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Superbactéria considerada ameaça crítica pela OMS é encontrada pela primeira vez em alimento no Brasil e acende alerta sobre riscos invisíveis à saúde pública

Escrito por Jefferson Augusto
Publicado em 05/06/2026 às 20:25
Atualizado em 05/06/2026 às 21:20
Ostras frescas analisadas em estudo sobre superbactérias resistentes a antibióticos.
Pesquisa identificou bactéria considerada crítica pela OMS em ostras comercializadas no Brasil.
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Descoberta feita em ostras comercializadas no Brasil revela avanço silencioso da resistência antimicrobiana, levanta preocupações sobre fiscalização alimentar e expõe desafios que podem impactar saúde, economia e exportações

Uma descoberta científica realizada no Brasil acendeu um importante sinal de alerta para autoridades sanitárias, pesquisadores e consumidores. Em agosto de 2025, cientistas da Universidade de São Paulo (USP) e do Instituto de Pesca de São Paulo identificaram pela primeira vez em alimentos brasileiros a bactéria Citrobacter telavivensis, considerada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) uma ameaça de prioridade crítica devido à sua elevada resistência a antibióticos.

A informação foi divulgada originalmente pelo portal The Conversation Brasil, em artigo assinado pelos pesquisadores Leonardo Vazquez e Ana Lúcia do Amaral Vendramini, ambos ligados à Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). O estudo mostra que a resistência antimicrobiana não está mais restrita aos hospitais e já alcançou a cadeia alimentar, criando novos desafios para a saúde pública mundial.

O alimento analisado eram ostras frescas adquiridas em mercados dos estados de São Paulo e Santa Catarina. Apesar da descoberta, nenhuma das amostras teria sido reprovada pelos protocolos sanitários atualmente utilizados no país, o que amplia a preocupação dos especialistas.

Além disso, os pesquisadores destacam que a presença da bactéria resistente foi identificada em produtos considerados aptos para consumo, evidenciando uma lacuna importante nos sistemas de monitoramento utilizados atualmente.

Resistência antimicrobiana cresce e preocupa especialistas em todo o mundo

A resistência antimicrobiana já figura entre as dez maiores ameaças globais à saúde segundo a Organização Mundial da Saúde. Nos últimos anos, especialistas passaram a observar um crescimento acelerado do problema, principalmente devido ao uso excessivo de antibióticos em seres humanos, animais e sistemas produtivos.

Em outubro de 2025, o relatório GLASS, publicado pela OMS, revelou um dado alarmante. Uma em cada seis infecções bacterianas registradas entre 2018 e 2023 apresentou resistência aos antibióticos utilizados no tratamento. O aumento ultrapassou 40% no período analisado.

Diante desse cenário, a Assembleia Mundial da Saúde aprovou em maio de 2025 um novo Plano Global de Ação para o período de 2026 a 2036. A medida reconhece que, sem intervenções efetivas, as chamadas superbactérias poderão provocar até 39 milhões de mortes por ano até 2050, número superior às projeções atuais relacionadas ao câncer.

Embora grande parte das discussões sobre resistência antimicrobiana ainda esteja concentrada nos ambientes hospitalares, os dados mais recentes mostram uma realidade diferente. Cada vez mais essas bactérias estão presentes no meio ambiente, na produção de alimentos e em ecossistemas aquáticos.

Consequentemente, especialistas defendem uma abordagem mais ampla para combater o problema, envolvendo saúde pública, agricultura, pecuária, aquicultura e proteção ambiental.

Por que as ostras revelam problemas ocultos dos oceanos?

As ostras possuem uma característica biológica que as transforma em verdadeiros indicadores da qualidade ambiental. Esses animais são filtradores naturais e bombeiam continuamente grandes volumes de água para obter alimento.

Durante esse processo, elas acumulam em seus organismos diversos elementos presentes no ambiente, incluindo vírus, bactérias, resíduos de medicamentos, metais pesados e outros contaminantes.

Por esse motivo, muitos pesquisadores classificam as ostras como sentinelas ambientais. Em outras palavras, aquilo que está presente na água tende a aparecer também nesses moluscos.

No estudo realizado em 2025, os cientistas encontraram não apenas a Citrobacter telavivensis, mas também cepas de Klebsiella pneumoniae e Escherichia coli resistentes a antibióticos considerados de última geração.

Além disso, 35% das amostras analisadas apresentaram concentrações de arsênio superiores ao limite máximo permitido pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

Os pesquisadores identificaram ainda um fenômeno conhecido como co-seleção. Nesse processo, tanto o arsênio quanto resíduos de antibióticos presentes no ambiente favorecem simultaneamente o desenvolvimento de bactérias resistentes a ambos os agentes.

Como resultado, áreas contaminadas passam a funcionar como verdadeiras incubadoras de resistência bacteriana.

Protocolos atuais não foram criados para detectar superbactérias

Quando peixes, moluscos e outros produtos de origem aquática chegam às indústrias de processamento, eles passam por sistemas de controle reconhecidos internacionalmente.

Entre eles estão o HACCP, o APPCC e as Boas Práticas de Fabricação. Esses protocolos verificam temperatura, higiene, contaminação microbiológica geral e presença de patógenos específicos como Salmonella e Listeria.

Entretanto, existe uma limitação importante.

Os sistemas atuais normalmente não analisam o perfil de resistência antimicrobiana das bactérias encontradas nos alimentos. Isso significa que um produto pode conter microrganismos altamente resistentes e ainda assim ser liberado para consumo caso os demais parâmetros estejam dentro dos padrões exigidos.

Segundo os especialistas, isso ocorre porque muitos desses protocolos foram desenvolvidos antes que a resistência antimicrobiana alcançasse a dimensão observada atualmente.

Por consequência, as normas continuam preparadas para enfrentar problemas sanitários do passado, enquanto novos riscos emergem rapidamente.

Biofilmes tornam as superbactérias ainda mais resistentes

Outro aspecto preocupante envolve a formação dos chamados biofilmes bacterianos.

Bactérias resistentes, como o Staphylococcus aureus resistente à meticilina, conseguem aderir a superfícies industriais, equipamentos, tubulações e bancadas, formando estruturas altamente protegidas.

Esses biofilmes funcionam como uma espécie de escudo biológico. Dentro deles, as bactérias podem se tornar entre 100 e 1.000 vezes mais resistentes aos antibióticos e também aos produtos químicos utilizados nos processos de higienização industrial.

Uma pesquisa publicada em 2023 na revista científica Bioscience, Biotechnology, and Biochemistry trouxe resultados promissores nesse campo.

O estudo, conduzido juntamente com a equipe da professora Fernanda Sampaio Cavalcante, da UFRJ-Macaé, demonstrou que uma enzima chamada lugdulisina consegue impedir a formação desses biofilmes e até destruir estruturas já estabelecidas em laboratório.

A lugdulisina é uma metaloprotease capaz de degradar a matriz proteica que protege as bactérias, tornando-as novamente vulneráveis.

Embora os resultados ainda estejam em fase experimental, eles apontam para uma possível alternativa biotecnológica no combate às superbactérias.

O que precisa mudar para evitar uma crise maior?

Especialistas afirmam que não existe uma solução única para enfrentar o avanço da resistência antimicrobiana.

O problema começa no uso de antibióticos na pecuária e na aquicultura. Atualmente, mais de 75% dos antibióticos produzidos no mundo são destinados aos animais.

Além disso, fatores como saneamento básico inadequado, descarte incorreto de medicamentos, poluição ambiental e falhas nos sistemas de monitoramento contribuem para acelerar o fenômeno.

No Brasil, o Ministério da Agricultura iniciou em 2023 a segunda etapa do Plano de Ação Nacional de Prevenção e Controle da Resistência aos Antimicrobianos no âmbito Agropecuário.

O programa monitora principalmente Salmonella em aves, suínos e bovinos. No entanto, pescados, moluscos e peixes ainda permanecem fora dessa cobertura.

Diante disso, pesquisadores defendem três medidas urgentes. A primeira é incluir o pescado nos programas nacionais de vigilância antimicrobiana. A segunda consiste em atualizar os protocolos de qualidade alimentar para incorporar testes de resistência bacteriana e rastreabilidade mais avançada. Por fim, a terceira envolve ampliar o financiamento de pesquisas voltadas ao desenvolvimento de novas tecnologias, incluindo agentes biológicos capazes de combater biofilmes.

A presença de superbactérias em alimentos não representa apenas um problema sanitário. Ela também pode afetar diretamente a competitividade internacional do setor pesqueiro brasileiro.

Mercados exigentes, como União Europeia e Estados Unidos, já adotam padrões rigorosos relacionados à resistência antimicrobiana. Portanto, além do risco à saúde pública, existe um potencial impacto econômico relevante para as exportações nacionais.

A descoberta da Citrobacter telavivensis em ostras brasileiras mostra que as superbactérias não permanecem confinadas aos hospitais. Elas acompanham os caminhos da pressão seletiva criada pela ação humana e, nos últimos anos, encontraram no ambiente marinho um novo espaço para se desenvolver.

Diante desse cenário, a pergunta que fica é: você acredita que os sistemas atuais de fiscalização alimentar estão preparados para enfrentar a ameaça crescente das superbactérias presentes na cadeia de alimentos?

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