Exploração ultraprofundas avança com submersível chinês capaz de chegar ao Challenger Deep, em uma campanha de dezenas de operações no Pacífico.
O submersível tripulado chinês Fendouzhe, conhecido em inglês como “Striver”, consolidou a presença da China no grupo restrito de países capazes de levar pessoas às regiões mais profundas do oceano.
Em testes e expedições no Pacífico, a embarcação chegou ao Challenger Deep, na Fossa das Marianas, a cerca de 10.909 metros, e somou dezenas de operações no mar, incluindo uma campanha que completou 23 descidas e levou 27 cientistas a áreas onde a pressão é extrema, segundo comunicados e relatos divulgados por instituições e veículos estatais chineses.
Challenger Deep e zona hadal: por que o ultrafundo é tão hostil
A partir de aproximadamente seis mil metros começa a chamada zona hadal, um ambiente marcado por escuridão permanente, água muito fria e pressão hidrostática que cresce a cada metro de profundidade.
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Nessa faixa, falhas mínimas de vedação, materiais inadequados ou sistemas elétricos expostos podem comprometer toda a operação.
Por isso, há poucos submersíveis tripulados com capacidade real de operar no “fundo total” do oceano.
Estudos recentes sobre a biodiversidade dessas trincheiras reforçam como o ambiente hadal impõe limites severos à presença humana e à instrumentação científica.
No caso do Challenger Deep, que é o ponto mais profundo conhecido dos oceanos, a pressão chega a patamares próximos de mil atmosferas.
Isso exige um casco que suporte tensões comparáveis às usadas em aplicações industriais de alta exigência.
Por isso, os projetos que chegam a essa região costumam apostar em geometrias que distribuem a carga de forma uniforme, como o casco esférico.
23 descidas e o recorde de 27 cientistas nas profundezas
Os registros associados ao Fendouzhe incluem o mergulho que atingiu o fundo do Challenger Deep em novembro de 2020.
Na ocasião, o submersível alcançou 10.909 metros durante os testes no mar.

Já a campanha de 53 dias citada por veículos chineses, concluída mais tarde, relata 23 descidas no período.
Parte delas ultrapassou 10 mil metros.
Em outras palavras, os 23 mergulhos se referem ao total de descidas da expedição, não necessariamente a 23 idas além de 10.900 metros.
Nesse mesmo conjunto de operações, comunicados e reportagens apontaram que o Fendouzhe levou 27 cientistas ao ultrafundo.
O número é apresentado como recorde para missões tripuladas em profundidades superiores a 10 mil metros.
A informação aparece em textos que atribuem os dados ao instituto ligado à Academia Chinesa de Ciências e à equipe responsável pelos testes.
Full-ocean-depth: o que muda quando um submersível alcança 100% do oceano
O submersível foi entregue ao Institute of Deep-sea Science and Engineering, entidade vinculada à Academia Chinesa de Ciências, em março de 2021.
A própria instituição descreve o Fendouzhe como um veículo full-ocean-depth.
Ou seja, concebido para atuar em qualquer profundidade oceânica conhecida, com capacidade de transportar tripulação e operar equipamentos científicos no fundo.
Mesmo com foco em mergulhos extremos, o histórico operacional do submersível também inclui missões em profundidades menores.

Em geral, elas são voltadas à coleta de água, sedimentos, rochas e organismos.
Essa combinação é comum em programas de pesquisa.
Expedições ultraprofundas são raras, complexas e caras, enquanto operações em cotas menos severas ampliam o volume de amostras e permitem comparar ambientes distintos ao longo da coluna d’água.
Casco esférico, titânio e eletrônica: engenharia para sobreviver ao ultrafundo
Para suportar pressões do ultrafundo, o Fendouzhe usa um casco de pressão esférico de liga de titânio.
A solução é amplamente adotada em submersíveis tripulados por distribuir melhor o esforço.
Textos técnicos e materiais institucionais ligados à Academia Chinesa de Ciências descrevem o uso de ligas especiais de titânio para esse tipo de aplicação.
Eles também relacionam o projeto do Fendouzhe aos desafios de operar perto de 11 mil metros.
Outro ponto sensível é a eletrônica embarcada.
Em grandes profundidades, componentes precisam ficar isolados e protegidos para evitar infiltrações, corrosão e danos por pressão.
Parte das soluções emprega compartimentos com fluido isolante e módulos pressurizados para baterias e sistemas elétricos.
Isso ajuda a manter o funcionamento de instrumentos e sensores durante a permanência no fundo.
Revisões recentes sobre tecnologias para ambientes extremos citam como a operação em “full ocean depth” exige vedação e engenharia de alta robustez para câmeras e sistemas ópticos.
Pesquisa na Fossa das Marianas: o que a ciência procura nas zonas hadais
Além do feito tecnológico, a importância do Fendouzhe está no acesso regular a um ambiente ainda pouco amostrado.
Um dos esforços científicos associados a essas expedições é o Mariana Trench Environment and Ecology Research Project (MEER).
O projeto reúne instituições chinesas e pesquisadores parceiros para investigar a ecologia e a dinâmica ambiental das trincheiras.
Trabalhos recentes ligados ao projeto descrevem uma visão mais sistemática do ecossistema hadal.
Eles também ampliam o debate sobre como a vida se adapta a pressões extremas e baixa disponibilidade de nutrientes.
Nesse tipo de pesquisa, cada amostra de sedimento ou organismo pode abrir novas frentes de estudo.
Elas vão de genética e fisiologia até geologia do fundo oceânico.
Ao mesmo tempo, a ampliação da presença humana nessas áreas coloca pressão por protocolos rígidos de coleta e documentação.
O objetivo é evitar contaminações e permitir que outros grupos comparem resultados em futuras campanhas.
Com mais países tentando alcançar o “fundo do fundo”, a corrida deixa de ser apenas pela profundidade máxima.
Ela passa a incluir frequência de missões, qualidade das amostras e capacidade de operar com segurança repetidas vezes em condições extremas.
Quem vai transformar esse acesso em descobertas que mudem o que se sabe sobre a vida e a geologia nas regiões mais profundas do planeta?


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