Chamada de interligação Jaguari-Atibainha, a obra da Sabesp usa um túnel de 6,4 km cravado na rocha e seis bombas de 5.000 CV para levar água do rio Paraíba do Sul ao Sistema Cantareira, em São Paulo. Em junho de 2026, a ANA autorizou a transferência de até 268,28 hm³.
Uma das maiores obras de engenharia hídrica do Brasil voltou ao centro das atenções para socorrer São Paulo. A interligação Jaguari-Atibainha, tocada pela Sabesp, usa um túnel de 6,4 quilômetros aberto na rocha e potentes bombas para transferir água entre bacias e reforçar o Cantareira. O caso foi detalhado pela publicação de engenharia Cimento Itambé.
O que reacendeu o assunto foi uma decisão recente do poder público. Em junho de 2026, a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico, a ANA, autorizou aumentar o volume de água que pode ser transferido para o Cantareira, chegando a até 268,28 hectômetros cúbicos. A medida é uma resposta à estiagem que voltou a pressionar o sistema.
Por trás dessa transferência há uma proeza de engenharia. Para levar a água de uma represa a outra, a obra precisa vencer uma montanha, empurrando o líquido morro acima com bombas gigantescas. A seguir, entenda como funciona a interligação Jaguari-Atibainha e por que ela é tão estratégica para São Paulo.
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O que é a interligação Jaguari-Atibainha
A obra nasceu para conectar duas bacias hidrográficas diferentes. A interligação Jaguari-Atibainha liga a represa Jaguari, que fica na bacia do rio Paraíba do Sul, à represa Atibainha, que integra o Cantareira. Na prática, ela cria uma ponte de água entre dois sistemas que antes não se comunicavam.
A ligação é operada pela Sabesp, a companhia de saneamento de São Paulo. A obra foi entregue em 2018, como resposta direta à grave crise hídrica de 2014 e 2015, quando o Cantareira quase secou e a Grande São Paulo viveu o fantasma da falta de água. A ideia era criar uma fonte extra de segurança.
O projeto é apontado como a maior obra de interligação entre bacias do país. Ao permitir transferir água de onde há mais para onde falta, a interligação Jaguari-Atibainha aumenta a resiliência do abastecimento em momentos de seca. É uma espécie de seguro hídrico para milhões de pessoas.
O alcance da obra impressiona. Segundo as informações do projeto, a interligação ajuda a garantir água para cerca de 39 milhões de pessoas nas regiões metropolitanas de São Paulo, Campinas, no Vale do Paraíba e até no Rio de Janeiro. É um número que dá a dimensão do que está em jogo.
A obra custou centenas de milhões de reais e mobilizou um enorme esforço de engenharia. Construída em poucos anos, sob pressão da crise, ela virou símbolo de como São Paulo tentou se blindar contra novas secas. Para a Sabesp, é hoje uma peça central do sistema de abastecimento da região metropolitana.
Um túnel de 6,4 km cravado na rocha
O coração da obra é um imenso túnel subterrâneo. Para vencer o relevo entre as represas, os engenheiros abriram um túnel de 6,4 quilômetros de extensão diretamente na rocha, por onde a água é conduzida. É uma passagem escavada na montanha, longe dos olhos de quem vê apenas as represas na superfície.
As dimensões do túnel ajudam a entender o tamanho da empreitada. A galeria tem cerca de 5 metros de altura e 4 metros de largura, o que dá uma seção de aproximadamente 20 metros quadrados. É espaço suficiente para transportar um grande volume de água de uma vez, como uma avenida subterrânea.
Abrir um túnel desse porte na rocha não é tarefa simples. Envolve perfuração, escavação e reforço da estrutura ao longo de quilômetros, com máquinas pesadas e muito controle de engenharia. Cada metro avançado exige cuidado para garantir a segurança e a durabilidade da passagem.
Mas o túnel é só uma parte da obra. Além dele, a interligação inclui cerca de 13,2 quilômetros de adutoras, tubulações que levam a água, além de uma estação elevatória, responsável por captar e bombear a água bruta, e uma subestação de energia para alimentar todo o sistema. É um conjunto complexo de peças trabalhando juntas.
Obras subterrâneas como essa estão entre as mais complexas da engenharia. Cavar um túnel na rocha exige estudos de geologia, ventilação, drenagem e reforço das paredes, tudo para evitar desabamentos e infiltrações. No caso da interligação Jaguari-Atibainha, o desafio foi ainda maior por unir o túnel a estações de bombeamento.
6 bombas de 5.000 CV para empurrar água morro acima
O maior desafio técnico da obra é ir contra a natureza. Normalmente, a água desce por gravidade, mas aqui ela precisa subir uma montanha para passar de uma represa à outra. Para isso, a interligação Jaguari-Atibainha conta com um conjunto de bombas extremamente potentes.
São seis bombas de 5.000 CV cada uma. Esses equipamentos gigantescos têm a função de empurrar a água morro acima, vencendo o relevo que separa as represas. Sem elas, a transferência simplesmente não aconteceria, já que a água não sobe sozinha.
O desnível que precisa ser vencido é impressionante. As bombas têm de superar cerca de 200 metros de coluna d’água, ou seja, a força equivalente a erguer a água a essa altura. É como bombear um rio inteiro para o alto de um prédio de dezenas de andares, de forma contínua.
Esse esforço todo tem um custo em energia. Empurrar tanta água para cima exige muita eletricidade, o que explica a necessidade de uma subestação dedicada só para a obra. Em troca, o sistema ganha algo precioso: a capacidade de mover água na direção de quem mais precisa dela.
Manter esse bombeamento funcionando tem um preço alto. Como as bombas consomem muita energia, transferir água pela interligação sai bem mais caro do que captar de um manancial próximo por gravidade. Por isso, a Sabesp usa o sistema principalmente em momentos críticos, e não o tempo todo.
8.500 e 12.200 litros por segundo: uma via de mão dupla
Um detalhe pouco conhecido é que a interligação funciona nos dois sentidos. A obra foi projetada como uma transposição de bacias com possibilidade de reversão, ou seja, a água pode correr tanto de um lado quanto do outro, conforme a necessidade de cada momento.
As vazões, porém, são diferentes em cada direção. No sentido que reforça o Cantareira, da represa Jaguari para a Atibainha, a interligação pode transferir até 8.500 litros de água por segundo. É esse fluxo que interessa a São Paulo em tempos de seca.
No sentido inverso, a capacidade é ainda maior. Da Atibainha para a Jaguari, o sistema pode reverter até 12.200 litros por segundo, devolvendo água à bacia do Paraíba do Sul quando for o caso. Essa flexibilidade é o que torna a obra tão engenhosa.
Vale, portanto, uma correção comum. O número de 12,2 mil litros por segundo, muito citado, se refere ao sentido de reversão, e não ao fluxo que abastece o Cantareira. Para salvar o sistema paulista, o que conta é a vazão de até 8.500 litros por segundo no sentido Jaguari-Atibainha.
Essa flexibilidade tem lógica de longo prazo. Em anos mais chuvosos, São Paulo pode devolver água ao Paraíba do Sul; em anos secos, recebe o reforço pela interligação Jaguari-Atibainha. O sistema funciona, assim, como uma espécie de conta corrente de água entre as duas bacias, ajustada conforme a estação e a necessidade.
A autorização da ANA e os 268,28 hm³
O gancho mais recente da história veio de Brasília. Em junho de 2026, a ANA, em conjunto com os órgãos gestores estaduais, aprovou uma captação suplementar temporária para reforçar o abastecimento do Cantareira. É essa decisão que liberou mais água para a Grande São Paulo.
Os números da autorização são específicos. O volume anual máximo que pode ser transferido da usina Jaguari para a Atibainha subiu de 162 hectômetros cúbicos para até 268,28 hectômetros cúbicos, um reforço de 106,28 hectômetros cúbicos. A vazão máxima de captação autorizada é de 8,5 metros cúbicos por segundo.
A liberação, no entanto, tem regras e prazo. Segundo a ANA, a autorização vale até o fim de 2026 e é temporária, ligada ao enfrentamento da estiagem. O reforço é automaticamente suspenso caso o Cantareira volte a operar acima de 60% de seu volume útil, ou seja, quando a situação melhorar.
Essa cautela mostra o equilíbrio buscado pelos reguladores. A ideia é usar a água extra só enquanto houver necessidade real, evitando prejudicar outras regiões. Assim, a Sabesp ganha fôlego para atravessar o período seco sem esvaziar demais as fontes vizinhas.
Para dar ideia do volume, vale traduzir a unidade. Um hectômetro cúbico equivale a 1 bilhão de litros de água, então os 268,28 hm³ autorizados representam centenas de bilhões de litros ao longo do ano. É um reforço expressivo para ajudar a segurar o Cantareira durante a estiagem.
Por que o Cantareira precisou de reforço
Para entender a urgência, é preciso lembrar do passado recente. O Sistema Cantareira é um dos principais mananciais que abastecem a Grande São Paulo, e ficou mundialmente conhecido na crise de 2014 e 2015, quando seus reservatórios chegaram perto do colapso. O trauma daquela época ainda pesa.
Foi justamente essa crise que motivou a construção da interligação Jaguari-Atibainha. Depois de ver a maior metrópole do país à beira do racionamento, o governo apostou em obras que trouxessem água de outras bacias, criando alternativas para não repetir o desespero de anos atrás.
Em 2026, o cenário voltou a acender o alerta. Com a estiagem, o Cantareira passou a operar em faixa de atenção, com redução no limite de retirada de água pela Sabesp. É esse quadro que justificou o pedido de mais transferências pela interligação Jaguari-Atibainha.
O reforço, então, funciona como uma válvula de segurança. Trazer água do Paraíba do Sul ajuda a segurar os níveis do Cantareira durante a seca, ganhando tempo até que as chuvas voltem. É uma forma de evitar que a metrópole chegue a uma situação crítica de novo.
A pressão sobre o Cantareira também vem do tamanho da demanda. A Grande São Paulo concentra mais de 20 milhões de habitantes, e qualquer falha no abastecimento afeta um contingente enorme. Garantir água para tanta gente exige um sistema robusto e cheio de alternativas, como a interligação operada pela Sabesp.
“Superou o São Francisco em tecnologia”?
A obra costuma ser comparada a outra gigante do país. Segundo a publicação Cimento Itambé, a interligação Jaguari-Atibainha teria superado até a transposição do Rio São Francisco em termos de tecnologia empregada. É um enquadramento da fonte, e não um consenso absoluto.
A comparação faz sentido por um motivo técnico. A transposição do São Francisco usa, em boa parte, canais que aproveitam a gravidade para levar a água. Já a interligação paulista precisa bombear a água morro acima, através de um túnel na rocha, o que exige uma engenharia diferente e muito potente.
Cada obra, porém, tem sua própria grandeza. O São Francisco é gigantesco em extensão e alcance social no Nordeste, enquanto a Jaguari-Atibainha se destaca pela complexidade de vencer o relevo com bombas e túnel. Comparar as duas ajuda a valorizar os desafios de cada projeto.
O importante é o que essas obras representam. Tanto a transposição do São Francisco quanto a interligação da Sabesp mostram como o Brasil recorre à grande engenharia para redistribuir água e enfrentar a escassez. São respostas de peso para um problema que tende a crescer com as mudanças climáticas.
De onde vem a água: o rio Paraíba do Sul e a conta com o Rio
A água que socorre São Paulo tem origem em uma bacia disputada. O rio Paraíba do Sul, de onde parte a transferência, também abastece cidades do interior paulista e, principalmente, o estado do Rio de Janeiro. Por isso, mexer nesse volume envolve negociação entre estados.
O acordo firmado busca proteger todos os lados. Segundo a ANA, a autorização mantém garantias para o abastecimento do Rio de Janeiro, preservando a vazão mínima no barramento de Santa Cecília e o bombeamento para o rio Guandu, que é vital para a capital fluminense. Ninguém pode ficar sem água.
Esse cuidado evita conflitos entre vizinhos. Transferir água de uma bacia para outra é sempre delicado, porque o que sobra para um pode faltar para o outro. Por isso, a interligação Jaguari-Atibainha opera com limites e monitoramento, para não transformar a solução de São Paulo em problema do Rio.
No fim, a obra beneficia uma população enorme dos dois lados. Ao equilibrar as necessidades, a transferência ajuda a dar segurança hídrica a dezenas de milhões de pessoas em São Paulo, Campinas, no Vale do Paraíba e no Rio de Janeiro. É um esforço coletivo por um recurso cada vez mais valioso.
Transposições de bacia, porém, dividem opiniões entre especialistas. Se, por um lado, salvam metrópoles da falta de água, por outro podem estimular o desperdício e adiar soluções como reduzir perdas na rede e reusar a água. A interligação Jaguari-Atibainha é remédio importante, mas não substitui o combate ao desperdício.
E você, sabia que São Paulo bombeia água morro acima para não secar?
A interligação Jaguari-Atibainha mostra o tamanho do esforço para garantir água à maior metrópole do país. Com um túnel de 6,4 quilômetros na rocha e seis bombas de 5.000 CV vencendo 200 metros de desnível, a Sabesp empurra a água morro acima para reforçar o Cantareira, agora com aval da ANA para transferir até 268,28 hectômetros cúbicos.
E você, imaginava que era preciso bombear rios inteiros montanha acima para abastecer São Paulo? Conta aqui nos comentários o que achou dessa obra de engenharia e se acredita que projetos assim são o caminho para o Brasil enfrentar as próximas crises de água.

