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A Rússia constrói quatro usinas nucleares flutuantes em estaleiros chineses para alimentar uma mina bilionária de cobre e ouro no Ártico… e a primeira já provou que funciona

Escrito por Douglas Avila
Publicado em 25/04/2026 às 07:30
Atualizado em 25/04/2026 às 07:34
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Imagine uma usina nuclear flutuante do tamanho de um campo de futebol navegando por águas geladas do Ártico rumo a um dos lugares mais remotos do planeta.

Parece roteiro de ficção científica, mas a Rosatom — estatal nuclear da Rússia — já transformou essa ideia em realidade operacional e agora multiplica a aposta por quatro.

O destino dessas quatro novas barcaças nucleares é o Cabo Nagloynyn, na região de Chukotka, extremo nordeste da Rússia, onde o termômetro pode despencar para 50 graus negativos.

Ali será construído um porto dedicado a receber as plataformas que vão gerar eletricidade para a gigantesca mina Baimskaya, um dos maiores depósitos de cobre e ouro ainda inexplorados do mundo.

A mina Baimskaya e a sede insaciável por energia no fim do mundo

A mina Baimskaya abriga reservas estimadas em 23 milhões de toneladas de cobre e quantidades significativas de ouro, tornando-a um ativo estratégico para a economia russa.

Vista aerea de operacao de mineracao no Artico russo

O problema é que nenhuma rede elétrica convencional chega àquela região inóspita, onde a infraestrutura mais próxima está a centenas de quilômetros de distância.

Operar britadeiras, caminhões fora de estrada e plantas de processamento mineral exige pelo menos 300 MW de potência contínua — energia equivalente ao consumo de uma cidade de médio porte.

Transportar combustível fóssil por terra ou mar até lá seria logisticamente caro e ambientalmente arriscado, especialmente considerando as condições climáticas extremas.

A solução que a Rússia encontrou foi literalmente colocar reatores nucleares dentro de navios e rebocá-los até o local da mineração.

Quatro barcaças com oito reatores RITM-200S: os números do projeto

Cada uma das quatro barcaças nucleares terá dois reatores RITM-200S, a versão estacionária do reator que já equipa os quebra-gelos mais modernos da frota russa.

Juntas, as quatro unidades vão fornecer aproximadamente 420 MW de capacidade elétrica, mais que suficiente para abastecer toda a operação de Baimskaya e a infraestrutura portuária.

Cada barcaça mede 140 metros de comprimento por 30 metros de largura — dimensões comparáveis a um navio de cruzeiro de médio porte, segundo dados divulgados pela Rosatom.

O peso vazio de cada casco é de 9.549 toneladas, mas quando equipado com reatores, sistemas de contenção, tanques de diesel auxiliar e armazenamento de resíduos radioativos, chega a 19.088 toneladas.

Os reatores RITM-200S são do tipo água pressurizada (PWR), com vida útil projetada de 60 anos e ciclos de recarga de combustível a cada 10 anos aproximadamente.

Reator nuclear sendo montado em estaleiro chines

Por que a Rússia escolheu um estaleiro chinês para construir suas usinas nucleares

Em uma decisão que surpreendeu analistas do setor, a Rosatom contratou a empresa chinesa Wison Heavy Industries, sediada em Nantong, para fabricar os cascos das barcaças.

A escolha foi feita por meio de licitação competitiva internacional, na qual a Wison superou propostas de estaleiros russos e sul-coreanos tanto em preço quanto em prazo de entrega.

A cerimônia de batimento de quilha da primeira barcaça já foi realizada no estaleiro de Nantong, marcando o início oficial da fase de construção naval do projeto.

Os cascos serão entregues à Atomenergomash, subsidiária de engenharia da Rosatom, que fará a instalação dos reatores e de todos os sistemas nucleares na Rússia.

Essa divisão de trabalho — casco na China, coração nuclear na Rússia — reflete tanto a busca por competitividade de custos quanto a necessidade de manter o controle sobre tecnologia sensível.

O cronograma prevê que a primeira unidade esteja operacional até 2027, com as demais sendo entregues em sequência nos anos seguintes.

Akademik Lomonosov: a prova de que usinas nucleares flutuantes funcionam

Quem duvida da viabilidade do conceito precisa conhecer a história da Akademik Lomonosov, a primeira usina nuclear flutuante do mundo em operação comercial.

Usina nuclear flutuante Akademik Lomonosov no porto de Pevek

Ancorada no porto de Pevek, na mesma região de Chukotka, a Akademik Lomonosov entrou em operação comercial em maio de 2020 e desde então não parou mais.

Equipada com dois reatores KLT-40S derivados de propulsores de quebra-gelos, a embarcação fornece 70 MW de eletricidade e aquecimento urbano para a cidade de Pevek.

Em 2024, a usina flutuante atingiu a marca histórica de 1 bilhão de quilowatt-hora gerados, demonstrando confiabilidade operacional após quase cinco anos de funcionamento contínuo.

Hoje, a Akademik Lomonosov fornece cerca de 60% de toda a energia consumida na região ocidental de Chukotka e na cidade de Chersky, na Yakútia vizinha.

O sucesso operacional dela é exatamente o que deu confiança à Rosatom para escalar o conceito com reatores maiores e mais potentes no projeto Baimskaya.

As vantagens estratégicas de uma usina que se pode rebocar

A principal vantagem de uma usina nuclear flutuante é a mobilidade — ela pode ser construída em um estaleiro com infraestrutura robusta e depois transportada para onde a energia é necessária.

Isso elimina a necessidade de construir fundações de concreto permanentes em terreno congelado (permafrost), que está derretendo de forma acelerada devido às mudanças climáticas no Ártico.

Ao final da vida útil, a barcaça pode ser rebocada de volta a um estaleiro para descomissionamento controlado, evitando que resíduos nucleares permaneçam em áreas remotas.

Além disso, usinas flutuantes podem ser reposicionadas para atender outras demandas caso a mina esgote seus recursos ou a operação seja encerrada.

Do ponto de vista geopolítico, o projeto também reforça a presença russa no Ártico, região onde a disputa por recursos minerais e rotas comerciais se intensifica a cada ano.

Os desafios e riscos que o projeto ainda precisa superar

Apesar do histórico positivo da Akademik Lomonosov, ambientalistas alertam para os riscos de operar reatores nucleares em águas polares sensíveis.

Um eventual vazamento radioativo no Ártico teria consequências devastadoras para ecossistemas marinhos já pressionados pelo aquecimento global e pela acidificação oceânica.

As normas da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) exigem padrões rigorosos de segurança, e a operação em águas geladas adiciona complexidade à manutenção dos equipamentos.

Há também questões logísticas: o fornecimento de combustível nuclear e a troca de elementos irradiados em locais tão remotos exigem planejamento milimétrico e navios especializados.

As sanções internacionais impostas à Rússia desde 2022 complicam a obtenção de componentes eletrônicos e sistemas de controle ocidentais, embora a parceria com a China mitigue parte desse obstáculo.

O que isso significa para o mercado global de energia e mineração

O projeto Baimskaya sinaliza uma tendência que pode redefinir a matriz energética de operações industriais em regiões remotas ao redor do mundo.

Se as quatro usinas flutuantes russas demonstrarem viabilidade econômica e segurança operacional, outros países com minas isoladas podem seguir o mesmo caminho.

A Rosatom já está em conversas com nações interessadas em adquirir usinas nucleares flutuantes para uso próprio, incluindo países do Sudeste Asiático e da África.

Segundo a World Nuclear News, a estatal russa enxerga um mercado potencial de dezenas de unidades nas próximas décadas.

Para o setor de mineração de cobre, a demanda só tende a crescer com a eletrificação global — veículos elétricos, redes inteligentes e energia renovável dependem fortemente desse metal.

Cronograma e próximos passos do projeto

O calendário oficial prevê as seguintes etapas para a instalação das usinas nucleares flutuantes no Cabo Nagloynyn:

  • 2025-2026: Construção dos quatro cascos no estaleiro Wison em Nantong, China
  • 2026-2027: Transferência dos cascos para a Rússia e instalação dos reatores RITM-200S
  • 2027: Primeira unidade operacional no Cabo Nagloynyn
  • 2028-2029: Entrada em operação das demais três unidades
  • 2030+: Operação plena com 420 MW de capacidade

A Rosatom informou que os testes de combustível nuclear para os reatores RITM-200S já foram concluídos com sucesso, removendo uma das principais incertezas técnicas do projeto.

O investimento total no complexo — incluindo porto, usinas flutuantes e infraestrutura de mineração — é estimado em vários bilhões de dólares, financiados por uma combinação de capital estatal e privado.

Se tudo correr conforme o planejado, o Cabo Nagloynyn se tornará o maior complexo de usinas nucleares flutuantes do mundo, superando qualquer coisa já construída na história da energia nuclear.

Este artigo foi elaborado com base em informações publicadas pela Rosatom, World Nuclear News e Global Energy Monitor. Dados técnicos podem sofrer alterações à medida que o projeto avança.

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Douglas Avila

Trabalho com tecnologia há 16 anos, hoje 100% focado em IA. Atuo como CAIO (Chief AI Officer) em São Paulo, com foco em receita. Formado em Sistemas para Internet pelo Senac. No Click Petróleo e Gás escrevo sobre tecnologia e inovação aplicadas aos setores estratégicos da economia brasileira: energia, indústria, transporte marítimo, automotivo, ciência e engenharia

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