Estudo brasileiro mostra que biolubrificante feito com ácidos graxos residuais, incluindo gordura animal de frigoríficos, reduziu o atrito em 54% frente ao óleo mineral e pode transformar resíduos da agroindústria em produto industrial de maior valor.
Segundo o Journal of the Brazilian Society of Mechanical Sciences and Engineering, um estudo publicado em janeiro de 2025 avaliou a viabilidade de sintetizar biolubrificantes a partir de ácidos graxos residuais, subprodutos industriais ainda subutilizados que incluem gordura animal processada em operações de frigorífico. O produto sintetizado, chamado BIOLUB pelos pesquisadores, apresentou coeficiente de atrito aproximadamente 54% menor do que o óleo mineral comercial nos testes tribológicos, área que mede fricção, desgaste e lubrificação entre superfícies em contato.
Na análise de estabilidade térmica, o BIOLUB manteve temperatura de perda de massa de 50% a 341,68°C em atmosfera inerte e 285,33°C em atmosfera oxidativa, faixas compatíveis com aplicações industriais reais. Segundo os autores, os resultados indicam que o produto sintetizado tem potencial para ser usado como óleo base para biolubrificantes, agregando valor a um resíduo industrial e oferecendo caminho viável para transformá-lo em produto de maior valor agregado.
O mercado global de lubrificantes industriais e automotivos movimenta entre US$ 60 bilhões e US$ 150 bilhões por ano, dependendo da metodologia de cálculo, e ainda é quase inteiramente dependente de óleos minerais derivados do petróleo. A gordura animal que sobra na linha de abate do maior complexo de proteína animal do mundo não resolve sozinha esse mercado, mas pode se tornar uma das matérias-primas mais baratas, abundantes e negligenciadas da bioeconomia brasileira.
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Por que a gordura animal pode funcionar como biolubrificante industrial
A ligação entre gordura animal e lubrificação não é nova. Antes do petróleo, eixos de carroças eram lubrificados com sebo bovino, engrenagens de moinhos europeus usavam gordura de baleia e navios de madeira aplicavam toucinho nos mastros para reduzir o atrito das cordas. A industrialização do petróleo substituiu esses materiais por óleos minerais mais baratos, uniformes e disponíveis em escala, não porque a física da lubrificação animal fosse inferior.
A razão pela qual gorduras animais e óleos vegetais funcionam como lubrificantes está na estrutura molecular dos triglicerídeos, formados por glicerol ligado a três cadeias de ácidos graxos. Essas cadeias longas de carbono aderem naturalmente a superfícies metálicas, formando uma camada protetora que reduz o contato direto entre metal e metal, propriedade conhecida como lubricidade.
Essa lubricidade faz com que óleos vegetais e gorduras animais apresentem, em muitas condições, coeficientes de atrito menores do que óleos minerais. No caso da gordura suína, o estudo brasileiro de 2025 documenta composição dominada por ácido palmítico, com aproximadamente 43% em peso, e ácido oleico, com cerca de 35%, combinação quimicamente favorável à lubrificação industrial.
O desafio dos biolubrificantes é estabilidade, não capacidade de reduzir atrito
O problema histórico dos biolubrificantes não é a lubricidade, mas a estabilidade. Óleos vegetais e gorduras animais oxidam em contato com o ar, degradam mais rapidamente que óleos minerais sob temperaturas elevadas e podem solidificar em temperaturas baixas. Por isso, a pesquisa em biolubrificantes nas últimas décadas busca modificar quimicamente essas matérias-primas sem perder biodegradabilidade e capacidade de reduzir atrito.
O estudo publicado no Journal of the Brazilian Society of Mechanical Sciences and Engineering não usou toucinho puro como lubrificante. Os pesquisadores utilizaram ácidos graxos residuais de processo industrial, que incluem componentes de origem animal, como matéria-prima para sintetizar um composto modificado quimicamente.

O processo avaliado foi a esterificação, reação que converte ácidos graxos livres em ésteres, moléculas com melhor estabilidade oxidativa e menor tendência à solidificação do que os triglicerídeos originais.
A lógica é semelhante à usada no biodiesel, mas o objetivo é diferente: enquanto o biodiesel busca valor calorífico e inflamabilidade, o biolubrificante busca viscosidade, lubricidade e estabilidade térmica.
BIOLUB reduziu o atrito em 54% e mostrou estabilidade térmica em testes laboratoriais
O resultado foi o BIOLUB, produto final cujas propriedades foram medidas em três categorias principais. Na tribologia, o dado mais forte foi o coeficiente de atrito 54% menor do que o óleo mineral comercial, resultado que torna o material relevante para aplicações em que redução de fricção e desgaste é essencial.
Na análise térmica, a estabilidade até 341,68°C em atmosfera inerte indica que o produto pode suportar aplicações industriais com calor significativo sem degradação imediata. Em atmosfera oxidativa, a temperatura de perda de massa de 50% foi de 285,33°C, ainda dentro de faixa compatível com usos industriais.
Na caracterização físico-química, as propriedades de viscosidade medidas foram comparáveis às exigências de lubrificantes industriais de grau médio. O estudo não prova aplicação comercial imediata, mas demonstra uma rota técnica promissora para transformar resíduo de frigorífico em óleo base de maior valor.
Brasil tem vantagem em biolubrificantes pela escala da indústria de proteína animal
Para entender por que essa pesquisa importa para o Brasil, é preciso considerar a escala da indústria nacional de proteína animal. O país é o maior exportador mundial de carne bovina e o segundo maior de carne suína, com um complexo agroindustrial que processa centenas de milhões de animais por ano.
Cada processo de abate e industrialização de suínos gera subprodutos de gordura, como toucinho, gordura de cobertura e resíduos de tecido adiposo. Hoje, parte desse material vai para ração animal, cosméticos, sabões ou outros usos de menor valor, enquanto outra parte pode representar custo de manejo para frigoríficos.
O valor desses subprodutos no mercado de ração e resíduos é muito menor do que o valor potencial de um biolubrificante industrial processado. A cadeia explorada pelos pesquisadores brasileiros é a da bioeconomia circular: transformar resíduo barato em produto de maior valor sem exigir matéria-prima nova.
Mercado de biolubrificantes cresce, mas gorduras animais ainda são pouco exploradas
O mercado global de biolubrificantes foi avaliado entre US$ 2,16 bilhões e US$ 3,1 bilhões em 2024, dependendo da fonte, com projeções de crescimento para US$ 10 bilhões ou mais até 2033 e taxa anual composta próxima de 14%. Esse mercado é hoje dominado por biolubrificantes derivados de óleos vegetais, como soja, canola, girassol e palma.
Os óleos vegetais representam cerca de 88% do segmento, enquanto biolubrificantes de origem animal, incluindo sebo bovino, gordura suína e óleo de peixe, respondem por aproximadamente 12%. Essa diferença não ocorre necessariamente por inferioridade técnica, mas pela maior organização e capitalização da cadeia de óleos vegetais.
A gordura animal ainda precisa superar obstáculos técnicos e industriais para competir em escala. Mesmo assim, o Brasil possui uma vantagem estrutural evidente: matéria-prima abundante, cadeia frigorífica consolidada e centros de pesquisa capazes de desenvolver rotas químicas para uso industrial.

