Cientistas reunidos na Academia Brasileira de Ciências revelaram que 99,99% do oceano profundo nunca foi visto por olhos humanos. Bilhões de toneladas de cobalto, níquel e terras raras esperam no fundo enquanto o Brasil ainda debate como chegar lá.
Em maio de 2026, durante a Reunião Magna da Academia Brasileira de Ciências (ABC), um dado sacudiu o mundo científico: no início deste ano, menos de 30% do oceano global havia sido mapeado com tecnologias de sonar de alta resolução instaladas em navios. A revelação foi feita pelo geofísico Luigi Jovane, professor do Instituto Oceanográfico da USP e membro do grupo de experts das Nações Unidas. Para o pesquisador, a humanidade ainda navega, literalmente, no escuro.
Os números apresentados por Jovane na conferência são difíceis de absorver. 99,99% do oceano profundo permanece visualmente desconhecido. Mais de 95% de todos os mergulhos de exploração de águas profundas acontecem a menos de 200 milhas do litoral, deixando os vastos mares interiores completamente intocados. O vasto interior dos oceanos, com suas planícies abissais e montanhas submersas, segue inacessível.
“Conhecemos mais a superfície da Lua do que o fundo do mar”

A frase é do próprio Jovane, proferida na Conferência Magna da ABC, e carrega um peso incômodo. Segundo o pesquisador, é mais caro desenvolver veículos para explorar o fundo do mar do que para explorar o Universo. A pressão altíssima, a temperatura baixíssima e a ausência total de luz tornam cada missão nas profundezas uma operação de risco extremo — e os impactos de qualquer intervenção no fundo do mar são, nas suas palavras, “globais, não localizados, e cumulativos”.
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O projeto internacional Seabed 2030 — parceria entre a Fundação Nippon e a GEBCO, vinculada à UNESCO — foi lançado em 2017 com a meta de mapear 100% do leito oceânico até o fim desta década. Quando o projeto começou, apenas 6% do fundo dos oceanos havia sido mapeado com resolução moderna. Hoje, após quase uma década de esforço global, esse número chegou a 26,1% — avanço que já trouxe a descoberta de cerca de 19 mil novos montes submarinos que a ciência simplesmente desconhecia.
O que está escondido no fundo — e por que o mundo quer chegar primeiro
Nódulos polimetálicos: minerais estratégicos a 6.500 metros de profundidade
No fundo das planícies abissais, entre 3.000 e 6.500 metros de profundidade, existem formações chamadas nódulos polimetálicos — rochas ricas em manganês, cobalto, níquel, cobre e terras raras, os mesmos metais que movem a fabricação de baterias, turbinas eólicas e veículos elétricos. A Reunião Magna da ABC 2026 colocou esses recursos no centro do debate sobre a economia azul — o uso sustentável dos recursos oceânicos para crescimento econômico com preservação ambiental.
Empresas de diferentes países já testam equipamentos robóticos para extrair esses nódulos a profundidades inalcançáveis por qualquer ser humano. A corrida por esses recursos é global, silenciosa e cada vez mais acirrada — e o Brasil, com mais de 7.400 km de litoral e uma das maiores Zonas Econômicas Exclusivas do planeta, tem interesse estratégico direto nessa disputa.

Brasil, BBNJ e a governança do fundo do mar
Conforme debatido no último dia da Reunião Magna da ABC 2026, o Tratado de Biodiversidade Além da Jurisdição Nacional (BBNJ), que entrou em vigor em 2026, ampliou a participação de países em desenvolvimento nas expedições de exploração oceânica e incentivou a transferência de tecnologia. No mesmo evento, foi destacado que 54% do fundo do mar internacional está sob jurisdição da Autoridade Internacional de Leitos Marinhos (ISA) — e que cada metro mapeado representa território estratégico em disputa entre as nações.
A energia que o oceano pode gerar — e o Brasil ainda não aproveitou
Ondas, marés e gradiente térmico: fontes ainda quase inexploradas
O oceano não guarda apenas minerais — ele é também uma usina renovável praticamente intocada. Na própria Reunião Magna da ABC, o engenheiro Segen Estefen, do Instituto Nacional de Pesquisa em Oceanografia (INPO), detalhou as possibilidades: ondas, correntes oceânicas, amplitude de marés, gradiente térmico entre águas superficiais e profundas, correntes de maré e até gradiente de salinidade podem ser convertidos em eletricidade limpa. Estefen também destacou que o Brasil opera o segundo maior tanque experimental de oceanografia do mundo, na COPPE/UFRJ, dedicado justamente ao teste dessas tecnologias.
Segundo a Agência Brasil, o INPO recebeu R$ 15 milhões da Finep para desenvolver quatro tecnologias simultaneamente: um conversor de energia das ondas, um sistema de gradiente térmico oceânico (OTEC), um módulo de produção de hidrogênio verde offshore e uma turbina de correntes de maré — que também pode operar em rios de fluxo contínuo, levando energia limpa a comunidades isoladas.
Eólica offshore: potencial gigante, avanço ainda lento
O Brasil aprovou em 2025 a Lei 15.097, o marco legal da energia eólica offshore, dando segurança jurídica ao setor. Mas o país ainda aguarda a publicação de um decreto executivo com as regras definitivas para que os projetos saiam do papel. Nenhuma usina offshore opera no Brasil até hoje — enquanto o restante do mundo já acelera com força total nessa tecnologia.
O abismo entre o que sabemos e o que existe
A Reunião Magna da ABC 2026 deixou uma conclusão inequívoca: o oceano é simultaneamente a maior fronteira científica e a maior reserva energética ainda inexplorada do planeta. Menos de 10% das espécies que vivem nas profundezas têm nome científico. Os processos geobiológicos no fundo do mar são, nas palavras de Jovane, simplesmente “desconhecidos”.
O Brasil está posicionado de forma única nessa equação — com litoral extenso, pesquisa avançada e recursos estratégicos na ZEE. Vai chegar na hora certa a essa corrida?

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