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Até 1,35 milhão de litros de água, 33 motores e uma placa de aço que poderia derreter: SpaceX criou em Boca Chica um dilúvio artificial para impedir que o Starship destrua a própria base no lançamento

Escrito por Alisson Ficher
Publicado em 12/06/2026 às 19:58
Atualizado em 12/06/2026 às 20:20
SpaceX usa sistema de dilúvio em Boca Chica para proteger a plataforma do Starship contra calor, som e vibração na ignição.
SpaceX usa sistema de dilúvio em Boca Chica para proteger a plataforma do Starship contra calor, som e vibração na ignição.
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Sistema instalado em Boca Chica usa grande volume de água, placas de aço e estruturas de contenção para proteger a plataforma orbital do Starship contra calor, vibração e energia acústica durante testes estáticos e lançamentos.

A SpaceX instalou em Boca Chica, no Texas, um sistema de dilúvio artificial para proteger a plataforma orbital usada pelo Starship/Super Heavy, conjunto de foguete e propulsor desenvolvido pela empresa para voos de grande porte.

A estrutura usa placas de aço resfriadas por água para reduzir o impacto do calor, do som e da exaustão gerados no momento da ignição dos motores, de acordo com documentos da Administração Federal de Aviação dos Estados Unidos, a FAA.

A solução passou a integrar a base depois do lançamento de 20 de abril de 2023, quando o primeiro voo integrado do Starship/Super Heavy danificou a fundação da plataforma em Boca Chica, no condado de Cameron.

Segundo a FAA, a SpaceX reforçou a fundação com concreto mais espesso, adicionou estacas de sustentação e instalou placas metálicas sobre a área, como parte das alterações feitas na infraestrutura de lançamento.

O sistema atua em uma etapa anterior à decolagem, quando a base precisa suportar forças capazes de afetar concreto, aço, tubulações e equipamentos próximos à estrutura de lançamento.

No caso do Super Heavy, a ignição concentra dezenas de motores Raptor sob uma plataforma fixa, o que exige mecanismos de proteção térmica, acústica e estrutural antes que o veículo deixe o solo.

Como funciona o dilúvio da plataforma da SpaceX

Na prática, a água sai de tanques instalados no solo, passa por uma rede de bombas, válvulas, sensores e tubulações, e chega às placas de aço posicionadas sob a plataforma de lançamento.

A descarga ocorre por aberturas na própria estrutura metálica, formando uma camada de proteção entre o aço e o jato de exaustão liberado pelos motores durante a ignição.

SpaceX usa sistema de dilúvio em Boca Chica para proteger a plataforma do Starship contra calor, som e vibração na ignição.
SpaceX usa sistema de dilúvio em Boca Chica para proteger a plataforma do Starship contra calor, som e vibração na ignição.

De acordo com a FAA, o objetivo é resfriar rapidamente a área, absorver parte da energia sonora e reduzir os efeitos do calor produzido durante testes estáticos e lançamentos.

Sem esse elemento de resfriamento, as placas ficariam mais expostas a danos severos e poderiam perder a condição de reutilização após eventos de ignição, conforme avaliação técnica da agência.

O volume máximo descrito pela FAA em 2023 é de aproximadamente 358 mil galões de água potável apenas no sistema de dilúvio usado nas placas de aço.

Convertido, esse volume equivale a cerca de 1,35 milhão de litros, quantidade liberada em curto intervalo para criar uma barreira hidráulica temporária sob o foguete.

A estimativa varia conforme o tipo de operação realizada na plataforma, já que testes estáticos e lançamentos demandam volumes diferentes de água no sistema de proteção.

Para um teste estático de motores, a FAA cita cerca de 72 mil galões, ou aproximadamente 272 mil litros, aplicados durante o funcionamento do sistema.

Em um lançamento, o volume estimado sobe para 132 mil galões, perto de 500 mil litros, devido às condições de operação associadas à decolagem do conjunto Starship/Super Heavy.

Para a análise ambiental, a agência considerou um cenário máximo de 361 mil galões por operação, somando o dilúvio principal e um sistema separado de supressão de detonação.

Água também reduz risco de detonação na ignição

O sistema de supressão de detonação tem função distinta do dilúvio principal, embora também use água durante eventos de ignição na plataforma orbital de Boca Chica.

SpaceX usa sistema de dilúvio em Boca Chica para proteger a plataforma do Starship contra calor, som e vibração na ignição.
SpaceX usa sistema de dilúvio em Boca Chica para proteger a plataforma do Starship contra calor, som e vibração na ignição.

Segundo a FAA, esse mecanismo pulveriza cerca de 3 mil galões de água em direção aos motores para reduzir a possibilidade de detonações provocadas por metano livre misturado ao ar.

Outro mecanismo, chamado FireX, é tratado separadamente pela agência e integra a resposta contra incêndio na plataforma, sem substituir o resfriamento das placas metálicas.

Esse sistema só seria acionado em caso de fogo no local, enquanto o dilúvio principal opera como parte da preparação para testes estáticos e lançamentos.

O fluxo de água começa antes da ignição, de acordo com a descrição técnica apresentada pela FAA na reavaliação ambiental relacionada ao programa Starship/Super Heavy.

A agência informa que a descarga se inicia cinco segundos antes do acionamento dos motores, quando a água já percorre os tanques e a rede de distribuição até os bicos da plataforma.

Durante o funcionamento dos motores, a maior parte desse volume entra em contato com calor extremo e se transforma em vapor e névoa perto da área vertical de lançamento.

Segundo a análise da agência, cerca de 92% dos 358 mil galões do sistema de dilúvio podem ser vaporizados quando os motores estão ligados.

O restante pode ser coletado por estruturas de contenção ou se dispersar em áreas próximas, conforme as condições operacionais e os cenários avaliados pela FAA.

Boca Chica tem retenção de água e controle ambiental

A área vertical de lançamento em Boca Chica inclui estruturas de contenção, bacias de retenção, lagoas e bermas para capturar parte da água usada durante as operações.

O documento da FAA informa que a água recolhida pode retornar aos tanques se cumprir os padrões de qualidade definidos pela Comissão de Qualidade Ambiental do Texas, a TCEQ.

Quando a água não atende aos critérios exigidos, o material deve ser removido da área vertical de lançamento e encaminhado para tratamento industrial fora da plataforma.

A agência também registra que as estruturas de contenção são impermeáveis, medida adotada para evitar a percolação de contaminantes no solo e no lençol freático.

A pressão usada para expulsar a água depende de componentes específicos do sistema, incluindo tanques, bombas, válvulas, sensores e tubulações conectados à estrutura metálica.

SpaceX usa sistema de dilúvio em Boca Chica para proteger a plataforma do Starship contra calor, som e vibração na ignição.
SpaceX usa sistema de dilúvio em Boca Chica para proteger a plataforma do Starship contra calor, som e vibração na ignição.

Entre os itens descritos está um tanque pressurizado com nitrogênio a 3 mil libras por polegada quadrada, conectado aos tanques de água para fornecer força de expulsão quando o dilúvio é ativado.

Sensores, válvulas, medidores de fluxo e uma unidade de controle monitoram níveis, pressões, vazão e eventuais anomalias durante o funcionamento do sistema.

Com esse conjunto de equipamentos, a operação pode acionar ou interromper a descarga, ajustar a distribuição de água e acompanhar o desempenho da rede durante eventos de ignição.

Por que a água é usada em bases de lançamento

O uso de sistemas de água não é exclusivo da SpaceX e aparece em instalações de lançamento e teste de diferentes países, segundo a FAA.

A agência cita o Kennedy Space Center, na Flórida, a Vandenberg Space Force Base, na Califórnia, o Cosmódromo de Baikonur, no Cazaquistão, e o Satish Dhawan Space Centre, na Índia.

Nessas instalações, sistemas de água são usados para segurança operacional, absorção de vibrações e proteção de infraestrutura submetida a calor, ruído e energia mecânica durante testes e lançamentos.

No caso do Starship/Super Heavy, as placas de aço ficam diretamente expostas ao ambiente criado pelos motores, o que torna o resfriamento por água parte central da proteção da base.

Durante a ignição, a superfície metálica também pode sofrer ablação, processo em que parte do material é erodida por calor e força mecânica durante a operação.

A FAA afirma que os motores Raptor usam oxigênio líquido e metano líquido como propelentes, sem metais pesados no combustível ou na pluma de exaustão.

Ainda assim, a operação exige controle de água, vapor, névoa, resíduos e contenção, porque a plataforma fica submetida a forças concentradas em intervalo reduzido de tempo.

A reavaliação de 2023 indicou que o sistema poderia operar até 30 vezes por ano dentro do cenário analisado para a plataforma orbital, incluindo testes estáticos e lançamentos.

Em abril de 2025, a avaliação ambiental final da FAA passou a considerar uma proposta de maior cadência em Boca Chica, com aumento do volume máximo de água de 361 mil para 422 mil galões em cenários futuros.

A operação de lançamento do Starship/Super Heavy depende, além dos motores, de uma infraestrutura de solo preparada para resistir a calor, vibração, som e pressão durante a ignição.

Nesse arranjo, o sistema de dilúvio atua para preservar a plataforma orbital antes, durante e depois do acionamento dos motores, mantendo a estrutura em condições de operação conforme os cenários avaliados pela FAA.

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Alisson Ficher

Jornalista formado desde 2017 e atuante na área desde 2015, com seis anos de experiência em revista impressa, passagens por canais de TV aberta e mais de 12 mil publicações online. Especialista em política, empregos, economia, cursos, entre outros temas e também editor do portal CPG. Registro profissional: 0087134/SP. Se você tiver alguma dúvida, quiser reportar um erro ou sugerir uma pauta sobre os temas tratados no site, entre em contato pelo e-mail: alisson.hficher@outlook.com. Não aceitamos currículos!

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