Análise de esgotos do século III d.C. em um forte romano próximo à Muralha de Adriano identificou infecções por lombrigas, tricocéfalos e Giardia duodenalis, revelando como falhas de saneamento afetaram diretamente a saúde, a resistência física e a capacidade operacional de soldados romanos destacados na fronteira norte do Império Romano.
Os soldados romanos que ocuparam o forte romano de Vindolanda, no norte da Britânia, enfrentaram doenças intestinais causadas por saneamento precário, segundo análise de esgotos do século III d.C., que identificou três parasitas, incluindo a primeira evidência confirmada de Giardia duodenalis na Grã-Bretanha romana, com efeitos diretos sobre a aptidão militar.
A fortaleza romana e o papel estratégico da fronteira norte
Vindolanda estava situada nas proximidades da Muralha de Adriano, estrutura construída no início do século II d.C. para defender a província da Britânia contra tribos do norte.
A muralha permaneceu em uso até o final do século IV e se estendia do Mar do Norte ao Mar da Irlanda, formando uma linha defensiva contínua ao longo da fronteira setentrional do Império Romano.
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O sistema incluía fortes e torres erguidos em intervalos regulares, guarnecidos por infantaria, arqueiros e unidades de cavalaria recrutadas em diferentes regiões do império.
O forte de Vindolanda localiza-se entre Carlisle e Corbridge, na atual região de Northumberland, no Reino Unido, e funcionava como um ponto avançado de vigilância e controle militar.
Além de sua função defensiva, o local abrigava estruturas essenciais à vida cotidiana dos soldados romanos, como termas, latrinas comunitárias e sistemas de drenagem ligados a cursos d’água próximos.
Preservação excepcional e vestígios do cotidiano romano
Vindolanda é reconhecida pela preservação incomum de materiais orgânicos devido ao solo constantemente encharcado, condição que reduziu a decomposição ao longo dos séculos.
Escavações arqueológicas revelaram mais de 1.000 tábuas finas de madeira usadas para escrita, que registram aspectos administrativos e pessoais da vida na fortaleza.
O sítio também forneceu mais de 5.000 sapatos romanos de couro, oferecendo evidências diretas sobre vestuário, logística e condições de vida dos ocupantes.
Esses achados consolidaram Vindolanda como um dos locais mais informativos para o estudo do cotidiano militar romano na fronteira norte da Britânia.
A preservação do local permitiu, ainda, análises detalhadas de infraestruturas sanitárias, fundamentais para compreender a saúde e as doenças que afetavam os soldados.
Metodologia de análise dos esgotos do século III d.C.
O estudo concentrou-se em sedimentos coletados de um esgoto ligado a um bloco de latrinas de um complexo termal do século III d.C. existente dentro do forte.
Foram analisadas 50 amostras retiradas ao longo de um canal de drenagem com cerca de nove metros de extensão, responsável por transportar os dejetos até um riacho ao norte da fortaleza.
Durante a escavação do canal, arqueólogos recuperaram contas romanas, fragmentos de cerâmica e ossos de animais, indicando descarte variado junto aos resíduos humanos.
As amostras foram divididas entre laboratórios das universidades de Universidade de Cambridge e Universidade de Oxford, onde passaram por análises microscópicas detalhadas.
Os pesquisadores buscaram ovos antigos de helmintos, grupo de vermes parasitas capazes de infectar humanos e outros animais, preservados nos sedimentos do esgoto.
Parasitas identificados e a primeira evidência de giárdia
Cerca de 28% das amostras analisadas continham ovos de lombriga ou tricúride, parasitas intestinais transmitidos por via fecal-oral em ambientes com saneamento inadequado.
Uma das amostras apresentou ovos das duas espécies simultaneamente, indicando infecção múltipla entre os usuários da latrina comunitária do complexo termal.
Essa mesma amostra foi submetida posteriormente a um teste biomolecular do tipo ELISA, capaz de detectar proteínas produzidas por organismos unicelulares.
O teste revelou a presença de Giardia duodenalis, um protozoário microscópico associado a surtos de diarreia e transmitido principalmente por água contaminada.
A descoberta representa a primeira evidência confirmada da presença de Giardia duodenalis na Grã-Bretanha durante o período romano.
Os vermes redondos identificados podem atingir entre 20 e 30 cm de comprimento, enquanto os tricocéfalos chegam a cerca de 5 cm, dimensões compatíveis com infecções crônicas.
Evidências mais antigas e continuidade das infecções
A equipe também examinou sedimentos associados a um forte anterior localizado no mesmo sítio arqueológico, datado do século I d.C.
Esse forte foi construído por volta de 85 d.C. e abandonado entre 91 e 92 d.C., antes da consolidação das estruturas posteriores de Vindolanda.
A amostra analisada foi coletada em uma vala integrante do sistema defensivo desse forte mais antigo e apresentou ovos de lombrigas e tricúride.
Os resultados indicam que infecções parasitárias estavam presentes desde os primeiros períodos de ocupação militar romana no local.
Essa continuidade sugere que melhorias estruturais posteriores, como latrinas e esgotos, não eliminaram os riscos sanitários enfrentados pelos soldados.
Impactos das infecções na saúde e na aptidão militar
Segundo a Dra. Marissa Ledger, responsável pela parte do estudo conduzida em Cambridge, os três parasitas identificados poderiam causar desnutrição e episódios recorrentes de diarreia.
Embora os romanos tivessem conhecimento da existência de vermes intestinais, seus médicos dispunham de poucos recursos para eliminar as infecções ou aliviar os sintomas.
As infecções crônicas poderiam persistir e se agravar, enfraquecendo os soldados romanos ao longo do tempo e reduzindo sua capacidade para o serviço militar.
Os helmintos, isoladamente, são capazes de provocar náuseas, cólicas abdominais e diarreia, afetando diretamente o desempenho físico dos infectados.
O Dr. Piers Mitchell destacou que a giardíase poderia ter causado doenças graves durante os meses mais quentes, quando surtos ligados à água contaminada tendem a se intensificar.
A infecção não tratada pode durar semanas, provocando fadiga extrema, perda de peso e desidratação, com impacto coletivo sobre a guarnição.
Mitchell observou ainda que a presença desses parasitas fecais-orais indica condições favoráveis para outros patógenos intestinais, como Salmonella e Shigella.
Comparação com outros sítios militares romanos
Os pesquisadores afirmam que o padrão observado em Vindolanda é semelhante ao identificado em outros sítios militares romanos europeus.
Casos comparáveis foram documentados em Carnuntum, na atual Áustria, em Valkenburg, às margens do Reno, na Holanda, e em Bearsden, na Escócia.
Nesses locais militares, predominam parasitas transmitidos por contaminação fecal-oral, associados a ambientes coletivos e infraestrutura sanitária limitada.
Em contraste, grandes centros urbanos romanos, como Londres e York, apresentam maior diversidade de parasitas, incluindo tênias transmitidas por peixe e carne.
Segundo o Dr. Patrik Flammer, a existência de latrinas comunitárias e sistemas de esgoto em Vindolanda não impediu a transmissão entre os soldados.
O uso compartilhado dessas instalações pode ter facilitado a disseminação contínua das infecções dentro do forte, mesmo com infraestrutura aparente.
O que os parasitas antigos revelam sobre a vida romana
Para o professor Adrian Smith, o estudo de parasitas antigos permite compreender quais patógenos afetaram populações do passado e como variavam conforme o estilo de vida.
Essas análises também mostram como as doenças mudaram ao longo do tempo e como práticas sanitárias influenciaram a saúde coletiva em diferentes contextos históricos.
O Dr. Andrew Birley, diretor executivo do Vindolanda Charitable Trust, afirmou que as descobertas continuam a reformular a compreensão da vida na fronteira norte romana.
Segundo ele, as escavações revelam as dificuldades enfrentadas pelos soldados romanos destacados para essa região remota há quase 2.000 anos.
Esses dados desafiam ideias simplificadas sobre a vida em fortes romanos, mostrando um cotidiano marcado por doenças persistentes e condições sanitárias limitadas.
Um poema de W. H. Auden menciona piolhos e resfriados enfrentados por um soldado romano em uma muralha chuvosa do norte europeu.
À luz das novas evidências, distúrbios estomacais graves podem ser adicionados a essa lista de adversidades, ampliando o retrato das condições reais vividas pelos militares romanos.
Este artigo foi elaborado com base no estudo “Infecções parasitárias no forte romano de Vindolanda, junto à Muralha de Adriano, Reino Unido”, de Marissa L. Ledger, Patrik G. Flammer, Adrian L. Smith, Andrew Birley e Piers D. Mitchell, publicado em 2 de dezembro de 2025 na revista Parasitology (DOI: 10.1017/S0031182025101327), além de informações institucionais do Vindolanda Charitable Trust.

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