abrigos subterrâneos e porões antes de detonarem. Em uma missão relatada por Chanka, um robô transportou 30 kg de explosivos até um porão ocupado por infantaria russa e detonou no interior da estrutura, eliminando a posição. Trata-se de um nível de precisão que soldados humanos não conseguem alcançar sem risco extremo e que drones aéreos só obtêm após múltiplas tentativas e perdas.

Entretanto, ataques kamikaze representam apenas uma fração do impacto real desses sistemas. A logística diária é onde os robôs terrestres mais salvam vidas. A chamada “zona da morte” no conflito ucraniano já se estende por mais de 16 quilômetros além da linha de frente, impulsionada pela proliferação massiva de drones de ambos os lados.

Segundo estimativas da Army Technology, até 80% das baixas russas no campo de batalha hoje são causadas por drones. No lado ucraniano, o cenário é semelhante: de acordo com o coronel Constantin Humeniuk, cirurgião-chefe das forças médicas, a tarefa mais perigosa atualmente não é combater, mas sim transportar suprimentos para dentro e fora das posições avançadas.

A Ucrânia perdeu tantas caminhonetes em missões logísticas que muitas unidades enfrentam escassez crítica de veículos. É nesse ponto que os robôs terrestres se tornaram essenciais. Eles entregam alimentos, munição e suprimentos médicos às trincheiras sem expor soldados ao fogo inimigo. Operam principalmente à noite e em baixa velocidade — até 16 km/h, considerada ideal para evitar capotamentos e reduzir detecção por drones FPV russos.

Alguns robôs carregam mastros retransmissores de comunicação, outros módulos de guerra eletrônica, torres controladas remotamente ou até morteiros para apoio de fogo. Em todos os casos, o princípio é o mesmo: cada missão robótica significa um soldado a menos atravessando a zona de morte.

Evacuação médica, minas, reconhecimento e defesa aérea improvisada

A evacuação médica é simultaneamente a aplicação mais salvadora de vidas e a mais tecnicamente desafiadora. Robôs com esteiras conseguem retirar soldados feridos das trincheiras sem exigir as equipes de até oito militares normalmente necessárias para esse tipo de operação.

No entanto, o risco permanece elevado. Caso o robô perca comunicação durante a evacuação, o soldado ferido fica exposto aos drones russos. Por isso, segundo Chanka, esse tipo de missão é usado apenas como último recurso. Ainda assim, quando funciona, evita múltiplas baixas adicionais.

Além disso, robôs terrestres passaram a ser utilizados para instalação de minas, uma tarefa extremamente perigosa em um ambiente saturado por drones inimigos. Essas máquinas conseguem transportar mais minas que um soldado e implantá-las sem expor operadores humanos. O processo inverso também ocorre: robôs avançam à frente das tropas para desminar rotas, absorvendo explosões que, de outra forma, matariam soldados.

Outra função sombria, porém necessária, é a coleta de corpos. Resgatar feridos ou mortos normalmente coloca vários soldados em risco pelos mesmos fatores que causaram a baixa inicial. Robôs oferecem uma alternativa imperfeita, mas frequentemente mais segura.

O reconhecimento completa o ciclo operacional. Embora robôs terrestres tenham limitações — obstáculos simples como grama alta reduzem sua eficácia —, quando combinados com drones aéreos, formam sistemas coordenados não tripulados, capazes de operar de maneira semi-independente das tropas humanas.

Relatos do Current Time, com o jornalista Olexei Prodeivoda, mostram soldados da 5ª Brigada de Assalto trabalhando em oficinas improvisadas perto de Donetsk. Usando codinomes como Agrônomo e Moped, eles modificam robôs que se movem silenciosamente entre destroços, abrindo fogo contra posições russas sem serem detectados a mais de 30 metros de distância.

As melhorias são contínuas: novas estruturas, câmeras reposicionadas, sensores térmicos para operações noturnas, torres para metralhadoras e versões com esteiras, mais estáveis para evacuação médica. Tudo é testado e retrabalhado em tempo real, a poucos quilômetros do combate — um contraste direto com o lento processo de aquisição militar tradicional do Ocidente.

Guerra eletrônica, corrida tecnológica e impacto global

Imagem: divulgação

Apesar da engenhosidade ucraniana, os desafios são crescentes. A Rússia também entrou na corrida. Em agosto de 2024, a mídia estatal russa exibiu um robô terrestre armado com lançadores termobáricos. Moscou chegou tarde, mas possui vantagens econômicas significativas: cerca de 8% do PIB russo é destinado ao setor militar, contra 35% do PIB ucraniano, além de receitas de petróleo e gás e possível apoio tecnológico da China.

O maior obstáculo enfrentado pelos robôs ucranianos é a guerra eletrônica russa, que evoluiu drasticamente. Sistemas de interferência operam em ciclos de 15 minutos, forçando operadores a esperar janelas de oportunidade. Para contornar isso, equipes como a de Alexander substituem sistemas analógicos por comunicações digitais criptografadas e terminais Starlink.

Outra solução criativa surgiu: drones e robôs controlados por fibra óptica, arrastando cabos de até 20 km, totalmente imunes à interferência eletrônica. A ironia é evidente — uma solução física do século XX para um problema tecnológico do século XXI. O risco, porém, é o rompimento ou enrosco dos cabos, além de curiosidades como ninhos de pássaros feitos com fibras ópticas descartadas.

Segundo Chanka, perder comunicação transforma o robô em “sucata cara”, suscetível à captura e engenharia reversa russa. Como resposta, há avanços em IA autônoma, permitindo que robôs concluam missões mesmo após a perda de sinal. A tecnologia existe, mas torná-la confiável em combate continua sendo um desafio.

O impacto dessa revolução vai além da Ucrânia. Em fevereiro de 2024, Kiev criou as Forças Nacionais de Sistemas Não Tripulados, um ramo militar independente. A Rússia fez o mesmo em dezembro de 2024. A OTAN estabeleceu o JTEC na Polônia para estudar as inovações ucranianas. Os Estados Unidos lançaram a iniciativa Replicator, com US$ 1 bilhão para drones, enquanto cortam programas tradicionais.

O general americano Mark Milley estimou que, em 10 a 15 anos, até um terço das forças armadas dos EUA poderá ser composto por sistemas robóticos. A China também reorganizou suas forças para incorporar operações integradas de drones e guerra eletrônica.

Uma nova economia da guerra e a sobrevivência como motor da inovação

O modelo econômico dessa revolução é disruptivo. Um F-35 custa cerca de US$ 80 milhões. Um sistema Patriot custa centenas de milhões. Já drones FPV ucranianos custam entre US$ 400 e US$ 500, podendo destruir tanques milionários. Robôs terrestres custam alguns milhares de dólares e substituem missões que exigiriam dezenas de soldados e veículos caros.

Quando o defensor precisa gastar milhões para neutralizar ataques que custam apenas milhares, a lógica militar tradicional entra em colapso. Robôs terrestres reutilizáveis, capazes de completar dezenas de missões, representam uma proposta de valor completamente diferente.

No fim, porém, essa revolução não é abstrata. Como explicou um soldado da 3ª Brigada de Assalto, identificado como Kostas, o objetivo imediato é logística e evacuação, para depois expandir para assalto direto e apoio de fogo. “Precisamos reduzir custos e simplificar operações. Essa é a próxima fronteira”, afirmou.

A meta de implantar 15 mil robôs terrestres até o fim de 2025 pode parecer ambiciosa, mas, comparada ao salto de zero para 45 milhões de drones FPV por ano em apenas três anos, é conservadora. Tudo indica que dezenas de milhares de robôs terrestres poderão operar no front ucraniano nos próximos anos.

A Ucrânia não escolheu esse caminho por curiosidade tecnológica, mas por necessidade. Quando a sobrevivência está em jogo, inovar deixa de ser opção. Oficinas improvisadas, tecnologia civil adaptada e criatividade extrema estão mudando a própria natureza da guerra — em tempo real — enquanto o mundo observa e tenta correr atrás.

Inscreva-se
Notificar de
guest
2 Comentários
Mais recente
Mais antigos Mais votado
Sebastião Viana
Sebastião Viana
19/01/2026 20:11

Enquanto isso o Brasil com esse jeito de neutralidade expôs ao mundo que somos um povo sem comando sem governo sem forças armadas e pagadores da corrupção sem fim.

Robson B
Robson B
19/01/2026 03:27

“Uma guerra aumenta sempre a tecnologia mesmo sendo guerra santa, quente, morna ou fria…”
Líderes não pensam na perda humana, no caos que suas escolhas provocam…

Felipe Alves da Silva

Sou Felipe Alves, com experiência na produção de conteúdo sobre segurança nacional, geopolítica, tecnologia e temas estratégicos que impactam diretamente o cenário contemporâneo. Ao longo da minha trajetória, busco oferecer análises claras, confiáveis e atualizadas, voltadas a especialistas, entusiastas e profissionais da área de segurança e geopolítica. Meu compromisso é contribuir para uma compreensão acessível e qualificada dos desafios e transformações no campo estratégico global. Sugestões de pauta, dúvidas ou contato institucional: fa06279@gmail.com

Compartilhar em aplicativos
Baixar aplicativo
Ir para o vídeo em destaque
2
0
Adoraríamos sua opnião sobre esse assunto, comente!x