Intervenção costeira na Espanha combina engenharia simples e material natural para criar dunas mais resistentes, com resultados medidos por drones e perdas mínimas de volume ao longo do tempo, chamando atenção internacional pela eficiência e pelo uso de processos naturais já existentes.
Uma intervenção costeira no delta do Ebro, na Espanha, chamou atenção ao combinar engenharia leve, reaproveitamento de material natural e monitoramento de alta precisão para reconstruir um sistema de dunas em uma praia vulnerável à erosão.
Em vez de depender apenas de areia, os pesquisadores acompanharam o desempenho de uma duna reforçada com camadas alternadas de sedimento e restos naturais de Posidonia oceanica e registraram que essa estrutura teve perda de volume de cerca de 1,4% ao longo de um ano, enquanto as dunas formadas apenas com areia chegaram a perder até 25% do material reposto.
Projeto no delta do Ebro e erosão acelerada do litoral
Os resultados foram descritos em artigo científico publicado na revista Remote Sensing, que analisou a evolução de dunas restauradas na praia de La Marquesa, um dos trechos mais sensíveis do delta.
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A pesquisa foi conduzida a partir de uma intervenção projetada pelo Servicio Provincial de Costas de Tarragona, ligado ao Ministério para a Transição Ecológica da Espanha, em colaboração com o Laboratori d’Enginyeria Marítima da Universitat Politècnica de Catalunya.

O objetivo do trabalho era desacelerar o estreitamento da faixa de areia e reforçar a proteção de áreas interiores sujeitas a inundações durante tempestades mais intensas.
O cenário em que a experiência foi realizada ajuda a dimensionar por que a solução despertou interesse.
Segundo o estudo, o delta do Ebro possui cerca de 50 quilômetros de costa arenosa formada ao longo de séculos pelo transporte de sedimentos do rio, mas a redução desse aporte alterou a dinâmica do sistema.
Hoje, quase 80% da linha de costa do delta está submetida a processos erosivos, e a praia de La Marquesa vinha apresentando recuo médio anual de 6,4 metros, além da perda progressiva de dunas históricas que praticamente desapareceram antes da restauração observada pelos pesquisadores.
Uso da posidônia como reforço natural das dunas
A escolha da Posidonia oceanica não foi casual.
Trata-se de uma planta marinha endêmica do Mediterrâneo, cujos resíduos se acumulam naturalmente nas praias e ajudam a reduzir a energia do vento e da ondulação, além de funcionar como base para a formação de dunas.
Diretrizes ambientais europeias também destacam que a remoção frequente desse material pode acelerar a erosão e comprometer a integridade do habitat costeiro.
Isso transformou a posidônia, por muito tempo tratada apenas como resíduo, em um elemento de interesse para estratégias de proteção natural da orla.
Como foram construídas as 62 dunas artificiais
Na prática, a intervenção em La Marquesa foi montada em escala considerável.
O estudo informa que foram construídas 62 dunas artificiais com cerca de 25 metros de comprimento, 5 metros de largura e 2,6 metros de altura, separadas por uma distância média de 10,7 metros ao longo de um sistema de 689 metros.

Apenas uma delas, chamada de Dune C pelos autores, recebeu o reforço com camadas alternadas de 15 centímetros de areia e de restos de posidônia recolhidos na praia de L’Arenal.
As demais foram erguidas apenas com sedimento transferido de áreas do próprio delta onde havia acúmulo de areia.
Monitoramento com drones revela diferença de desempenho
Para medir o comportamento de cada estrutura, os pesquisadores realizaram 17 campanhas com drones ao longo de um ano e produziram modelos digitais de elevação capazes de mostrar, em detalhe, como a superfície das dunas mudava após a ação do vento, das ondas e das tempestades.
Esse acompanhamento permitiu comparar a duna reforçada com as demais ao longo das estações e identificar diferenças de volume, de altura das cristas e de redistribuição do sedimento na praia.
Foi nesse monitoramento que a estrutura reforçada se destacou.
O artigo relata que, enquanto as dunas convencionais sofreram redução expressiva da altura das cristas e perda de volume que, nos casos mais extremos, ficou entre 22% e 27%, a Dune C manteve perfil muito mais estável.
Em vários trechos, as dunas só de areia perderam até 1 metro de elevação, enquanto a duna com posidônia registrou perdas de apenas 5 a 12 centímetros, chegando a 25 centímetros em pontos específicos.
Redistribuição de areia e ganho de proteção costeira
Outro aspecto relevante do experimento é que a intervenção não funcionou apenas como um monte isolado de sedimento.
O estudo mostra que parte da areia erodida das cristas foi redistribuída para a base das dunas e para os espaços entre elas, elevando essas áreas entre 20 e 50 centímetros.
Mesmo com a erosão observada em boa parte do campo restaurado, a elevação média da praia ainda permanecia até 0,5 metro acima do nível inicial ao fim do período analisado.
Segundo os pesquisadores, isso aumentou o nível de proteção do trecho contra erosão e inundação.
Solução baseada na própria dinâmica natural da costa
A lógica por trás do resultado combina física costeira e uso de um material já presente no ambiente.
Resíduos de posidônia depositados na praia têm capacidade de reter areia transportada pelo vento, amortecer parte da energia que atinge a faixa costeira e contribuir para a estabilidade do sistema ao se misturar ao sedimento.
No caso espanhol, a técnica não substituiu o papel da areia nem dispensou a necessidade de manejo, mas mostrou que uma composição híbrida pode aumentar a resistência de dunas restauradas.
A experiência também se insere em um debate maior sobre como recuperar praias degradadas sem recorrer apenas a estruturas rígidas.
Em La Marquesa, a intervenção procurou imitar a configuração histórica das dunas desaparecidas e, ao mesmo tempo, proteger a retaguarda da praia, onde ficam áreas agrícolas sensíveis a episódios de inundação.
Ao reunir reposição de sedimento, desenho geomorfológico e reaproveitamento de material natural, o projeto transformou uma praia em retração em um modelo de defesa costeira baseada em processos naturais.
Se uma única duna reforçada com restos naturais conseguiu resistir muito mais do que dezenas de estruturas convencionais, que outros litorais ameaçados pela erosão poderiam adotar soluções semelhantes?

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