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Robôs subaquáticos mapeiam 2 mil quilômetros quadrados do fundo do Mar Negro e descobrem 65 naufrágios em 2.200 metros de profundidade, datados de 3.300 anos antes de Cristo, da Idade do Bronze ao século 19, perfeitamente preservados por condições anóxicas e revelam detalhes da construção naval impossíveis de encontrar em outros lugares do mundo

Escrito por Valdemar Medeiros
Publicado em 10/03/2026 às 14:24
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Robôs subaquáticos mapeiam 2 mil quilômetros quadrados do fundo do Mar Negro e descobrem 65 naufrágios em 2.200 metros de profundidade, datados de 3.300 anos antes de Cristo, da Idade do Bronze ao século 19, perfeitamente preservados por condições anóxicas e revelam detalhes da construção naval impossíveis de encontrar em outros lugares do mundo no
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Projeto Black Sea MAP mapeou 2 mil km² do fundo do Mar Negro, descobriu 65 naufrágios entre 40 e 2.200 metros e revelou embarcações intactas preservadas por águas sem oxigênio

Entre 2015 e 2017, o Black Sea Maritime Archaeology Project, conhecido internacionalmente como Black Sea MAP, realizou um dos levantamentos de arqueologia marítima mais ambiciosos já feitos em águas profundas. O projeto mapeou cerca de 2 mil quilômetros quadrados do fundo do Mar Negro dentro da Zona Econômica Exclusiva da Bulgária e revelou 65 sítios de naufrágios que vão da Idade do Bronze Antiga, em torno de 3.300 a.C., até o século 19. O que já seria extraordinário em qualquer mar ganhou uma dimensão ainda maior no Mar Negro por causa de uma condição natural raríssima: abaixo de certa profundidade, a água não tem oxigênio suficiente para sustentar a maior parte da vida que normalmente destrói madeira, cordas, remos e outros materiais orgânicos.

A equipe internacional capturou mais de 250 mil fotografias de alta definição, registrou centenas de horas de vídeo em ultra HD e reuniu um volume gigantesco de dados batimétricos, acústicos, sísmicos, fotogramétricos e laser. O resultado não foi apenas a localização de naufrágios. O projeto abriu uma janela inédita para a história da navegação, do comércio e da construção naval em uma das regiões mais importantes do planeta na ligação entre Europa e Ásia.

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O levantamento foi concebido por Hans K. Rausing, que estabeleceu a Expedition and Education Foundation para viabilizar a iniciativa. O financiamento veio da Julia and Hans Rausing Trust, refletindo o interesse da fundação em ampliar o conhecimento sobre as origens da civilização humana e sobre a história profunda das comunidades instaladas em torno do Mar Negro. A liderança científica ficou com especialistas da Universidade de Southampton, que coordenaram uma expedição de escala rara até mesmo para padrões de arqueologia oceânica contemporânea.

Condições anóxicas do Mar Negro preservam madeira, mastros e remos por milhares de anos

O principal diferencial do Mar Negro está em sua estrutura química. Apenas cerca de 13% do volume total do mar é oxigenado, enquanto o restante é anóxico, isto é, praticamente sem oxigênio dissolvido.

Abaixo de aproximadamente 150 metros, instala-se uma camada profunda onde os processos biológicos e químicos que normalmente aceleram a decomposição orgânica ficam drasticamente reduzidos ou simplesmente deixam de ocorrer.

Isso impede a ação de organismos como vermes de navio, gribbles e outros perfuradores de madeira que, em ambientes marinhos normais, destroem embarcações afundadas em poucas décadas ou, no máximo, em alguns séculos.

No Mar Negro profundo, o cenário é outro. A ausência de oxigênio transformou as águas profundas em um verdadeiro museu subaquático da história humana.

Madeira, fixações, marcas de ferramentas, lemes, mastros, bancos de remadores, cargas e elementos decorativos podem permanecer preservados por períodos extraordinariamente longos. Em vez de encontrar apenas fragmentos de casco ou acúmulos dispersos de carga, os arqueólogos encontraram embarcações inteiras, muitas delas em posição de repouso, ainda reconhecíveis em sua forma original.

O que em águas rasas seria rapidamente destruído por correntes, marés, predadores biológicos e impacto mecânico, no Mar Negro profundo pode sobreviver por mais de dois mil anos. Essa combinação de profundidade extrema, baixa perturbação física e anoxia faz do local um dos ambientes arqueológicos subaquáticos mais valiosos do mundo.

Mar Negro entre Europa e Ásia preserva 2.500 anos de comércio, guerra e navegação antiga

Ao longo de milênios, o Mar Negro foi uma encruzilhada geográfica e histórica. Sua posição entre Europa e Ásia, somada à conexão com o Mediterrâneo e com importantes sistemas fluviais, fez dele um eixo de circulação humana desde a Antiguidade.

Pelas suas águas passaram hititas, trácios, gregos, persas, citas, romanos, bizantinos, hunos, povos eslavos, godos, vikings, comerciantes italianos medievais, otomanos e muitos outros grupos que usaram o mar tanto para o comércio quanto para a guerra e a expansão cultural.

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Essa sucessão de civilizações fez do Mar Negro um palco contínuo de atividade marítima. Durante séculos, porém, a tecnologia não permitia investigar adequadamente suas grandes profundidades.

Já em 1976, o engenheiro e arqueólogo marinho Willard Bascom havia escrito sobre a possibilidade de as águas anóxicas do Mar Negro preservarem uma riqueza excepcional de naufrágios antigos. O Black Sea MAP foi o projeto que finalmente comprovou essa hipótese em escala monumental.

Os 65 naufrágios descobertos compõem uma sequência praticamente ininterrupta de 2.500 anos de tradição náutica, atravessando períodos grego, romano, bizantino, otomano e moderno. Eles não representam apenas acidentes marítimos isolados. Juntos, formam um arquivo físico da evolução da navegação, da construção naval, das rotas comerciais e do cotidiano de tripulações ao longo dos séculos.

Tecnologia com ROVs, sonar e fotogrametria 3D permitiu registrar naufrágios em profundidades extremas

Para alcançar esse nível de documentação, o projeto utilizou tecnologia normalmente associada à indústria offshore, adaptada para fins arqueológicos.

Nas temporadas de campo de 2016 e 2017, o Black Sea MAP fretou embarcações das empresas suecas MMT e Reach Subsea, especializadas em pesquisa marinha profunda. A partir do navio R/V Havila Subsea, a equipe operou sistemas robóticos e sensores capazes de trabalhar em condições extremamente desafiadoras.

Dois veículos operados remotamente, os famosos ROVs, foram fundamentais para a descoberta e o registro dos sítios. Ambos carregavam sistemas de imagem Cathx desenvolvidos para a tarefa específica de produzir documentação arqueológica de alta precisão.

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Além das câmeras, os veículos levavam luzes de alta potência, scanners a laser, sistemas acústicos e instrumentos de georreferenciamento. O uso de veículos amarrados permitia que arqueólogos e operadores acompanhassem tudo em tempo real, tomando decisões instantâneas sobre rota, foco de filmagem, coleta de amostras e posicionamento em torno dos naufrágios.

A equipe também recorreu a sonar de varredura lateral, dados sísmicos, medições batimétricas e escaneamento óptico para construir um quadro o mais completo possível de cada local.

O objetivo não era apenas localizar alvos no fundo do mar, mas produzir registros com nível de detalhe suficiente para análise arqueológica avançada. Em muitos casos, os modelos 3D criados a partir das imagens permitiram visualizar o sítio inteiro com riqueza de informação superior à obtida em várias escavações tradicionais.

Surveyor Interceptor revolucionou a arqueologia em águas profundas ao operar a 1.800 metros e 6 nós

Entre os equipamentos mais impressionantes usados no projeto, um ganhou destaque especial: o ROV Surveyor Interceptor, desenvolvido pela MMT e pela Reach Subsea. O veículo foi descrito como revolucionário porque operava a três vezes a velocidade dos ROVs convencionais, carregando uma suíte completa de instrumentação geofísica, câmeras de alta definição, iluminação intensa e scanner a laser.

Durante o Black Sea MAP, o Surveyor Interceptor estabeleceu recordes relevantes para esse tipo de operação. O veículo trabalhou a profundidades de até 1.800 metros, manteve velocidade sustentada superior a 6 nós e percorreu aproximadamente 1.250 quilômetros ao longo do projeto. Em pesquisas subaquáticas profundas, isso representa uma combinação rara de alcance, velocidade e qualidade de dados.

créditos: Ocean Robotics Planet

O segundo sistema foi baseado em um ROV Schilling de classe de trabalho, equipado com câmera Ivanoff Cathx de grande angular e luzes de alta emissão de lúmens. Sua função principal era a captura de imagens destinadas à fotogrametria dos sítios.

Em profundidades superiores a 2 mil metros, as câmeras precisavam suportar pressões esmagadoras, enquanto a iluminação deveria ser forte o bastante para permitir tempos de exposição curtos, minimizando desfoque de movimento e preservando nitidez.

Fotogrametria subaquática e 250 mil imagens criaram modelos 3D detalhados dos naufrágios

A quantidade de material visual produzida pelo projeto foi extraordinária. Foram mais de 250 mil fotografias de alta definição e centenas de horas de vídeo ultra HD. Esse volume não serviu apenas para divulgação ou documentação bruta. Ele alimentou processos sofisticados de fotogrametria, técnica que constrói modelos tridimensionais a partir de milhares de imagens sobrepostas.

Na prática, o software identifica pontos visíveis em duas ou mais fotografias adjacentes e calcula sua posição no espaço, gerando um modelo 3D com milhões de pontos. Em arqueologia subaquática, isso permite produzir réplicas digitais extremamente fiéis do navio, da carga e do sedimento ao redor, sem necessidade de remoção física do material.

Os sistemas Cathx Ocean SOLID também foram usados para correção de distorção óptica, ortorretificação e geração de mosaicos de imagens. Esses mosaicos oferecem uma visão ampla e detalhada do layout de cada sítio, funcionando como mapas visuais de alta precisão. Em vez de um arqueólogo ter de imaginar a disposição original de um navio a partir de fragmentos isolados, o modelo 3D permite estudar o conjunto inteiro, quase como se a embarcação ainda estivesse em operação.

Esse uso combinado de ROVs, laser, sonar, fotografia de altíssima resolução e fotogrametria transformou o fundo do Mar Negro em um laboratório de arqueologia marítima de última geração.

Navio grego de cerca de 400 a.C. foi encontrado intacto a 2 quilômetros de profundidade

A descoberta que mais chamou atenção mundial foi a de um navio mercante grego datado do século 4 a.C., localizado a mais de 2 quilômetros de profundidade.

O casco de cerca de 23 metros de comprimento apareceu extraordinariamente preservado, com elementos raríssimos como mastro, bancos de remadores e estrutura geral intacta. Até então, embarcações desse tipo eram conhecidas basicamente por representações em cerâmicas gregas antigas, como o famoso Vaso das Sereias do Museu Britânico.

oi descoberto graças a um projeto para mapear águas profundas, onde não há oxigênio – Foto: Black Sea MAP)

O estado de preservação foi tão impressionante que a descoberta foi descrita como algo capaz de alterar a compreensão moderna da construção naval e da navegação no mundo antigo. Como a carga interna, normalmente usada para datar naufrágios, não estava plenamente acessível, um ROV coletou uma pequena amostra para datação por carbono.

O resultado confirmou o que o design da embarcação já sugeria: tratava-se de um navio do período clássico grego.

O professor Jon Adams, da Universidade de Southampton, afirmou que um naufrágio intacto dessa idade era sem precedentes. Ver um navio clássico grego em estado tão completo equivale, para a história marítima, a encontrar um monumento da Antiguidade preservado em condições quase impossíveis.

Navio veneziano dos séculos 13 e 14 e embarcações bizantinas ampliam a história marítima do Mar Negro

Além do navio grego, o projeto encontrou uma embarcação veneziana dos séculos 13 ou 14 considerada o exemplo mais completo já descoberto desse tipo. Também foram documentados navios romanos, bizantinos, otomanos e embarcações comerciais posteriores, muitas delas afundadas em mau tempo ao longo de rotas conhecidas.

Alguns desses naufrágios exibem detalhes que dificilmente sobreviveriam em qualquer outro ambiente marinho. Um navio otomano, por exemplo, preservou entalhes de madeira intricados, revelando um nível de acabamento decorativo quase inexistente em naufrágios de águas rasas.

Fotografias foram tiradas com tecnologia ROV (Foto: Black Sea MAP)

Em outro caso, elementos de moldura repousando a mais de 1.100 metros mostraram fixações e marcas de ferramentas ainda visíveis, oferecendo dados diretos sobre técnicas construtivas, carpintaria naval e manutenção da embarcação.

Segundo o Dr. Kalin Dimitrov, diretor do Centro de Arqueologia Subaquática em Sozopol, cada temporada do Black Sea MAP preencheu lacunas no mosaico da navegação antiga. As embarcações representam colonização grega, períodos romano e bizantino, além do tempo otomano, ajudando a reconstruir rotas comerciais, padrões de circulação e modos de vida que se estendem da pré-história à era moderna.

Bulgária protege patrimônio subaquático e foi o segundo país a ratificar a Convenção da UNESCO

A relevância do Black Sea MAP não se resume à descoberta. O projeto também reforçou a importância da proteção legal do patrimônio cultural subaquático. As coordenadas de cada sítio identificado e os dados completos de pesquisa foram depositados junto às autoridades búlgaras e ao Centro de Arqueologia Subaquática em Sozopol, garantindo que os locais fiquem protegidos para futuras gerações de pesquisadores.

A Bulgária tem papel importante nesse contexto porque foi o segundo país a ratificar a Convenção da UNESCO sobre a Proteção do Patrimônio Cultural Subaquático. Isso dá ao país uma estrutura institucional mais sólida do que a de muitos outros Estados costeiros, com integração entre arqueologia, gestão marinha e legislação patrimonial.

Essa dimensão jurídica é crucial porque, em muitos casos, o primeiro passo da preservação é o registro. Nem todo naufrágio precisa ser escavado imediatamente. Em ambientes tão delicados e tão difíceis de acessar, documentar com alta precisão já representa uma forma poderosa de preservação. Em alguns sítios selecionados, contudo, o projeto aplicou fotogrametria para acompanhar o impacto de escavações controladas, especialmente quando camadas de sedimento ocultavam elementos diagnósticos importantes, como montagens de direção, lâminas de leme, pertences pessoais da tripulação e restos de carga.

ROVs e AUVs levam a arqueologia a 6 mil metros e colocam 98% do fundo oceânico ao alcance dos pesquisadores

O Black Sea MAP também se tornou um símbolo de uma mudança maior na arqueologia marítima. Veículos Operados Remotamente, os ROVs, e Veículos Subaquáticos Autônomos, os AUVs, já permitem que pesquisadores estudem o fundo do mar em profundidades de até 6 mil metros. Isso significa que aproximadamente 98% do fundo oceânico mundial está, ao menos em tese, ao alcance da investigação arqueológica.

Nos últimos anos, projetos no Mediterrâneo e no Mar Negro demonstraram o valor científico da arqueologia em águas profundas e ajudaram a formar uma nova geração de especialistas treinados tanto em métodos arqueológicos quanto em tecnologia submarina.

A experiência acumulada deixa claro que esse tipo de trabalho precisa ser colaborativo. Engenheiros, operadores de sistemas, arqueólogos de águas profundas e especialistas em períodos históricos específicos precisam atuar juntos para que cada medição, cada imagem e cada modelo digital tenha utilidade analítica real.

A precisão técnica, sozinha, não basta. Como os próprios especialistas do projeto destacam, cada imagem e cada dado coletado precisam responder a perguntas arqueológicas concretas. É isso que transforma tecnologia em conhecimento histórico.

Fundo profundo do Mar Negro é um museu subaquático que pode reescrever a história da construção naval

Ao fim do projeto, o Black Sea MAP não apenas revelou 65 naufrágios. Ele consolidou o Mar Negro como um dos ambientes arqueológicos mais importantes do planeta. A combinação de profundidade, anoxia, baixa perturbação biológica e longa história de navegação criou o equivalente a um museu subaquático da história humana.

Os naufrágios encontrados representam um padrão contínuo de comércio, guerra, comunicação e circulação cultural que remonta à pré-história. Eles mostram que o Mar Negro foi uma encruzilhada marítima decisiva por milhares de anos e que seu fundo profundo preservou essa memória em um grau que nenhum arquivo escrito poderia oferecer.

O Black Sea MAP estabeleceu o Mar Negro como um dos mais importantes museus subaquáticos do mundo e mostrou que a arqueologia marítima em águas profundas está apenas começando a revelar seu verdadeiro potencial. Ao lado de navios gregos preservados como se tivessem acabado de afundar, embarcações venezianas, bizantinas e otomanas ajudam a reconstruir a evolução da construção naval, da navegação e das redes comerciais que conectaram continentes inteiros.

Mais do que uma coleção de descobertas impressionantes, o projeto provou que a tecnologia robótica moderna pode desbloquear segredos guardados em ambientes extremos por milhares de anos. E, no caso do Mar Negro, esses segredos continuam repousando em silêncio sob uma camada de água sem oxigênio, esperando os próximos arqueólogos descerem com câmeras, lasers e modelos 3D para contar novas partes da história humana.

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Valdemar Medeiros

Formado em Jornalismo e Marketing, é autor de mais de 20 mil artigos que já alcançaram milhões de leitores no Brasil e no exterior. Já escreveu para marcas e veículos como 99, Natura, O Boticário, CPG – Click Petróleo e Gás, Agência Raccon e outros. Especialista em Indústria Automotiva, Tecnologia, Carreiras (empregabilidade e cursos), Economia e outros temas. Contato e sugestões de pauta: valdemarmedeiros4@gmail.com. Não aceitamos currículos!

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