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Ratos, coelhos e gatos tomaram uma ilha subantártica isolada, devastaram a vegetação, atacaram aves e colocaram colônias de pinguins sob ameaça, até cientistas apelarem para cães farejadores, helicópteros e veneno em uma operação de guerra para salvar o lugar

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Escrito por Ana Alice Publicado em 19/03/2026 às 11:44
Assista o vídeoIlha Macquarie virou símbolo de restauração após ratos, coelhos e gatos alterarem o ecossistema e ameaçarem aves marinhas.
Ilha Macquarie virou símbolo de restauração após ratos, coelhos e gatos alterarem o ecossistema e ameaçarem aves marinhas.
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Em um território isolado entre a Tasmânia e a Antártida, espécies invasoras alteraram o equilíbrio ambiental, afetaram aves marinhas e aceleraram a erosão do solo, até que uma operação de erradicação transformou Macquarie em referência internacional de restauração ecológica.

A transformação da ilha subantártica de Macquarie em um dos casos mais conhecidos de restauração ecológica começou com a introdução de espécies invasoras ao longo do século XIX.

Ratos e camundongos chegaram de forma acidental em navios; coelhos foram levados por caçadores e marinheiros como fonte de alimento; e gatos passaram a fazer parte daquele ambiente durante a ocupação humana.

Em um território isolado, onde aves marinhas evoluíram sem predadores terrestres de grande porte, essa combinação alterou a dinâmica ecológica, reduziu a vegetação nativa e afetou colônias de aves.

Localizada entre a Tasmânia e a Antártida, Macquarie tem relevância internacional tanto pela geologia quanto pela biodiversidade.

A ilha abriga grandes concentrações de aves marinhas e é o único local de reprodução do pinguim-real, além de reunir uma população expressiva de pinguins-rei, especialmente em Lusitania Bay.

Por isso, o avanço de espécies invasoras passou a ser tratado por autoridades ambientais e pesquisadores como uma ameaça direta a um ecossistema insular de alta sensibilidade.

Espécies invasoras em Macquarie e o desequilíbrio ecológico

Em ilhas oceânicas, a vulnerabilidade ecológica está ligada ao isolamento.

Muitas espécies passam milhares de anos sem contato com mamíferos predadores, sem herbivoria intensa e sem doenças introduzidas de fora.

Quando roedores, coelhos ou carnívoros chegam a esses ambientes, o impacto costuma ser amplo.

Ovos e filhotes ficam mais expostos, enquanto plantas que ajudavam a proteger o solo deixam de resistir ao pastejo contínuo.

No caso de Macquarie, esse processo se acumulou ao longo de décadas.

Ratos e camundongos passaram a consumir ovos, filhotes e outros recursos disponíveis.

Ao mesmo tempo, coelhos avançaram sobre extensas áreas de vegetação.

Já os gatos predaram aves marinhas em larga escala.

Com isso, houve perda de cobertura vegetal, maior exposição do solo e pressão simultânea sobre espécies nativas, tanto por predação quanto por redução do habitat.

Erosão do solo e impacto sobre os pinguins

A vegetação nativa de Macquarie tinha papel central na estabilidade do terreno.

Além de compor o habitat de várias espécies, ela ajudava a proteger encostas, reter umidade e sustentar o solo turfoso da ilha.

Com o aumento da população de coelhos, grandes trechos ficaram degradados e passaram a apresentar sinais mais intensos de erosão.

Em meados dos anos 2000, estimativas oficiais e registros divulgados em reportagens com base no projeto de erradicação indicavam que a população de coelhos havia superado 125 mil indivíduos, chegando a picos próximos de 150 mil antes da eliminação final.

Esse avanço contribuiu para agravar a instabilidade do terreno em diferentes pontos da ilha.

Um dos episódios mais citados nesse contexto ocorreu em 2006, quando um grande deslizamento em Lusitania Bay atingiu uma área associada a uma importante colônia de pinguins-rei.

Relatos da época relacionaram o episódio à erosão agravada pela perda de vegetação e por chuvas intensas.

Há registro de mortes de pinguins, mas o número exato não aparece de forma confirmada nas fontes consultadas.

Erradicação de gatos, coelhos, ratos e camundongos

A experiência de Macquarie também passou a ser citada por pesquisadores como um exemplo dos efeitos indiretos de intervenções parciais.

Os gatos foram erradicados até 2000, o que reduziu a predação direta sobre aves marinhas.

Na sequência, porém, a população de coelhos cresceu de forma acentuada e ampliou a pressão sobre a vegetação nativa.

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Segundo especialistas e gestores envolvidos no tema, esse processo mostrou que a eliminação isolada de uma espécie invasora pode deslocar o problema quando outras continuam presentes no mesmo ecossistema.

A partir dessa avaliação, a estratégia adotada para Macquarie deixou de ser fragmentada e passou a priorizar a remoção conjunta dos mamíferos invasores remanescentes.

Operação de restauração ecológica na ilha Macquarie

Foi nesse contexto que governos e equipes técnicas estruturaram o Macquarie Island Pest Eradication Project.

O programa, financiado pelos governos da Austrália e da Tasmânia, reuniu logística de alta complexidade, monitoramento permanente e diferentes métodos de controle para enfrentar o desafio em uma ilha remota, de clima severo e acesso restrito.

A erradicação ocorreu em etapas.

Em 2011, o calicivírus foi usado para reduzir rapidamente a população de coelhos.

Depois, helicópteros lançaram iscas em toda a ilha, com apoio de mapeamento detalhado do terreno.

Na fase seguinte, caçadores e cães farejadores treinados passaram anos procurando possíveis sobreviventes.

O motivo era operacional: bastava um pequeno grupo escapar para que a infestação voltasse a crescer.

De acordo com registros oficiais, o projeto foi declarado bem-sucedido em abril de 2014, depois de mais de dois anos sem detecção de coelhos, ratos ou camundongos.

Órgãos australianos e pesquisadores ligados ao programa passaram a citar a operação como uma das maiores tentativas de erradicação simultânea dessas três espécies em uma ilha remota.

Recuperação da vegetação e retorno das aves marinhas

Após a retirada dos mamíferos invasores, relatórios científicos e institucionais registraram a retomada da vegetação nativa em diferentes áreas.

Houve expansão de tussock e de outras plantas que haviam perdido espaço durante o período de maior degradação.

Em encostas antes expostas, a recuperação da cobertura vegetal passou a ser observada como um dos principais indicadores de restauração ambiental.

Além disso, aves marinhas que dependem de áreas menos degradadas ou de vegetação mais densa voltaram a ocupar partes da ilha principal.

Em alguns casos, espécies que estavam restritas a ilhotas próximas passaram a ser registradas novamente em áreas antes comprometidas pela presença de invasores.

Dez anos após a declaração oficial de sucesso, o acompanhamento continuou.

Em 2024, autoridades e pesquisadores ligados ao monitoramento informaram que a recuperação da vegetação em algumas regiões havia avançado acima do esperado.

O foco, desde então, permanece na medição dos efeitos de longo prazo sobre pinguins, albatrozes, petréis e outras espécies associadas ao ecossistema local.

Biosegurança e prevenção contra novas invasões

Com a erradicação concluída, a prioridade mudou.

Protocolos de biosegurança passaram a exigir inspeções rigorosas de roupas, calçados, mochilas, cargas e equipamentos levados à ilha.

Em visitas autorizadas, também há triagem prévia antes do desembarque.

A medida busca evitar a reintrodução de espécies invasoras em um ambiente que levou anos para ser restaurado.

Hoje, Macquarie é usada como referência em debates sobre conservação de ilhas oceânicas.

O caso reúne dois aspectos observados por pesquisadores e autoridades ambientais: de um lado, os efeitos prolongados da introdução de animais exóticos em um ecossistema isolado; de outro, a possibilidade de recuperação quando há planejamento contínuo, financiamento público e monitoramento técnico de longo prazo.

Em um cenário de circulação marítima intensa e maior pressão sobre ambientes insulares, a experiência da ilha segue como parâmetro para projetos semelhantes em outras regiões.

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Ana Alice

Redatora e analista de conteúdo. Escreve para o site Click Petróleo e Gás (CPG) desde 2024 e é especialista em criar textos sobre temas diversos como economia, empregos e forças armadas.

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