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Tarifa zero pode virar o “novo Bolsa Família” dos ônibus e trilhos, aliviar o bolso das famílias e ainda colocar R$ 60,3 bilhões para girar na economia

Escrito por Caio Aviz
Publicado em 05/05/2026 às 12:19
Atualizado em 05/05/2026 às 12:21
Passageiros embarcam em ônibus urbano em ponto movimentado, em cena que ilustra debate sobre tarifa zero no transporte público.
Passageiros embarcam em ônibus urbano durante rotina de deslocamento, em contexto ligado ao debate sobre tarifa zero e renda disponível.
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Gratuidade em ônibus e trilhos poderia ampliar renda disponível, reduzir desigualdades e beneficiar principalmente periferias, população negra e famílias vulneráveis

A tarifa zero no transporte público das 27 capitais brasileiras poderia provocar um impacto econômico anual de R$ 60,3 bilhões, segundo estudo divulgado nesta terça-feira, 5, por pesquisadores da Universidade de Brasília (UnB) e da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

De acordo com a pesquisa, a gratuidade em ônibus e trilhos poderia funcionar como uma política de distribuição de renda. Nesse sentido, o efeito seria comparado ao impacto do Bolsa Família, criado há duas décadas como referência nacional no combate à pobreza.

© Marcelo Camargo/Agência Brasil

Estudo aponta efeito direto no bolso das famílias

A pesquisa, intitulada A tarifa zero no transporte público como política de distribuição de renda, foi coordenada pelo professor Thiago Trindade, do Instituto de Ciência Política da UnB.

Conforme o levantamento, a gratuidade no transporte metropolitano de ônibus e trilhos poderia transformar o gasto diário com passagens em renda disponível.

Assim, milhões de famílias deixariam de comprometer parte do orçamento com deslocamentos obrigatórios.

Segundo os pesquisadores, esse dinheiro retornaria rapidamente à economia por meio do consumo.

Portanto, a política teria efeito direto no comércio, na arrecadação e na circulação de renda.

Injeção real chegaria a R$ 45,6 bilhões

No entanto, o estudo descontou 24,38% das gratuidades e isenções já existentes no país.

Atualmente, idosos, estudantes e pessoas com deficiência já contam com benefícios tarifários em diferentes sistemas.

Esse volume representa cerca de R$ 14,7 bilhões que já circulam na economia.

Por isso, segundo os pesquisadores, a injeção real gerada pela tarifa zero seria de R$ 45,6 bilhões por ano.

Para chegar ao cálculo, os pesquisadores utilizaram dados da Pesquisa Nacional de Mobilidade de 2024 e indicadores das operadoras de ônibus e dos sistemas metroferroviários.

Tarifa zero poderia funcionar como salário indireto

Segundo Thiago Trindade, a medida representaria uma injeção de liquidez imediata no bolso das famílias brasileiras.

Dessa forma, o valor antes usado em passagens viraria renda disponível para outras despesas.

Ainda conforme os pesquisadores, a gratuidade teria maior impacto entre a população vulnerável.

Principalmente, entre moradores de periferias, trabalhadores de baixa renda e população negra.

Por esse motivo, o estudo trata a tarifa zero como uma espécie de salário indireto.

Assim, o transporte público gratuito deixaria de ser apenas uma política de mobilidade e passaria a atuar também contra desigualdades sociais e raciais.

Gratuidade poderia ser tratada como direito social

De acordo com a pesquisa, a tarifa zero poderia ser entendida como um direito social, em lógica semelhante ao SUS e à educação pública.

Nesse contexto, os pesquisadores afirmam que uma política nacional de transporte gratuito reforçaria o protagonismo do Brasil em experiências globais de redução de desigualdades.

Portanto, a proposta aparece no estudo como uma ação de mobilidade urbana, distribuição de renda e aprofundamento democrático.

Financiamento poderia substituir o vale-transporte

Por fim, o estudo também aponta caminhos para financiar uma política nacional de transporte público gratuito.

Segundo professores da UnB, uma possibilidade seria substituir o atual sistema de vale-transporte por outro modelo.

Nesse formato, empresas privadas e públicas com dez ou mais funcionários poderiam contribuir para o financiamento da gratuidade.

Entretanto, conforme estimativa do grupo de pesquisa, 81,5% dos estabelecimentos ficariam isentos da contribuição.

Assim, a proposta buscaria ampliar a tarifa zero sem atingir a maior parte das empresas.

Segundo Thiago Trindade, seria possível criar um programa nacional de tarifa zero sem onerar o orçamento da União.

Diante desse cenário, a pergunta que fica é direta: a tarifa zero deveria ser tratada apenas como política de transporte ou como uma nova ferramenta nacional de distribuição de renda?

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