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Talvez você nunca tenha ouvido falar da ureia, mas ataques com mísseis no Irã estão destruindo sua produção e isso pode afetar diretamente a comida no seu prato

Escrito por Felipe Alves da Silva
Publicado em 10/03/2026 às 17:30
Atualizado em 10/03/2026 às 17:31
Campo agrícola com referência ao Oriente Médio e indústria de fertilizantes representando crise global da ureia causada pela guerra no Irã.
Conflito no Oriente Médio ameaça produção de ureia, fertilizante essencial responsável por grande parte da produção global de alimentos.
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Conflito no Oriente Médio atinge produção de fertilizantes essenciais, ameaça cadeia global de alimentos e levanta alerta sobre possível impacto nos preços de trigo, milho, arroz e outros produtos básicos

No início do século XX, o mundo vivia um dilema que parecia insolúvel. A população crescia rapidamente e, ao mesmo tempo, as colheitas não eram suficientes para alimentar todos. Agricultores enfrentavam limitações naturais de produtividade, e especialistas temiam que a escassez de alimentos se tornasse um dos maiores desafios da humanidade.

Foi nesse cenário que surgiu uma solução revolucionária. A química industrial permitiu criar um processo capaz de fabricar nutrientes artificiais para as plantas, ampliando drasticamente a produtividade agrícola em todo o planeta. Com o avanço dessa tecnologia, as colheitas se multiplicaram e a produção global de alimentos entrou em uma nova era.

Entretanto, apesar de sustentar bilhões de pessoas, esse sistema que garante comida nas mesas do mundo inteiro depende de uma cadeia de suprimentos extremamente delicada. Hoje, uma guerra localizada no Oriente Médio pode ameaçar esse equilíbrio global, principalmente por causa de uma substância pouco conhecida fora do setor agrícola: a ureia.

O fertilizante invisível que sustenta metade da produção global de alimentos

Talvez você nunca tenha ouvido falar da ureia. Ainda assim, esse composto químico se tornou um dos pilares silenciosos da agricultura moderna. Trata-se do fertilizante nitrogenado mais utilizado em todo o planeta e, de forma indireta, ele é responsável por aproximadamente metade da produção global de alimentos.

A função da ureia é relativamente simples, mas absolutamente crucial. Ela fornece nitrogênio para as plantações, nutriente essencial para o crescimento rápido das plantas e para o aumento da produtividade agrícola. Graças a esse processo, culturas fundamentais como trigo, milho e arroz conseguem alcançar rendimentos muito maiores do que seria possível apenas com nutrientes naturais do solo.

Para se ter uma ideia da sua importância, cerca de metade da produção mundial de alimentos depende de fertilizantes sintéticos à base de nitrogênio, e a ureia é o mais difundido entre eles. Sem esse insumo, especialistas alertam que a produção agrícola global poderia despencar drasticamente, colocando em risco a segurança alimentar de diversos países.

Além disso, a ureia se tornou uma peça fundamental em um sistema agrícola globalizado. Agricultores em todos os continentes dependem de fertilizantes produzidos em poucos polos industriais espalhados pelo mundo, o que torna o abastecimento vulnerável a crises geopolíticas.

Oriente Médio e Estreito de Ormuz: o coração da cadeia global de fertilizantes

Grande parte dessa estrutura agrícola global depende diretamente de uma região muito específica do planeta: o Golfo Pérsico. O Oriente Médio abriga algumas das maiores fábricas de fertilizantes do mundo e também fornece matérias-primas fundamentais para sua produção, como amônia e enxofre.

Ao mesmo tempo, existe um ponto geográfico que se tornou essencial para o transporte desses produtos: o Estreito de Ormuz. Essa hidrovia estreita conecta o Golfo Pérsico ao restante do planeta e funciona como uma verdadeira artéria logística para o comércio global de fertilizantes.

Entre um quarto e um terço do tráfego mundial de matérias-primas utilizadas na produção de fertilizantes passa por essa região. Além disso, aproximadamente 35% das exportações globais de ureia atravessam o Estreito de Ormuz, assim como 45% do comércio mundial de enxofre, outro insumo essencial para a indústria química agrícola.

Dessa forma, qualquer interrupção nesse corredor marítimo pode gerar impactos imediatos em toda a cadeia produtiva de alimentos. E é exatamente isso que especialistas começaram a observar nas últimas semanas.

Guerra no Irã começa a provocar efeitos em toda a cadeia alimentar global

A escalada militar envolvendo o Irã e as tensões nas proximidades do Estreito de Ormuz já começaram a afetar esse delicado sistema global de fertilizantes. Ataques com mísseis, drones e incidentes envolvendo navios estão reduzindo drasticamente o tráfego marítimo na região.

De acordo com informações divulgadas pelo Financial Times, diversos navios comerciais passaram a evitar a área devido ao risco crescente de ataques, enquanto instalações industriais no Golfo Pérsico sofreram danos diretos em meio aos confrontos.

No Catar, por exemplo, uma das maiores fábricas de fertilizantes do mundo precisou interromper suas operações após um ataque com drones. Ao mesmo tempo, o próprio Irã suspendeu parte da sua produção de amônia, matéria-prima fundamental para a fabricação de fertilizantes nitrogenados.

Cada novo ataque na região representa mais do que um evento militar. Na prática, significa também um golpe na produção global de fertilizantes e, consequentemente, na capacidade agrícola de diversos países.

Quando a ureia desaparece, os alimentos ficam mais caros

O impacto da interrupção no fornecimento de fertilizantes pode se espalhar rapidamente por toda a cadeia alimentar global. Quando agricultores não conseguem aplicar fertilizantes suficientes em suas lavouras, a consequência imediata é uma queda na produtividade.

Alguns especialistas estimam que a falta de fertilizantes pode reduzir as colheitas em até 50% já na primeira safra afetada. Esse tipo de redução pode provocar um efeito dominó que começa nas fazendas e termina diretamente no bolso dos consumidores.

Inicialmente, produtos básicos como trigo, milho e arroz passam a ficar mais caros. Em seguida, alimentos derivados também sofrem aumento de preço. O pão pode encarecer em poucas semanas, enquanto produtos como ovos, frango e carne de porco tendem a subir meses depois, já que o custo da ração animal aumenta gradualmente.

Assim, uma crise aparentemente distante — iniciada em uma zona de conflito no Oriente Médio — pode acabar impactando diretamente o preço da comida em supermercados ao redor do mundo.

Gás natural: o ingrediente oculto por trás dos fertilizantes

Outro fator essencial para entender essa cadeia produtiva é o gás natural. A fabricação de fertilizantes nitrogenados depende fortemente desse combustível, que é utilizado no processo químico responsável por transformar o nitrogênio presente na atmosfera em compostos utilizáveis pelas plantas.

Entre 60% e 80% do custo de produção dos fertilizantes está diretamente relacionado ao gás natural empregado nesse processo industrial. Portanto, qualquer aumento no preço da energia ou interrupção no fornecimento impacta imediatamente o custo final desses produtos.

Com a guerra elevando os preços da energia e danificando infraestruturas industriais na região do Golfo, os custos de produção dispararam. Em apenas alguns dias, o preço internacional da ureia subiu mais de 25%, alcançando aproximadamente US$ 625 por tonelada, o equivalente a cerca de R$ 3.277.

Esse aumento repentino acende um alerta em todo o setor agrícola, principalmente porque ocorre em um momento particularmente sensível do calendário agrícola global.

Um possível choque alimentar global

O problema se torna ainda mais grave porque a crise ocorre justamente durante o período de plantio no Hemisfério Norte. Em grande parte da Europa, da América do Norte e da Ásia, os agricultores estão iniciando a temporada de primavera — momento em que compram e aplicam os fertilizantes que determinarão a produtividade das colheitas do ano.

Se o bloqueio logístico no Estreito de Ormuz ou os danos à infraestrutura de fertilizantes durarem mais do que algumas semanas, os efeitos podem ultrapassar o setor energético ou o transporte marítimo.

Nesse cenário, uma crise geopolítica regional pode rapidamente evoluir para algo muito mais amplo. Economistas e analistas de mercado já alertam que o mundo pode enfrentar um novo choque alimentar global, semelhante — ou até mais intenso — do que o observado após a invasão russa da Ucrânia em 2022.

Assim, a guerra no Irã pode acabar sendo travada não apenas com mísseis e drones, mas também nos campos agrícolas que produzem alimentos para metade da população do planeta.

Com informações de: Xataka

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Felipe Alves da Silva

Sou Felipe Alves, com experiência na produção de conteúdo sobre segurança nacional, geopolítica, tecnologia e temas estratégicos que impactam diretamente o cenário contemporâneo. Ao longo da minha trajetória, busco oferecer análises claras, confiáveis e atualizadas, voltadas a especialistas, entusiastas e profissionais da área de segurança e geopolítica. Meu compromisso é contribuir para uma compreensão acessível e qualificada dos desafios e transformações no campo estratégico global. Sugestões de pauta, dúvidas ou contato institucional: fa06279@gmail.com

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