O Berkeley Pit, em Butte, Montana, é um lago de 190 bilhões de litros de água ácida que sobrou de uma mina de cobre abandonada em 1982, com concentração de metais 5.000% acima do limite de água potável, e agora cientistas encontraram nele o conjunto completo de 17 terras raras prontas para serem filtradas.
A lógica é simples e ao mesmo tempo surpreendente. Quando a mineração parou e as bombas foram desligadas, a água subterrânea e a chuva inundaram o buraco de 1,6 km de comprimento e mais de 540 metros de profundidade. Essa água entrou em contato com minerais sulfetados expostos pela mineração, reagiu com o ar e produziu ácido sulfúrico natural que passou décadas dissolvendo metais e terras raras presos na rocha ao redor. O processo se chama drenagem ácida de mina, e o resultado é um reator químico gigante a céu aberto.
O que surpreendeu os pesquisadores é que esse reator não concentrou apenas cobre e zinco. Ele acumulou o espectro completo de terras raras, incluindo neodímio, praseodímio e disprósio, elementos essenciais para fabricar os ímãs que giram dentro de turbinas eólicas e motores de carros elétricos. A demanda global por esses elementos vai crescer à medida que países investirem em energia renovável e mobilidade elétrica.
Por que extrair terras raras de um lago tóxico em vez de abrir uma nova mina

Terras raras não são realmente raras na natureza. Elas estão espalhadas pela crosta terrestre, mas raramente aparecem em concentrações altas o suficiente para justificar a mineração.
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Extrair e refinar esses elementos por métodos convencionais gera impacto ambiental significativo, exige escavação em larga escala e envolve processamento químico pesado.
No Berkeley Pit, a química ácida já fez a etapa mais difícil: arrancou os metais da rocha e os dissolveu na água.
O hidrogeólogo Jackson Quarles, que lidera a pesquisa no local, usa um submersível equipado com câmera 4K e coletor de sedimentos para mapear onde esses elementos estão mais concentrados.
Segundo ele, o lago contém uma distribuição completa de terras raras que não foi encontrada em nenhum outro local nos Estados Unidos.
Na maioria dos depósitos, aparece um ou dois elementos do grupo. No Berkeley Pit, apareceram todos os 17.
O que torna esse lago diferente de qualquer outro depósito de terras raras do mundo

Os elementos ainda estão dissolvidos na água e não precipitaram para o sedimento do fundo.
Isso significa que o processamento é muito mais simples do que seria se os pesquisadores precisassem lidar com rocha sólida ou lama mineralizada.
A equipe está testando técnicas químicas que se ligam especificamente a terras raras, separando-as dos outros metais tóxicos presentes na solução.
E tem um benefício duplo: ao retirar os metais da água, o processo reduz a contaminação do lago. Extrair terras raras e limpar a poluição são a mesma operação.
A ideia ainda está em fase inicial e não vai substituir a mineração convencional amanhã, mas pode reduzir a necessidade de abrir novos buracos no futuro.
O Berkeley Pit foi designado pela EPA como Superfund site em 1987, o que obriga os responsáveis pela poluição a financiar a limpeza.
Existe prova de que esse tipo de restauração funciona na prática
A poucos quilômetros do Berkeley Pit, o Milltown State Park mostra que sim.
O local era uma barragem que acumulou mais de 3 milhões de toneladas de sedimento contaminado por resíduos de mineração.
Após anos de trabalho, a barragem foi removida, 4 km de canal do rio foram reengenheirados e dezenas de milhares de árvores foram plantadas.
O parque abriu ao público em 2018 e hoje funciona com pesca, trilha e vida selvagem onde antes havia pilhas de resíduo tóxico.
O Berkeley Pit não vai voltar a ser o que era antes da mineração.
Mas a mesma química que envenenou o lago está concentrando os elementos que o mundo moderno precisa.
Se a extração se provar viável, um dos maiores desastres ambientais da mineração americana pode se transformar na demonstração de que limpar o passado e abastecer o futuro podem ser a mesma coisa.
E você, acha que o Brasil deveria investir em extrair terras raras de resíduos de mineração em vez de abrir novas minas, ou os dois caminhos precisam andar juntos? Comenta aí.


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