Sistema instalado em Boca Chica usa grande volume de água, placas de aço e estruturas de contenção para proteger a plataforma orbital do Starship contra calor, vibração e energia acústica durante testes estáticos e lançamentos.
A SpaceX instalou em Boca Chica, no Texas, um sistema de dilúvio artificial para proteger a plataforma orbital usada pelo Starship/Super Heavy, conjunto de foguete e propulsor desenvolvido pela empresa para voos de grande porte.
A estrutura usa placas de aço resfriadas por água para reduzir o impacto do calor, do som e da exaustão gerados no momento da ignição dos motores, de acordo com documentos da Administração Federal de Aviação dos Estados Unidos, a FAA.
A solução passou a integrar a base depois do lançamento de 20 de abril de 2023, quando o primeiro voo integrado do Starship/Super Heavy danificou a fundação da plataforma em Boca Chica, no condado de Cameron.
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Segundo a FAA, a SpaceX reforçou a fundação com concreto mais espesso, adicionou estacas de sustentação e instalou placas metálicas sobre a área, como parte das alterações feitas na infraestrutura de lançamento.
O sistema atua em uma etapa anterior à decolagem, quando a base precisa suportar forças capazes de afetar concreto, aço, tubulações e equipamentos próximos à estrutura de lançamento.
No caso do Super Heavy, a ignição concentra dezenas de motores Raptor sob uma plataforma fixa, o que exige mecanismos de proteção térmica, acústica e estrutural antes que o veículo deixe o solo.
Como funciona o dilúvio da plataforma da SpaceX
Na prática, a água sai de tanques instalados no solo, passa por uma rede de bombas, válvulas, sensores e tubulações, e chega às placas de aço posicionadas sob a plataforma de lançamento.
A descarga ocorre por aberturas na própria estrutura metálica, formando uma camada de proteção entre o aço e o jato de exaustão liberado pelos motores durante a ignição.

De acordo com a FAA, o objetivo é resfriar rapidamente a área, absorver parte da energia sonora e reduzir os efeitos do calor produzido durante testes estáticos e lançamentos.
Sem esse elemento de resfriamento, as placas ficariam mais expostas a danos severos e poderiam perder a condição de reutilização após eventos de ignição, conforme avaliação técnica da agência.
O volume máximo descrito pela FAA em 2023 é de aproximadamente 358 mil galões de água potável apenas no sistema de dilúvio usado nas placas de aço.
Convertido, esse volume equivale a cerca de 1,35 milhão de litros, quantidade liberada em curto intervalo para criar uma barreira hidráulica temporária sob o foguete.
A estimativa varia conforme o tipo de operação realizada na plataforma, já que testes estáticos e lançamentos demandam volumes diferentes de água no sistema de proteção.
Para um teste estático de motores, a FAA cita cerca de 72 mil galões, ou aproximadamente 272 mil litros, aplicados durante o funcionamento do sistema.
Em um lançamento, o volume estimado sobe para 132 mil galões, perto de 500 mil litros, devido às condições de operação associadas à decolagem do conjunto Starship/Super Heavy.
Para a análise ambiental, a agência considerou um cenário máximo de 361 mil galões por operação, somando o dilúvio principal e um sistema separado de supressão de detonação.
Água também reduz risco de detonação na ignição
O sistema de supressão de detonação tem função distinta do dilúvio principal, embora também use água durante eventos de ignição na plataforma orbital de Boca Chica.

Segundo a FAA, esse mecanismo pulveriza cerca de 3 mil galões de água em direção aos motores para reduzir a possibilidade de detonações provocadas por metano livre misturado ao ar.
Outro mecanismo, chamado FireX, é tratado separadamente pela agência e integra a resposta contra incêndio na plataforma, sem substituir o resfriamento das placas metálicas.
Esse sistema só seria acionado em caso de fogo no local, enquanto o dilúvio principal opera como parte da preparação para testes estáticos e lançamentos.
O fluxo de água começa antes da ignição, de acordo com a descrição técnica apresentada pela FAA na reavaliação ambiental relacionada ao programa Starship/Super Heavy.
A agência informa que a descarga se inicia cinco segundos antes do acionamento dos motores, quando a água já percorre os tanques e a rede de distribuição até os bicos da plataforma.
Durante o funcionamento dos motores, a maior parte desse volume entra em contato com calor extremo e se transforma em vapor e névoa perto da área vertical de lançamento.
Segundo a análise da agência, cerca de 92% dos 358 mil galões do sistema de dilúvio podem ser vaporizados quando os motores estão ligados.
O restante pode ser coletado por estruturas de contenção ou se dispersar em áreas próximas, conforme as condições operacionais e os cenários avaliados pela FAA.
Boca Chica tem retenção de água e controle ambiental
A área vertical de lançamento em Boca Chica inclui estruturas de contenção, bacias de retenção, lagoas e bermas para capturar parte da água usada durante as operações.
O documento da FAA informa que a água recolhida pode retornar aos tanques se cumprir os padrões de qualidade definidos pela Comissão de Qualidade Ambiental do Texas, a TCEQ.
Quando a água não atende aos critérios exigidos, o material deve ser removido da área vertical de lançamento e encaminhado para tratamento industrial fora da plataforma.
A agência também registra que as estruturas de contenção são impermeáveis, medida adotada para evitar a percolação de contaminantes no solo e no lençol freático.
A pressão usada para expulsar a água depende de componentes específicos do sistema, incluindo tanques, bombas, válvulas, sensores e tubulações conectados à estrutura metálica.

Entre os itens descritos está um tanque pressurizado com nitrogênio a 3 mil libras por polegada quadrada, conectado aos tanques de água para fornecer força de expulsão quando o dilúvio é ativado.
Sensores, válvulas, medidores de fluxo e uma unidade de controle monitoram níveis, pressões, vazão e eventuais anomalias durante o funcionamento do sistema.
Com esse conjunto de equipamentos, a operação pode acionar ou interromper a descarga, ajustar a distribuição de água e acompanhar o desempenho da rede durante eventos de ignição.
Por que a água é usada em bases de lançamento
O uso de sistemas de água não é exclusivo da SpaceX e aparece em instalações de lançamento e teste de diferentes países, segundo a FAA.
A agência cita o Kennedy Space Center, na Flórida, a Vandenberg Space Force Base, na Califórnia, o Cosmódromo de Baikonur, no Cazaquistão, e o Satish Dhawan Space Centre, na Índia.
Nessas instalações, sistemas de água são usados para segurança operacional, absorção de vibrações e proteção de infraestrutura submetida a calor, ruído e energia mecânica durante testes e lançamentos.
No caso do Starship/Super Heavy, as placas de aço ficam diretamente expostas ao ambiente criado pelos motores, o que torna o resfriamento por água parte central da proteção da base.
Durante a ignição, a superfície metálica também pode sofrer ablação, processo em que parte do material é erodida por calor e força mecânica durante a operação.
A FAA afirma que os motores Raptor usam oxigênio líquido e metano líquido como propelentes, sem metais pesados no combustível ou na pluma de exaustão.
Ainda assim, a operação exige controle de água, vapor, névoa, resíduos e contenção, porque a plataforma fica submetida a forças concentradas em intervalo reduzido de tempo.
A reavaliação de 2023 indicou que o sistema poderia operar até 30 vezes por ano dentro do cenário analisado para a plataforma orbital, incluindo testes estáticos e lançamentos.
Em abril de 2025, a avaliação ambiental final da FAA passou a considerar uma proposta de maior cadência em Boca Chica, com aumento do volume máximo de água de 361 mil para 422 mil galões em cenários futuros.
A operação de lançamento do Starship/Super Heavy depende, além dos motores, de uma infraestrutura de solo preparada para resistir a calor, vibração, som e pressão durante a ignição.
Nesse arranjo, o sistema de dilúvio atua para preservar a plataforma orbital antes, durante e depois do acionamento dos motores, mantendo a estrutura em condições de operação conforme os cenários avaliados pela FAA.

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