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Inconformada ao ver rodovias cortando a Amazônia e isolando animais nas copas, bióloga brasileira criou pontes suspensas, já registrou mais de 20 mil travessias seguras e acaba de ser premiada pela National Geographic

Escrito por Geovane Souza
Publicado em 11/06/2026 às 19:28
Atualizado em 11/06/2026 às 23:03
Bióloga brasileira recebe prêmio da National Geographic por projeto de pontes de dossel que reduz atropelamentos de fauna na Amazônia
Bióloga brasileira recebe prêmio da National Geographic por projeto de pontes de dossel que reduz atropelamentos de fauna na Amazônia (Foto: Smith Sonian)
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Fernanda Abra foi reconhecida pelo Wayfinder Award 2026 após desenvolver passagens suspensas que reconectam florestas e permitem a travessia segura de primatas e outros animais arborícolas

A expansão de estradas pela Amazônia facilita o transporte de pessoas e mercadorias, mas também produz uma ruptura quase invisível para a vida silvestre. Quando uma rodovia separa duas áreas de floresta, animais que vivem nas copas precisam descer ao chão, atravessar o asfalto ou permanecer isolados em fragmentos cada vez menores.

Uma solução brasileira criada para enfrentar esse problema acaba de receber reconhecimento internacional. A bióloga da conservação Fernanda Abra foi anunciada em 9 de junho de 2026 como uma das 15 vencedoras do Wayfinder Award, premiação anual concedida pela National Geographic Society a profissionais com atuação de destaque em ciência, conservação, educação, tecnologia e comunicação.

O reconhecimento foi concedido pelo trabalho da pesquisadora na ecologia de estradas, especialmente na implantação de pontes de dossel sobre rodovias da Amazônia. As estruturas funcionam como passarelas suspensas entre as árvores e permitem que macacos, marsupiais, roedores e outros animais atravessem as vias sem entrar em contato com os veículos.

Segundo informações de O Eco, o prêmio também concede a Fernanda o título de Exploradora da National Geographic, um aporte de US$ 50 mil e acesso a uma rede internacional de pesquisadores, instituições e possíveis financiadores. O apoio poderá contribuir para ampliar uma tecnologia que já registrou mais de 20 mil travessias seguras de animais.

Pontes de dossel reconectam áreas de floresta separadas pelo asfalto

As pontes de dossel são estruturas instaladas acima das pistas, geralmente ligando árvores ou suportes posicionados nos dois lados da rodovia. Elas procuram reproduzir elementos encontrados na floresta, como galhos, troncos e cipós, facilitando o reconhecimento e a utilização pelos animais.

Pontes de dossel reconectam áreas de floresta separadas pelo asfalto
Pontes de dossel reconectam áreas de floresta separadas pelo asfalto (Foto: ipe.org.br )

A medida é especialmente importante para espécies arborícolas. Muitos desses animais passam grande parte da vida nas copas e evitam descer ao solo, onde ficam mais expostos a atropelamentos, predadores, cães domésticos e outros riscos associados às áreas urbanizadas.

Em Alta Floresta, no norte de Mato Grosso, o projeto desenvolveu um modelo com diferentes níveis de travessia. De acordo com o Smithsonian’s National Zoo and Conservation Biology Institute, o desenho foi pensado para atender padrões distintos de locomoção, permitindo a passagem de primatas, marsupiais e pequenos roedores.

Câmeras automáticas instaladas próximas às estruturas mostram quais espécies utilizam as passagens, em quais horários e com que frequência. Esse monitoramento é essencial porque uma ponte aparentemente bem construída pode não funcionar se estiver no local errado ou se o material não for adequado ao comportamento dos animais da região.

Projeto brasileiro já contabiliza milhares de travessias seguras

O trabalho que levou ao prêmio está relacionado ao Projeto Reconecta, iniciativa criada para diminuir os efeitos das estradas sobre a biodiversidade e recuperar a ligação entre trechos de floresta separados por rodovias, ruas e outras obras de infraestrutura.

Desde 2021, as equipes envolvidas vêm instalando e monitorando pontes de dossel em pontos estratégicos da Amazônia. O projeto informa que mais de 20 mil travessias seguras já foram registradas, resultado que demonstra que os animais conseguem reconhecer e incorporar as estruturas aos seus deslocamentos.

Um dos principais locais de atuação é a BR-174, rodovia federal que liga Manaus, no Amazonas, a Boa Vista, em Roraima, e atravessa a Terra Indígena Waimiri-Atroari. Nesse trecho foram instaladas 32 pontes de dossel, com participação de integrantes da comunidade indígena na escolha dos pontos e no acompanhamento da fauna.

O conhecimento tradicional foi combinado com pesquisas de campo para definir formatos e materiais mais próximos dos elementos utilizados naturalmente pelos animais. O próprio Reconecta destaca que sua metodologia procura unir ciência, tecnologia e conhecimentos indígenas na construção de uma infraestrutura rodoviária menos prejudicial à floresta.

A iniciativa também recebeu, em 2024, o Whitley Award, reconhecimento internacional destinado a lideranças da conservação. Na ocasião, o trabalho foi destacado pelo desenvolvimento de pontes de baixo custo destinadas principalmente à proteção de primatas amazônicos ameaçados pelos efeitos das rodovias.

Alta Floresta registrou quase 15 mil passagens em 15 meses

Os resultados mais expressivos foram registrados em Alta Floresta, município cercado por áreas de elevada biodiversidade, mas também marcado pela expansão urbana e pela fragmentação da vegetação. Sete pontes monitoradas contabilizaram quase 15 mil travessias em apenas 15 meses.

Entre as espécies observadas está o zogue-zogue-de-Alta-Floresta, conhecido cientificamente como Plecturocebus grovesi. O primata foi descrito pela ciência em 2019 e é classificado como criticamente ameaçado de extinção, tornando a reconexão entre áreas de floresta especialmente importante para sua sobrevivência.

Também foram registrados macacos-prego e saguis-de-Schneider utilizando as estruturas. As imagens mostram inclusive fêmeas atravessando as pontes com filhotes, indicando que os corredores passaram a fazer parte dos deslocamentos cotidianos dos grupos.

O Instituto de Pesquisas Ecológicas informou que o monitoramento local envolve armadilhas fotográficas e a participação de estudantes e pesquisadores de universidades de Mato Grosso. A iniciativa também promove ações de educação ambiental para explicar à população como a circulação urbana pode afetar os animais.

Atropelamentos de fauna representam um problema ambiental e de segurança

As rodovias não provocam apenas mortes diretas. Elas podem dividir territórios, dificultar a busca por alimento, impedir encontros entre grupos e reduzir a diversidade genética das populações isoladas.

Uma estimativa do Centro Brasileiro de Estudos em Ecologia de Estradas, divulgada pelo ICMBio em 2014, apontava que 475 milhões de animais silvestres poderiam morrer atropelados por ano no Brasil. O cálculo incluía principalmente pequenos vertebrados, como sapos, cobras e aves, que representam a maior parcela dos animais atingidos e frequentemente não aparecem nos registros oficiais.

Por se tratar de uma estimativa publicada há mais de uma década, o número não deve ser apresentado como uma contagem atual e exata. Ele continua, porém, sendo uma referência para demonstrar a dimensão potencial do problema e a dificuldade de monitorar toda a malha rodoviária brasileira.

Os atropelamentos também ameaçam motoristas e passageiros, especialmente quando envolvem animais de grande porte. Levantamentos apresentados pelo Senado mostraram que colisões podem causar ferimentos, mortes, danos aos veículos e gastos com atendimento médico, remoção de cargas e mobilização de equipes de emergência.

Passagens para animais precisam fazer parte do planejamento das rodovias

A construção de pontes de dossel não substitui a preservação das florestas, mas pode reduzir um dos impactos causados pelas vias já existentes. Para funcionar, cada estrutura precisa ser planejada de acordo com as espécies presentes, o estado da vegetação, os locais de maior circulação e os registros anteriores de atropelamento.

Outras soluções podem ser necessárias para animais terrestres. Túneis sob as pistas, cercas direcionadoras, redução de velocidade, restauração de corredores ecológicos e monitoramento contínuo devem ser avaliados conforme as características de cada trecho.

A trajetória de Fernanda Abra nessa área começou ainda durante sua formação em Biologia. A organização Future for Nature registra que ela trabalha com ecologia de estradas desde 2009 e já participou de dezenas de projetos voltados à redução de colisões e à recuperação da conectividade de habitats.

O desafio agora é transformar experiências locais bem-sucedidas em práticas permanentes de infraestrutura. Construir uma rodovia sem considerar a circulação da fauna pode criar um custo ambiental que permanecerá por décadas, enquanto medidas incorporadas desde a fase de planejamento tendem a ser mais eficientes do que adaptações feitas depois da obra concluída.

Reconhecimento internacional pode ampliar solução desenvolvida no Brasil

O Wayfinder Award coloca a tecnologia brasileira em uma rede global de projetos de conservação. A premiação não representa apenas uma conquista individual, mas também chama atenção para uma área que durante muitos anos recebeu menos visibilidade do que outros problemas ambientais.

O avanço das pontes de dossel demonstra que obras relativamente simples podem produzir resultados mensuráveis quando são orientadas por pesquisa científica. As milhares de travessias registradas por câmeras mostram que a fauna utiliza as estruturas e que existe possibilidade concreta de conciliar mobilidade humana com proteção da biodiversidade.

O reconhecimento também ocorre em um momento em que o Brasil discute novos investimentos em estradas, ferrovias e linhas de transmissão. Incorporar passagens de fauna, monitoramento e conectividade florestal aos projetos pode impedir que o crescimento da infraestrutura aumente ainda mais a fragmentação dos habitats.

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Geovane Souza

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