Nike já reciclou mais de 30 milhões de pares de tênis e reaproveitou 67 mil toneladas de materiais em quadras, pistas, playgrounds e novos produtos.
Durante décadas, bilhões de pares de tênis terminaram em aterros sanitários ao redor do mundo após perderem a utilidade esportiva. Em meio a esse cenário, a Nike decidiu criar uma alternativa para reaproveitar parte desse material e transformá-lo em novas superfícies esportivas, equipamentos e até novos produtos da própria marca.
O resultado foi o Nike Grind, um dos maiores programas privados de reciclagem de artigos esportivos do planeta. Segundo a Nike, desde sua criação em 1992, a iniciativa já reaproveitou mais de 148 milhões de libras de materiais reciclados, o equivalente a aproximadamente 67 mil toneladas, provenientes de calçados usados, sobras industriais e resíduos de fabricação. A iniciativa é divulgada pela própria empresa em seu site oficial.
Mais de 30 milhões de pares de tênis já foram reciclados pela Nike desde o início do programa Reuse-A-Shoe
Antes mesmo do Nike Grind ganhar escala global, a empresa lançou o programa Reuse-A-Shoe, criado para recolher tênis usados de qualquer marca e evitar que fossem descartados em aterros.
-
Navio graneleiro chega ao litoral brasileiro e realiza a primeira atracação de carga da história do Porto Piauí, abrindo uma rota inédita para minério de ferro rumo à China após mais de um século de espera logística
-
Escassez de mão de obra: mesmo com o Brasil formando cada vez mais médicos, falta de anestesistas ajuda a cancelar cirurgias e revela um gargalo invisível nos hospitais
-
A ferrovia chinesa que parece ter sido construída no lugar errado: são 1.956 quilômetros entre montanhas, áreas congeladas e regiões com pouco oxigênio, até alcançar um ponto mais alto que muitas cidades jamais sonhariam alcançar
-
Depois que uma porta se soltou em pleno voo de um 737, a Boeing recomprou por 8,3 bilhões de dólares a Spirit AeroSystems, a mesma fabricante de fuselagens que ela própria havia terceirizado quase 20 anos antes para cortar custos
Segundo a NineSigma, parceira em projetos de inovação sustentável, o programa já reciclou mais de 30 milhões de pares de tênis desde 1990, incluindo calçados produzidos por concorrentes da própria Nike. Os materiais recuperados são separados em borracha, espuma e fibras têxteis, dando origem a novas aplicações industriais.
A Nike não divulga atualmente um balanço anual consolidado sobre quantos pares são processados por ano. No entanto, estimativas associadas ao programa indicam que aproximadamente 1,5 milhão de pares de tênis entram anualmente na cadeia de reciclagem, embora o volume varie conforme a disponibilidade de pontos de coleta e a demanda por materiais reciclados.
Solados, espuma e tecido dos tênis viram quadras, playgrounds, pistas de corrida e pisos esportivos
O processo industrial começa com a desmontagem dos calçados. Segundo a Nike, cada tênis é separado em três grupos principais de materiais: borracha do solado, espuma da entressola e tecidos presentes no cabedal. Esses componentes são triturados, refinados e transformados em granulado reciclado de alto desempenho.
A borracha reciclada aparece em pistas de atletismo, campos sintéticos, playgrounds, pisos para academias e quadras esportivas. A espuma é utilizada em superfícies que exigem absorção de impacto, enquanto as fibras têxteis podem integrar sistemas de amortecimento e revestimentos internos.
Segundo a NineSigma, os materiais Nike Grind já foram incorporados em mais de 1 bilhão de pés quadrados de superfícies esportivas espalhadas pelo mundo, abrangendo campos de futebol, pistas de corrida, playgrounds e áreas de treinamento.
O lixo esportivo também passou a ser usado em anilhas, equipamentos de musculação e novos tênis da própria Nike
O reaproveitamento não se limita às estruturas esportivas. Segundo a Nike, o Nike Grind também está presente em halteres, anilhas olímpicas, equipamentos para treinamento funcional e componentes de novos produtos da empresa. Em algumas coleções recentes, resíduos provenientes de tênis antigos passaram a integrar entressolas, solados e partes estruturais de calçados modernos.
O programa também alimenta iniciativas ligadas ao design circular, buscando aumentar a quantidade de materiais reaproveitados incorporados em futuras gerações de produtos. A empresa afirma que o objetivo é reduzir a dependência de matérias-primas virgens e diminuir a quantidade de resíduos enviados para descarte final.
Programa ajuda a reduzir resíduos, mas ainda enfrenta desafios de escala global
Apesar dos números expressivos, a reciclagem de tênis continua sendo um desafio industrial complexo. Um único calçado pode conter dezenas de materiais diferentes, incluindo espumas, borrachas, colas, tecidos sintéticos, couro, plásticos e compostos químicos desenvolvidos para desempenho esportivo.
Estudo acadêmico sobre o programa Nike Grind aponta que o transporte, a coleta e a separação dos materiais ainda representam gargalos importantes para ampliar a circularidade em larga escala. A pesquisa destaca que apenas parte dos resíduos gerados pela indústria do calçado consegue retornar efetivamente à cadeia produtiva.
Mesmo assim, o caso da Nike mostra que produtos concebidos para alto desempenho podem ganhar novas funções após o descarte, prolongando sua vida útil em diferentes segmentos da economia.
Milhões de tênis deixaram de virar lixo para se transformar em infraestrutura esportiva ao redor do planeta
A imagem de um tênis velho normalmente remete ao fim de sua utilidade. No entanto, o Nike Grind tenta mostrar que esse descarte pode ser apenas o começo de outro ciclo. Solados que antes tocavam pistas de corrida agora fazem parte de playgrounds infantis. Espumas usadas em maratonas ajudam a amortecer academias. Materiais descartados por atletas profissionais retornam às cidades como infraestrutura esportiva.
Em um mundo que produz bilhões de pares de calçados ao longo das últimas décadas, a pergunta se torna inevitável: quantos dos produtos que hoje tratamos como lixo ainda podem voltar a fazer parte do cotidiano antes de desaparecerem em um aterro sanitário?
