Como a ilha dos coelhos no Japão escondeu armas químicas e gás tóxico na história de Okunoshima e hoje vive do turismo na ilha dos coelhos.
A ilha dos coelhos, em Okunoshima, parece hoje um cenário de conto de fadas japonês: centenas de coelhos correndo soltos, turistas tirando fotos, crianças rindo e balsas cheias chegando o dia inteiro. Mas por trás dessa imagem fofa existe um passado que o Japão tentou esconder do mundo. A poucos quilômetros de Hiroshima, essa ilha tranquila já foi sinônimo de guerra, gás tóxico e silêncio oficial.
Por décadas, a ilha dos coelhos simplesmente não existiu nos mapas oficiais. Enquanto civis pegavam barcos para trabalhar todos os dias, o Exército Imperial Japonês usava o lugar para produzir armas químicas em escala industrial. Hoje, as ruínas militares, o museu dos gases tóxicos e os monumentos discretos convivem com coelhos famintos por ração de turistas, histórias recentes de maus tratos e um esforço declarado de transformar o horror em mensagem de paz.
Um paraíso de coelhos a poucos quilômetros de Hiroshima

A ilha dos coelhos fica a aproximadamente 60 quilômetros de Hiroshima, cidade marcada pela bomba atômica. Vista da costa, Okunoshima é apenas mais uma ilha entre tantas do litoral japonês.
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De perto, é outra coisa: trilhas, penhascos, ruínas, um hotel grande com restaurante, áreas de churrasco, centro de visitantes e coelhos por todos os lados.
Diz-se que hoje existem cerca de 500 coelhos vivendo soltos na ilha. Antes da pandemia, o número comentado era por volta de mil. Eles se aproximam dos visitantes, seguem as pessoas, puxam sacolas, esperam ração. Basicamente, a alimentação dos coelhos depende do turismo, que traz gente e comida o ano inteiro.
Como a Ilha dos Coelhos virou base secreta de armas químicas
Muito antes de ser conhecida como ilha dos coelhos, Okunoshima tinha um papel completamente diferente.
Em 1902, o local foi estabelecido como um forte militar para defesa aérea e naval. Com o tempo, a estrutura foi crescendo: baterias, canhões, posições defensivas, bases antiaéreas e antinavio.
Por volta de 1924, começou a fase mais sombria. A ilha passou a ser usada para fabricar armas tóxicas. Ali eram produzidos diferentes tipos de gases, como o gás lewisita, armazenados em grandes tanques.
Cada depósito podia abrigar vários tanques de dez toneladas, somando dezenas de toneladas de gás em um único ponto.
Ao todo, cerca de 6.600 toneladas de gases tóxicos foram produzidas naquela pequena ilha. Era um programa militar secreto, ligado diretamente ao Exército Imperial.
Muitos testes foram feitos em pessoas, inclusive chineses usados como cobaias, algo que hoje é apresentado abertamente nos materiais históricos do local.
O museu dos gases tóxicos e a tentativa de transformar horror em paz
Entre ruínas tomados por vegetação e prédios abandonados, um espaço discreto chama atenção: o Museu dos Gases Tóxicos. É um museu pequeno, mas ele concentra a parte mais direta da narrativa oficial sobre o passado da ilha.
Ali se explica, em linguagem simples, que a ilha foi usada para pesquisa, produção e armazenamento de armas químicas.
Painéis lembram os testes em seres humanos, o impacto na saúde dos civis e as decisões militares que transformaram Okunoshima em um ponto sensível na história do Japão moderno.
O objetivo declarado do museu é conscientizar sobre o uso indevido das armas químicas, reforçar que o que foi feito ali foi errado e que esse tipo de arma não deveria existir no mundo. Há um esforço claro de conectar o passado da ilha dos coelhos a uma mensagem de paz e responsabilidade histórica.
A ilha que foi apagada dos mapas oficiais

Durante a Segunda Guerra Mundial, o segredo foi levado ao extremo. A produção de gases era considerada tão sensível que a ilha simplesmente não aparecia nos mapas oficiais.
A situação era paradoxal. A ilha era facilmente visível da costa. As pessoas pegavam barcos e iam trabalhar ali diariamente.
Mas, nos documentos oficiais, ela havia “desaparecido”. Na prática, isso foi facilitado pelo fato de a região ser cheia de ilhas: com tantas manchas de terra no mar, uma ilha a mais ou a menos não chamava tanta atenção.
Sem internet, sem sistemas modernos de verificação e em plena guerra, quase ninguém fora do círculo militar percebeu a manobra. A ilha dos coelhos era, naquele momento, uma ilha que existia fisicamente, mas não existia no papel.
Pós guerra: tanques despejados no mar e civis adoecendo
Quando o Japão perdeu a guerra em 1945, começou uma corrida para desmontar as fábricas, esconder evidências e tentar se livrar dos estoques de gás.
Tanques cheios foram jogados ao mar, em uma tentativa de eliminar rapidamente o risco e, ao mesmo tempo, apagar rastros.
O problema é que essa escolha teve consequências. Relatos apontam que a população da região começou a sofrer com doenças de pele, problemas respiratórios e outros efeitos colaterais associados ao contato com substâncias tóxicas. Décadas depois, ainda havia civis sofrendo com impactos ligados ao que foi despejado.
Em 1985, um monumento foi erguido em homenagem às pessoas afetadas e em protesto contra o que aconteceu ali.
A mensagem é clara: esconder a verdade não protege ninguém a longo prazo. Esconder a história da ilha não foi bom nem para a população, nem para a memória do país.
De experiências químicas a coelhos turísticos: as teorias sobre a origem
Hoje, todo mundo conhece Okunoshima como ilha dos coelhos, mas não há uma única versão oficial sobre como esses animais tomaram o lugar. Há duas teorias principais, repetidas por quem visita ou estuda a ilha.
Uma delas diz que os coelhos foram usados em experiências químicas durante o período militar. Ao fim da guerra, eles teriam sido libertados na ilha. Sem predadores naturais, a população cresceu livremente.
A outra teoria, mais recente e mais “confortável” para muitos, afirma que na década de 1970 um grupo de estudantes levou nove coelhos para a ilha e os soltou ali. Com o tempo, sem predadores e com um ambiente favorável, o número de animais explodiu.
Hoje, pouco importa qual teoria é a verdadeira. O fato é que a ilha se transformou em um destino turístico muito popular. A imagem de coelhos correndo soltos entre ruínas militares acabou virando a marca do lugar.
Coelhos fofos, turismo intenso e um equilíbrio delicado
A experiência típica de quem visita a ilha dos coelhos envolve pegar a balsa, comprar ração em saquinhos ainda no terminal, caminhar ou alugar uma bicicleta e passar o dia alimentando e fotografando coelhos. Muitos animais deixam que os turistas se aproximem, toquem e acariciem. A pelagem é descrita como muito macia, quase como a de um gatinho.
Os coelhos seguem as pessoas, cercam quem está com ração e até tentam puxar as sacolas. É muito relaxante observar as expressões deles comendo, de olhos semicerrados, focados na comida.
Ao mesmo tempo, essa dependência do turismo é frágil. Durante a pandemia de Covid, a queda no número de visitantes fez o volume de ração diminuir e, segundo se comenta, o número de coelhos também caiu. Não está claro se existe um programa estruturado de alimentação quando o fluxo de turistas é baixo.
77 coelhos mortos em 2024: a face sombria da visitação em massa
Por trás das cenas fofas, nem tudo são boas notícias. Em novembro de 2024, foram encontrados 77 coelhos mortos na ilha, todos com um mesmo padrão: ossos quebrados. O número chocou quem acompanha a rotina de Okunoshima.
Meses depois, turistas flagraram um visitante japonês chutando um coelho. Chamaram a polícia e a equipe de segurança do local.
Ao ser questionado, ele disse que queria ver como os coelhos reagiam ao assédio. Ele não confessou ser o responsável direto pelas mortes anteriores, mas admitiu que havia começado a chutar coelhos em outubro de 2024, um mês antes de os corpos começarem a aparecer.
O caso expõe o lado mais incômodo do turismo: a mesma visibilidade que protege a ilha também pode atrair pessoas dispostas a maltratar animais, mesmo em um lugar que ganhou fama justamente por ser um “refúgio fofo”.
Santuário xintoísta, religião e memória na ilha dos coelhos
Em meio a ruínas, museu e coelhos, Okunoshima também guarda um pequeno santuário xintoísta. Um tufão destruiu a estrutura principal há alguns anos, mas as pessoas continuam deixando moedas, fazendo reverências e tratando o lugar como sagrado.
O xintoísmo, religião nativa do Japão, teve seu peso ampliado na era imperial. O imperador é a figura central dessa crença, e houve uma política explícita para reforçar templos xintoístas em relação aos budistas, inclusive demolindo muitos templos budistas para equalizar o número dos dois tipos.
Na ilha dos coelhos, essa camada religiosa se soma à militar, à química e à turística. Okunoshima acaba funcionando como um resumo físico de várias fases da história moderna do Japão, do imperialismo ao turismo em massa.
Hotel, bicicletas, ônibus lento e a rotina de uma ilha cheia de coelhos
A infraestrutura da ilha é relativamente simples, mas suficiente para receber muitos visitantes. Há um hotel grande, com café e restaurante, onde se servem pratos com arroz, polvo, sopa, picles, sashimi e cerveja.
Para explorar tudo, muita gente aluga bicicletas, já que a volta completa é longa para fazer apenas a pé. De bicicleta, o trajeto leva cerca de meia hora, passando por áreas vazias, penhascos altos e pontos escondidos com poucos coelhos. Em alguns trechos, a sensação é de isolamento total.
Do hotel até o terminal de balsas, existe um ônibus gratuito. Ele anda muito devagar, porque precisa desviar dos coelhos que cruzam a estrada.
Há avisos sobre frenagens repentinas. Mesmo assim, o ritmo é de cerca de dez quilômetros por hora, quase um passeio.
A balsa chega cheia, o centro de visitantes vende ração, famílias sentam nas áreas de churrasco, os coelhos cavam buracos no gramado. É, ao mesmo tempo, uma ilha extremamente fofa e um lugar com uma das histórias mais pesadas da região.
Uma ilha fofa, trágica e cheia de perguntas em aberto
Ao pesquisar hoje por Okunoshima no mapa, a ilha aparece sem mistério. O caminho é relativamente fácil, com desvio de trem-bala viável e balsas regulares.
Tudo é visível, sinalizado, aberto. Mas a memória do que foi escondido ali continua presente nos muros, nas placas e nos monumentos discretos.
A ilha dos coelhos é, ao mesmo tempo, um santuário de animais simpáticos, um laboratório de consciência histórica e um exemplo de como um lugar pode carregar traumas e afeto na mesma paisagem.
As ruínas militares, o museu dos gases tóxicos, os coelhos correndo, o hotel cheio, o ônibus desviando de animais, o santuário xintoísta sem estrutura, mas cheio de moedas, tudo isso convive em poucos quilômetros quadrados.
No fim, a pergunta que fica é simples e incômoda: como equilibrar turismo, memória de guerra e proteção dos animais em um lugar que virou símbolo de fofura, mas nasceu do segredo e da violência?
E você, sabendo de toda essa história da ilha dos coelhos, teria vontade de visitar Okunoshima para ver tudo de perto ou prefere que esse tipo de lugar continue apenas como uma curiosidade distante na tela do seu celular?


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