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São Paulo e o Atacama estão na mesma latitude: o que separa uma metrópole de 22 milhões de pessoas de um deserto é uma floresta a 3.000 km de distância

Escrito por Bruno Teles
Publicado em 18/04/2026 às 01:29
Atualizado em 18/04/2026 às 01:31
Sudeste do Brasil está na mesma faixa de latitude dos desertos Atacama, Kalahari e Namíbia. Só não é deserto por causa da Amazônia. Desmatamento já reduz chuvas há 32 anos.
Sudeste do Brasil está na mesma faixa de latitude dos desertos Atacama, Kalahari e Namíbia. Só não é deserto por causa da Amazônia. Desmatamento já reduz chuvas há 32 anos.
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Se a geografia decidisse sozinha, São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte estariam no meio de um deserto. O Sudeste brasileiro está localizado entre as latitudes 15° e 30° Sul, a mesma faixa do planeta onde ficam o deserto do Atacama no Chile, o Kalahari em Botsuana e o Namíbia na África. Nessa faixa, sistemas de alta pressão atmosférica fazem o ar descer, impedem a formação de nuvens e bloqueiam as chuvas. É assim que desertos se formam. Mas o Sudeste do Brasil é verde, úmido e cheio de rios. O motivo está a mais de 3.000 quilômetros dali: na Floresta Amazônica.

A Amazônia funciona como uma bomba gigante de umidade, e é ela que impede o Sudeste de se tornar um deserto. O processo, chamado pelos cientistas de “bomba biótica”, começa com os ventos alísios, que trazem ar úmido do Oceano Atlântico para o interior da floresta. As árvores absorvem essa água pelo solo e a devolvem à atmosfera por transpiração, formando o que os pesquisadores chamam de “rios voadores”: massas de vapor que carregam umidade por milhares de quilômetros até o Sudeste e o Centro-Oeste. Sem esse transporte, as chuvas que abastecem os reservatórios de água, movem as hidrelétricas e irrigam a agricultura simplesmente não chegariam.

O pesquisador Antônio Donato Nobre, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), é um dos cientistas que mais estudou esse fenômeno. Segundo ele, a Amazônia produz cerca de 20 bilhões de toneladas de vapor de água por dia, mais do que o próprio Rio Amazonas despeja no oceano. Esse volume é o que mantém o regime de chuvas do Sudeste funcionando. “Sem a grande Floresta Amazônica, o destino climático de São Paulo é um deserto”, afirmou Nobre em estudos publicados sobre o tema.

O desmatamento já está reduzindo as chuvas no Sudeste

Sudeste do Brasil está na mesma faixa de latitude dos desertos Atacama, Kalahari e Namíbia. Só não é deserto por causa da Amazônia. Desmatamento já reduz chuvas há 32 anos.

O problema é que essa bomba está sendo desmontada. Até 2013, o desmatamento acumulado na Amazônia já tinha eliminado 779.930 km², uma área equivalente à França e à Alemanha somadas.

Nos últimos 32 anos, pesquisadores do INPE constataram um declínio no volume de chuvas no Sudeste diretamente relacionado à perda de cobertura vegetal na Amazônia.

Quando a floresta é derrubada, o que migra para o Sudeste não é mais umidade, e sim fumaça das queimadas, partículas que na verdade impedem a formação de chuvas.

Um estudo publicado na revista Nature em 2024 estimou que 47% da Floresta Amazônica pode entrar em “estresse hídrico” nas próximas décadas.

O pesquisador Bernardo Flores, um dos autores, alertou que o colapso pode ser mais próximo do que se imaginava.

O cenário mais pessimista aponta para uma degradação generalizada até 2050, que afetaria irreversivelmente o ciclo de chuvas de todo o continente.

O que acontece com o Brasil se a bomba parar?

Sudeste do Brasil está na mesma faixa de latitude dos desertos Atacama, Kalahari e Namíbia. Só não é deserto por causa da Amazônia. Desmatamento já reduz chuvas há 32 anos.

As consequências seriam catastróficas. O sistema hidrelétrico brasileiro depende de chuvas para encher os reservatórios, e o Sudeste concentra as maiores usinas do país.

Sem chuva, não há energia. O abastecimento de água de São Paulo, que já enfrentou crise hídrica severa em 2014-2015, ficaria permanentemente comprometido.

A agricultura do Centro-Oeste, que depende dos mesmos rios voadores, perderia produtividade.

O geólogo Paulo Roberto Martini, do INPE, foi direto: “Esse solo da região Sul e Sudeste tem potencial enorme para se tornar deserto.

Basta não chover regularmente.” Investigações geomorfológicas mostram que o território brasileiro já teve características desérticas no passado geológico, há mais de 100 milhões de anos.

A abundância de água no Sudeste não é uma garantia da natureza, é o resultado de um equilíbrio frágil que depende de uma floresta que está sendo destruída.

A Cordilheira dos Andes também desempenha papel fundamental: bloqueia os ventos úmidos e os redireciona para o sul, funcionando como uma parede que empurra a chuva em direção ao Brasil.

Sem a floresta para produzir a umidade e sem os Andes para direcioná-la, o Sudeste teria o mesmo destino climático de seus vizinhos de latitude.

São Paulo está na mesma latitude do Atacama. O que impede 22 milhões de pessoas de viverem num deserto é uma floresta que perde uma área do tamanho de um campo de futebol a cada minuto.

Comenta aí: até quando esse equilíbrio vai aguentar?

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Bruno Teles

Falo sobre tecnologia, inovação, petróleo e gás. Atualizo diariamente sobre oportunidades no mercado brasileiro. Com mais de 7.000 artigos publicados nos sites CPG, Naval Porto Estaleiro, Mineração Brasil e Obras Construção Civil. Sugestão de pauta? Manda no brunotelesredator@gmail.com

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