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Transplante de órgãos pode entrar em nova era com porcos geneticamente modificados e promessa de acabar com a fila por doadores humanos

Escrito por Fabio Lucas Carvalho
Publicado em 24/04/2026 às 23:25
Porcos geneticamente modificados podem ampliar o transplante de órgãos e reduzir a dependência de doadores humanos.
Porcos geneticamente modificados podem ampliar o transplante de órgãos e reduzir a dependência de doadores humanos.
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O avanço do transplante de órgãos com porcos geneticamente modificados já envolve pacientes vivendo com rins suínos, ensaios clínicos em andamento e novas pesquisas com fígados e corações, em uma tentativa de enfrentar a escassez que mantém milhares de pessoas nas filas ou fora delas.

A possibilidade de usar porcos geneticamente modificados no transplante de órgãos avança como uma resposta à escassez que mantém milhares de pacientes em filas ou fora delas. A técnica, conhecida como xenotransplante, já saiu do campo teórico e envolve pessoas vivendo com rins de porco geneticamente modificados, além de ensaios clínicos em andamento e novos testes previstos.

A mudança surge em um cenário de forte pressão sobre o sistema de transplantes. Nos Estados Unidos, mais de 100 mil pacientes aguardam atualmente por órgãos, a maioria deles candidatos a transplante renal, enquanto cerca de 600 mil pessoas fazem diálise e número semelhante sofre de doença hepática em estágio terminal.

Transplante de órgãos enfrenta fila longa e oferta limitada

A rotina de avaliação de órgãos doados expõe o dilema vivido por equipes médicas e pacientes. Uma oferta de rim de uma doadora de 68 anos, diabética, hipertensa, morta por AVC, com função renal normal, mas biópsia mostrando cicatrizes e inflamação, representa o tipo de decisão difícil enfrentada com frequência.

A escolha envolve calcular riscos, benefícios e duração provável do órgão. Para um paciente com mais de 60 anos, diabetes, pressão alta e alguns anos de diálise, mesmo um rim comprometido pode significar alívio temporário da máquina usada três vezes por semana para filtrar o sangue.

A diálise mantém pacientes vivos, mas não substitui a qualidade de vida associada a um transplante bem-sucedido. Para muitos, alguns anos com um rim funcionando podem permitir viagens, convivência com a família e refeições normais antes de um possível retorno ao tratamento.

Medicina avançou, mas a demanda cresceu

O transplante de órgãos moderno é resultado de uma transformação construída ao longo de décadas. No início do século XX, o procedimento era mais próximo da ficção científica do que da prática médica.

Na década de 1950, os receptores ainda morriam quase sempre de forma trágica. Nos anos 1960, alguns casos de sucesso foram registrados, mas acabaram ofuscados por uma sequência de fracassos.

A disciplina moderna que hoje salva vidas emergiu em meados da década de 1980, com o advento da ciclosporina, medicamento imunossupressor que mudou os resultados dos procedimentos. Quando o transplante se tornou realidade, as listas de espera eram curtas e formadas principalmente por pacientes jovens e saudáveis, exceto pelo órgão que falhava.

Hoje, os resultados dos transplantes são mais favoráveis do que nunca, mas a lista de espera cresceu exponencialmente. O aumento ocorreu em grande parte porque ela passou a incluir pacientes mais velhos e com mais problemas de saúde, cujos órgãos falharam devido a doenças crônicas como diabetes e hipertensão.

Muitos pacientes nem chegam à lista

A escassez de órgãos obriga equipes médicas a usar órgãos já comprometidos, o que pode gerar resultados insatisfatórios. Em alguns casos, o paciente acaba retornando à lista de espera após o órgão transplantado deixar de funcionar.

Ao mesmo tempo, muitos pacientes que poderiam se beneficiar de um transplante de órgãos nem chegam a ser listados. Alguns nunca são encaminhados porque equipes de cuidado presumem que seriam maus candidatos ou porque não têm acesso adequado ao sistema de saúde.

Outros ficam fora da lista porque não há expectativa de que vivam tempo suficiente até o surgimento de um órgão ou porque os resultados após o transplante seriam ruins. Como as doações são limitadas, um programa só avança quando prevê pelo menos 90% de chance de sobrevivência em um ano.

Porcos geneticamente modificados ganham espaço

O xenotransplante, ou transplante entre espécies diferentes, surge como alternativa para mudar esse cenário. Enquanto a ideia ainda pode parecer impensável para muitos, já existem pessoas vivendo com rins de porco geneticamente modificados.

Dois ensaios clínicos com rins de porco estão em andamento. Outro ensaio, com fígados de porco geneticamente modificados para filtrar temporariamente o sangue de pacientes com insuficiência hepática, está prestes a recrutar participantes, enquanto testes com corações de porco devem começar em breve.

Os porcos se tornaram os doadores universais preferidos por razões práticas. Eles têm tamanho adequado, ninhadas grandes, de seis a doze leitões, gestação de três a quatro meses e baixo custo de criação.

Os primatas chegaram a ser usados como doadores até o fim da década de 1980, mas apresentaram obstáculos importantes. Eles se reproduzem lentamente, são emocional e eticamente mais difíceis de usar, muitos são pequenos demais e também levantaram preocupações com risco de infecção.

Rejeição foi o maior obstáculo inicial

O principal problema dos porcos já era conhecido desde a década de 1960. Um órgão suíno transplantado para um primata, ou provavelmente para um humano, seria rejeitado em poucos minutos.

A causa estava em uma molécula de açúcar presente na superfície da maioria das células dos porcos e ausente nos humanos. Anticorpos naturais reconhecem esses açúcares e ativam uma resposta imunológica capaz de destruir o órgão rapidamente após o transplante.

Nas décadas de 1980 e 1990, tentativas de reduzir essa resposta tiveram sucesso limitado. A clonagem da ovelha Dolly, em 1996, abriu um novo caminho ao mostrar que seria possível modificar células de porco em cultura e clonar animais sem o gene responsável por esse açúcar.

O primeiro porco desse tipo foi gerado em 2002. Empresas como a Novartis investiram bilhões de dólares na tecnologia, mas protestos contra genética animal e a descoberta de um vírus presente nas células de praticamente todos os porcos levaram investidores a retirar financiamento no início dos anos 2000.

CRISPR acelerou o xenotransplante

A última década mudou o ritmo da pesquisa com o avanço do CRISPR-Cas9. A ferramenta de edição genética permite gerar animais transgênicos em meses, não mais em anos.

Com a técnica, tornou-se possível modificar dezenas de genes para fazer órgãos de porco se aproximarem dos órgãos humanos. Também passou a ser tecnicamente simples adicionar alterações voltadas a reduzir respostas imunológicas nos próprios órgãos.

Entre os nomes ligados ao avanço estão Martine Rothblatt, fundadora da Sirius Satellite Radio e da United Therapeutics, e George Church, geneticista ligado ao Projeto Genoma Humano e à edição genética CRISPR. Church gerou um porco com 69 genes modificados.

A geração atual de órgãos de porcos transgênicos provavelmente consegue manter a vida por seis meses a um ano, e alguns podem durar mais. A necessidade de imunossupressão intensa, porém, ainda limita a utilidade desses órgãos.

A expectativa é que porcos geneticamente mais complexos melhorem os resultados do xenotransplante, reduzam a imunossupressão extensiva e aumentem a longevidade dos órgãos. No futuro, o transplante de órgãos poderá incluir órgãos personalizados, criados a partir de compatibilidade genética com receptores específicos.

Com informações Zme Science

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Fabio Lucas Carvalho

Jornalista especializado em uma ampla variedade de temas, como carros, tecnologia, política, indústria naval, geopolítica, energia renovável e economia. Atuo desde 2015 com publicações de destaque em grandes portais de notícias. Minha formação em Gestão em Tecnologia da Informação pela Faculdade de Petrolina (Facape) agrega uma perspectiva técnica única às minhas análises e reportagens. Com mais de 10 mil artigos publicados em veículos de renome, busco sempre trazer informações detalhadas e percepções relevantes para o leitor.

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