Sem roda, sem ferro e sem máquina, equipes de até 32 homens teriam arrastado blocos de 2,3 toneladas sobre areia molhada por uma rampa embutida na própria pirâmide de Gizé. Um novo modelo de computador estima a construção em 20 a 27 anos e reacende um debate milenar sobre como a Grande Pirâmide foi erguida.
Em março de 2026, o pesquisador independente espanhol Vicente Luis Rosell Roig publicou na revista científica npj Heritage Science, do grupo Nature, um estudo que propõe uma nova explicação para uma das maiores incógnitas da história: como os egípcios construíram a Grande Pirâmide de Gizé. Usando um modelo computacional que simula a obra passo a passo, ele sugere que equipes de até 32 trabalhadores arrastaram blocos de 2,3 toneladas em média sobre areia molhada, sem roda, sem ferro e sem qualquer máquina moderna, por uma rampa embutida na própria estrutura.
A estimativa do modelo é que a pirâmide tenha sido erguida em um intervalo de 20 a 27 anos, prazo que coincide com o reinado do faraó Quéops, para quem o monumento serviu de tumba por volta de 2560 a.C. A proposta reacende um debate que dura séculos entre arqueólogos e engenheiros, e tem como grande diferencial o fato de ser, pela primeira vez, testável por meio de uma simulação integrada de geometria, logística e análise estrutural, com código e dados abertos para que outros cientistas possam verificar.
A teoria da rampa integrada na construção da pirâmide

Chamado de IER, sigla em inglês para Integrated Edge-Ramp, ou rampa de borda integrada, o sistema seria uma rampa em espiral embutida nas próprias bordas da pirâmide, que subia junto com a estrutura à medida que a obra avançava, em vez de uma rampa externa gigantesca.
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Na prática, segundo o estudo, os trabalhadores deixavam deliberadamente de colocar os blocos nas bordas de cada nível, abrindo um corredor de cerca de 3,8 metros de largura por onde as pedras subiam em trenós. Com o avanço da construção, essas lacunas eram preenchidas e a rampa simplesmente desaparecia, sem deixar vestígios externos. Esse mecanismo explicaria por que nunca foram encontrados rastros arqueológicos claros das gigantescas rampas externas que outras teorias sobre a pirâmide pressupõem.
Como os blocos de pedra eram transportados sem roda nem ferro

Segundo o estudo, os blocos de calcário, que pesavam em média 2,3 toneladas, eram arrastados em trenós sobre areia previamente molhada. A água reduzia o atrito entre o trenó e o solo, facilitando o deslizamento, e equipes de até 32 trabalhadores empurravam cada peça por uma inclinação de cerca de 7 graus, considerada viável para o esforço humano.
O arsenal dos antigos construtores se completava com cordas, alavancas e postes de madeira, sem nenhuma roda, nenhum metal de ferro nem maquinário. O corredor de 3,8 metros de largura permitia o tráfego nos dois sentidos, com trenós carregados subindo e trenós vazios descendo para a próxima carga. Toda a engenharia da pirâmide, portanto, dependia de organização, força humana coordenada e conhecimento técnico apurado, e não de tecnologias avançadas ou, como sugerem teorias sem base científica, de meios sobrenaturais.
O ritmo de um bloco a cada poucos minutos
Para cumprir o prazo do reinado de Quéops, o sistema precisava operar de forma paralela e intensa. O modelo prevê até 16 rampas funcionando simultaneamente nas fases iniciais da obra, quando a base é mais larga, número que ia caindo para 8, depois 4, 2 e, finalmente, uma única rampa no topo, à medida que a pirâmide se estreitava em direção ao ápice.
No ritmo simulado, um bloco era posicionado a cada 4 a 6 minutos. Esse fluxo intenso, mantido ao longo de anos, resultaria em uma duração mediana de obra no local entre 13,8 e 20,6 anos, segundo os cálculos do estudo. Somando as etapas de extração da pedra nas pedreiras, o transporte pelo rio Nilo e as pausas sazonais de trabalho, o prazo total chega aos 20 a 27 anos, intervalo que se encaixa com precisão no tempo de reinado do faraó para quem a pirâmide foi construída.
As pistas escondidas dentro da pirâmide
Um dos pontos mais intrigantes do estudo conecta a teoria a uma descoberta recente. Nos últimos anos, técnicas de muografia, que usam partículas cósmicas para enxergar através da pedra como uma espécie de raio-x natural, detectaram espaços vazios no interior da Grande Pirâmide que intrigam os pesquisadores. Segundo Rosell Roig, esses vazios poderiam ser exatamente os restos das rampas integradas que nunca foram completamente preenchidas durante a obra.
Essa é uma hipótese verificável, e aí está o grande mérito do trabalho. Pela primeira vez, uma teoria sobre a construção da pirâmide passou por um modelo computacional integrado, unindo geometria paramétrica, logística e análise de elementos finitos em uma só plataforma. Se as bordas da estrutura apresentarem os padrões de desgaste previstos pelo modelo, ou se os vazios internos tiverem o formato projetado, a arqueologia terá dados concretos para confirmar ou descartar a hipótese, algo raro em um campo marcado por especulação.
Por que o debate sobre a pirâmide ainda não acabou
Apesar da consistência, o próprio autor reconhece que o estudo não encerra a discussão. Teorias rivais continuam na disputa. A mais clássica propõe rampas externas retas, mas esbarra em um problema geométrico sério: para alcançar o topo com uma inclinação viável, a rampa precisaria ter o dobro do comprimento da pirâmide, exigindo um volume de material quase tão grande quanto o do próprio monumento, sem deixar vestígios.
Outros pesquisadores apostam em hipóteses diferentes, como o uso de força hidráulica para içar os blocos ou sistemas mistos com rampas em zigue-zague. O modelo de Rosell Roig entra nessa arena não como uma verdade definitiva, mas como uma ferramenta rigorosa e aberta para testar a viabilidade de cada cenário. É essa abordagem baseada em dados que diferencia o trabalho das especulações que cercam a pirâmide há milênios.
O consenso que permanece sobre a Grande Pirâmide
Independentemente de qual teoria venha a prevalecer, há um consenso científico que permanece intacto e que vale reforçar contra mitos populares. A Grande Pirâmide foi construída por volta de 2560 a.C., durante o reinado de Quéops, por equipes organizadas de trabalhadores especializados, e não por escravos, como o senso comum ainda insiste em repetir. Registros arqueológicos, incluindo vilas de operários e evidências de alimentação e cuidados médicos, sustentam essa visão.
A obra, com cerca de 146,6 metros de altura original, base de aproximadamente 230 metros por lado e cerca de 2,3 milhões de blocos, é a mais antiga das Sete Maravilhas do Mundo Antigo e a única que ainda permanece de pé. Cada novo estudo, como o de Rosell Roig, não apenas aproxima a ciência de entender como ela foi erguida, mas também reforça o respeito pela engenhosidade dos antigos egípcios, capazes de resolver um problema logístico complexo com os recursos da sua época.
A pergunta sobre como os egípcios construíram a pirâmide resiste há mais de quatro mil anos, e talvez nunca tenha uma resposta única e definitiva. Mas o modelo da rampa integrada, ao unir simulação computacional, dados abertos e previsões testáveis, representa um salto na forma de investigar o mistério. Em vez de especulação, ciência verificável. As pirâmides de Gizé seguem guardando seus segredos, mas, a cada estudo como esse, a humanidade chega mais perto de compreender uma das maiores obras já erguidas sobre a Terra.
Você acredita que a teoria da rampa integrada finalmente explica como a Grande Pirâmide foi construída, ou acha que o mistério vai continuar? O que mais te impressiona nessa obra dos antigos egípcios? Deixe seu comentário, conte qual teoria sobre a construção da pirâmide você acha mais convincente e compartilhe a matéria com quem ama história, arqueologia e os grandes enigmas da humanidade.

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