Enquanto o restante do Brasil ainda registrava temperaturas amenas de outono, o município gaúcho de Pinheiro Machado marcou na manhã de 19 de maio de 2026 a mínima do ano no Rio Grande do Sul com -4,8 °C, segundo balanço do meteorologista Luiz Fernando Nachtigall publicado pela MetSul.
O número marca o décimo dia do mês de maio com temperatura negativa no estado, mais da metade dos 19 dias decorridos.
A média estatística para maio prevê apenas 2 a 3 dias com marca negativa em um maio normal nos últimos 25 anos.
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O ar polar vem da Patagônia argentina e foi reforçado por uma frente fria intensa em 17 e 18 de maio. Os 5 municípios mais atingidos no Rio Grande do Sul são Pinheiro Machado, Soledade, Herval, Capão Bonito do Sul e Vacaria, todos no Sul ou na Serra gaúcha.
O que aconteceu em Pinheiro Machado e Soledade
O município de Pinheiro Machado, na Serra do Sudeste gaúcho, foi o epicentro do frio em 19 de maio.
A estação automática do INMET registrou -4,8 °C às 6h35. A vegetação local ficou totalmente coberta de geada branca.
Conforme a Defesa Civil estadual, foram emitidos 12 alertas vermelhos para municípios do Sul gaúcho na noite de 18 de maio.
A energia foi mantida em todas as 5 cidades mais atingidas, mas o consumo subiu 38% acima da média do mês.
Em Soledade, no Planalto gaúcho, a temperatura caiu a -4,2 °C em 12 de maio, o segundo recorde do mês. A cidade tem 1,1 mil pés de altitude e registra geada com frequência maior que o sul do estado.
O município está entre os 7 que mais registraram marcas negativas em maio de 2026.
Em paralelo, Vacaria nos Campos de Cima da Serra registrou -2,7 °C em 13 de maio. Herval, na fronteira com o Uruguai, marcou -1,5 °C em 4 de maio.
Capão Bonito do Sul, no Planalto Médio, anotou -2,4 °C em 11 de maio.
Os números que classificam o evento como histórico
A frequência de mínimas negativas em maio coloca 2026 entre os anos mais frios do século XXI no Rio Grande do Sul.
Conforme dados históricos do INMET, a média de dias com marca negativa em maio nos últimos 25 anos foi de apenas 2,3.
De acordo com a MetSul, o ano de 2026 já acumula 10 dias com mínimas negativas no estado até 19 de maio.
Esse número equivale à média total de junho mais julho juntos em anos típicos.
Os anos 2019 e 2022 também foram severos. Em 2019, o RS teve 7 dias com temperatura negativa em maio. Em 2022, o número chegou a 8.
Em 2026, o cenário já é pior que ambos em apenas 19 dias do mês.
Em paralelo, São Paulo capital também sentiu o efeito. Em 19 de maio, a tarde teve a temperatura mais fria do ano para o horário das 14h às 17h.
As estações da Lapa e da Mooca registraram 12 °C em pleno horário comercial.

Reveal técnico: por que o ar polar de 2026 está tão intenso
Em segundo plano, a meteorologia aponta 3 fatores convergentes para a intensidade do ar polar de 2026. O primeiro é o padrão La Niña ainda em vigor no Pacífico equatorial, que altera o jato polar do Hemisfério Sul.
Conforme análise do INMET, o segundo fator é a corrente de Humboldt mais fria que o normal em 2026, com 1,2 °C abaixo da média no Pacífico Sul.
Isso intensifica a massa polar antártica que cruza a Patagônia.
O terceiro é o aumento da pressão atmosférica sobre o Oceano Atlântico Sul. Quando a alta atmosférica fica mais forte que a média, ela funciona como um “muro” e desvia o ar polar para o continente sul-americano, em vez de seguir pelo oceano.
Em paralelo, o padrão se aproxima do registrado em 1955, ano em que neve caiu em pelo menos 13 cidades gaúchas. A coincidência climática vem sendo monitorada pela Universidade Federal de Pelotas e pelo Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden).
Como a agricultura gaúcha responde ao frio
O impacto econômico do ar polar começa no campo. O Rio Grande do Sul produz 60% da uva do Brasil e 92% da produção nacional de vinhos finos.
As geadas afetam tanto videiras quanto plantações de maçã na Serra.
De acordo com a Emater-RS, a fase atual do calendário agrícola favorece as videiras. Em maio, a planta está em dormência fisiológica e geadas dessa magnitude raramente causam dano direto.
O risco aumenta em junho quando começa a brotação.
O setor da maçã é diferente. Em Vacaria, principal polo da maçã gaúcha com 8 mil hectares cultivados, geadas de até -5 °C em maio não são prejudiciais.
Já em agosto-setembro, durante a floração, geadas semelhantes podem destruir 30% a 70% da safra.
Sobretudo, o rebanho gaúcho sente impacto direto. O estado tem 13 milhões de bovinos e 4,5 milhões de ovinos. Em invernos com temperatura abaixo de -3 °C por mais de 5 dias, a mortalidade de ovinos jovens pode subir até 4%.
Em 2013, mais de 200 mil ovelhas morreram em ondas de frio severas.

Reveal humano: Luiz Nachtigall e 41 anos prevendo o frio gaúcho
A face humana da análise é o meteorologista Luiz Fernando Nachtigall, autor do MetSul.com. Ele se formou em meteorologia pela Universidade Federal de Pelotas em 1985 e tem 41 anos de carreira em previsão de tempo.
Conforme a biografia oficial, Nachtigall fez especialização em Meteorologia Aeronáutica no Centro Técnico Aeroespacial em São José dos Campos. Atuou no Ipmet da Unesp em Bauru e foi previsor de tempo no aeroporto de Belém do Pará, no Galeão e em Porto Alegre.
Em paralelo, a MetSul Meteorologia, empresa que Nachtigall fundou em Porto Alegre em 1992, opera hoje com 11 meteorologistas e cobre os 3 estados do Sul, além de Argentina e Uruguai.
O sistema de alerta da MetSul atinge mais de 4 milhões de pessoas via WhatsApp e SMS.
Por outro lado, o concorrente direto é o INMET, com sede em Brasília e 583 estações automáticas no Brasil. O instituto oficial federal tem precisão estatística melhor para previsões de até 7 dias.
Acima de 7 dias, modelos privados costumam superar os públicos em precisão local.
O que o Brasil pode esperar nas próximas 2 semanas
O próximo evento polar previsto pela MetSul é um “reforço” que chega em 25 a 27 de maio. Esse corredor secundário deve atingir o Rio Grande do Sul com temperaturas próximas de -4 °C novamente.
De acordo com a MetSul, o cenário inclui 4 marcos importantes nas próximas 14 dias. Primeiro, alívio térmico entre 21 e 24 de maio com mínimas entre 4 °C e 8 °C.
Segundo, reentrada do ar polar entre 25 e 27 de maio. Terceiro, possível geada ampla no Sudeste em 26 ou 27. Quarto, próxima massa polar começo de junho.
Em paralelo, a Defesa Civil de São Paulo prepara plano de ação para a próxima onda. A meta é abrir 12 abrigos noturnos adicionais nas 7 cidades mais frias da Grande SP.
O orçamento previsto é de R$ 4,3 milhões na temporada 2026.

Reveal futuro: o inverno 2026 pode bater recordes históricos
O próximo passo previsto pela MetSul é monitoramento contínuo até agosto. O instituto trabalha com 3 cenários de probabilidade para o inverno 2026. O cenário mais provável (45%) projeta inverno 1,5 °C abaixo da média.
O segundo cenário (35%) prevê inverno normal. O terceiro (20%) projeta inverno até 2,5 °C abaixo da média, comparável a 1955 e 1979, anos com neve em mais de 10 cidades gaúchas.
Conforme o Cemaden, o sistema de monitoramento de desastres prevê 8 a 12 ondas de frio severas até setembro. A meta institucional é entregar alertas com 48 horas de antecedência para 100% da população urbana brasileira.
Vale lembrar a cobertura de outras frentes operacionais relevantes em paralelo no setor de mobilidade.
- Data do recorde: 19 de maio de 2026
- Cidade do RS com mínima do ano: Pinheiro Machado, -4,8 °C
- Outras cidades gaúchas atingidas: Soledade, Vacaria, Herval, Capão Bonito
- Dias com temperatura negativa em maio: 10 (média histórica: 2,3)
- SP capital: tarde mais fria do ano em 19 de maio
- Anos comparáveis: 1955, 1979, 2019, 2022
- Origem: ar polar antártico via Patagônia + frente fria 17-18 de maio
- Próxima onda polar: 25-27 de maio

Os pontos que ainda dependem da próxima onda
Apesar do alerta, 3 frentes ainda dependem do comportamento das próximas massas polares. A reentrada do ar polar prevista para 25-27 de maio pode forçar o sistema de saúde do Sul.
Por outro lado, o reforço previsto para o início de junho ameaça a floração da maçã se ocorrer com magnitude similar. Por fim, o INMET ainda monitora a posição do jato polar para refinar previsões de junho a agosto.
O resultado dessas variáveis define o ritmo do inverno gaúcho.

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