A Termotécnica opera em Joinville uma planta dedicada só a reciclar isopor e coloca o Brasil num patamar europeu de reaproveitamento de um material que a maioria jura ser lixo eterno
A reciclagem de isopor parece um contrassenso para a maioria das pessoas, que joga o material fora certa de que ele nunca se decompõe nem se aproveita. Mas uma fábrica catarinense desmente esse mito todos os dias: a Termotécnica, em Joinville, recicla sozinha cerca de um terço de todo o EPS pós-consumo do Brasil.
O EPS, poliestireno expandido, é o nome técnico do isopor. E os números impressionam: pelo programa da empresa, mais de 51 mil toneladas do material já ganharam destino desde 2007. Um dos símbolos do lixo que ninguém quer virou matéria-prima reaproveitada em escala industrial.
O material que a maioria acha que não recicla
O isopor carrega uma fama péssima. Leve, volumoso e onipresente em embalagens, ele é visto como o vilão que entope aterros e boia nos rios por séculos. Poucas pessoas sabem que ele é, na verdade, 100% reciclável.
-
A construção agrícola de 400 km² na Europa que surpreendeu uma americana: estufas de Almería produzem milhões de toneladas e abastecem mercados no frio
-
Parece história de filme, mas é ciência: vulcão na Antártida expele ouro microscópico diariamente e faz partículas viajarem até 1.000 quilômetros pelo continente gelado
-
Quase ninguém conhece o nome dela, mas essa fábrica japonesa é a maior fabricante de zíperes do mundo, funde o próprio latão, tece as próprias fitas e fecha metade das calças do planeta com 7 bilhões de peças por ano
-
2 mil militares, blindados anfíbios, robôs, drones e embarcações blindadas invadem o “Mar de Minas” em megatreinamento da Marinha que transforma o Lago de Furnas em cenário de operação militar no interior de Minas Gerais
O problema nunca foi técnico, e sim logístico e cultural. O isopor é quase todo ar: cerca de 98% do seu volume é gás e só 2% é plástico, o que o torna leve demais para compensar o transporte se ninguém o compacta. Por isso ele acaba no lixo, mesmo sendo reaproveitável.
Vencer essa barreira é o que a Termotécnica faz, provando que o material tido como irreciclável pode voltar ao ciclo produtivo quando existe estrutura para coletá-lo e processá-lo.
A reciclagem de isopor de um terço do país numa fábrica

O dado que mais surpreende é a concentração. Uma única empresa, em Joinville, é responsável por reciclar cerca de um terço de todo o EPS pós-consumo do país. É um volume que normalmente exigiria uma rede enorme de recicladores.
Ser referência latino-americana em reciclagem de isopor dá à empresa e ao Brasil um protagonismo raro. Concentrar um terço da reciclagem nacional de um material numa só operação mostra tanto a força da iniciativa quanto o tamanho do espaço que ainda existe para crescer. Falta multiplicar o modelo.
Segundo a Termotécnica, a empresa mantém uma estrutura dedicada à circularidade do EPS, transformando embalagens usadas em novos produtos em vez de deixá-las virar lixo.
51 mil toneladas desde 2007
A trajetória dá a dimensão do impacto. Pelo programa Reciclar EPS, a companhia já deu destino a mais de 51 milhões de quilos, ou seja, mais de 51 mil toneladas de isopor, desde 2007. É quase duas décadas de coleta e reaproveitamento constantes.
Conforme a Exame, a empresa mantém o programa de reciclagem de isopor há mais de uma década, com resultados medidos ano a ano. Cada tonelada dessas é isopor que não foi para o aterro, não entupiu bueiro e não poluiu rio. Tirar 51 mil toneladas de um material volumoso de circulação é aliviar um peso enorme sobre o meio ambiente urbano. E é matéria-prima devolvida à indústria, fechando o ciclo.
Manter um programa por tanto tempo mostra que a reciclagem de isopor não é ação pontual de marketing, mas uma operação estruturada e contínua, com metas e resultados medidos ano a ano.
Brasil no nível europeu
Talvez o dado mais contraintuitivo seja o nacional. O Brasil recicla cerca de 34% do isopor que consome, um índice equiparável ao dos principais países europeus, referências mundiais em reciclagem. Num material que quase ninguém acha que se recicla, o país está entre os melhores.
Esse número contraria a imagem que o brasileiro tem do próprio país em reciclagem. Num item específico, o isopor, o Brasil não só recicla como está no pelotão de frente global. É um feito que merece ser conhecido e ampliado para outros materiais.
Boa parte desse índice se deve à estrutura montada por empresas como a Termotécnica, que criaram a logística e o mercado necessários para o EPS reciclado ter para onde ir.
Como o isopor é reciclado

O processo resolve o problema do volume. O isopor coletado é primeiro compactado ou moído, reduzindo drasticamente seu tamanho, já que a maior parte era ar. Depois, é transformado em grânulos ou massa que servem de matéria-prima para novos produtos.
Desse reaproveitamento saem itens como perfis, molduras, rodapés, solados e até novos produtos de construção. O que era embalagem descartada vira insumo plástico útil, num ciclo que dispensa plástico virgem. É economia circular aplicada a um material dado como perdido.
A chave é a compactação: transformar o isopor volumoso em algo denso e transportável é o que torna toda a cadeia economicamente viável.
Mais de 1.000 pontos e 100 cooperativas
A logística é o coração do sistema, e ela tem um forte componente social. O programa se apoia em mais de mil pontos de coleta espalhados pelo país e em cerca de 100 cooperativas de catadores, que reúnem o isopor descartado e o encaminham para a reciclagem.
Isso significa renda e inclusão. Uma rede de catadores organizados transforma um lixo que ninguém valorizava em fonte de trabalho e matéria-prima. É economia circular que gera emprego na base, não só ganho ambiental no topo.
Esse elo social é o que viabiliza a coleta de um material tão espalhado e tão leve, resolvendo justamente o gargalo que faz o isopor acabar no lixo na maior parte do mundo.
Por que isso importa para o Brasil
O caso quebra um estereótipo e aponta um caminho. Se o Brasil já recicla um terço do seu isopor por meio de uma operação estruturada, o mesmo modelo pode ser aplicado a outros materiais difíceis, transformando a gestão de resíduos no país.
Há também a lição de que reciclagem depende de logística e mercado, não só de boa vontade. Reciclar isopor em escala provou que, com coleta organizada e um comprador para o material, quase tudo pode voltar ao ciclo. O gargalo é estrutura, não tecnologia.
Multiplicar iniciativas assim ajudaria o Brasil a reduzir a pressão sobre aterros, gerar renda para catadores e diminuir a dependência de matéria-prima virgem em vários setores.
Os desafios de reciclar isopor
Nada disso é trivial. O maior desafio segue sendo a coleta: como o isopor é leve e volumoso, juntá-lo e transportá-lo sem compactação é caro e pouco atrativo, o que faz muita gente ainda jogar tudo no lixo comum.
Ampliar a reciclagem exige mais pontos de coleta, mais educação do consumidor e incentivo econômico para que valha a pena recolher o material. Enquanto compensar mais jogar fora do que reciclar, boa parte do isopor continuará no aterro. Vencer isso é questão de logística e política.
Ainda assim, o recado é poderoso e contraintuitivo: o material que quase todo mundo jura ser lixo eterno já é reciclado no Brasil em nível europeu, com uma fábrica dando conta de um terço do total. Se dá para reciclar até o isopor, que desculpa sobra para enterrar o resto?
