Enquanto parte do país ainda vive com baldes, ligações improvisadas e esgoto a céu aberto, concessionárias começam a usar satélites, válvulas inteligentes, robôs, sensores e escavação subterrânea para reduzir perdas e ampliar redes sem depender apenas de grandes obras tradicionais
O saneamento brasileiro entrou em uma fase em que canos antigos, vazamentos invisíveis e bairros sem rede regular passaram a ser monitorados por inteligência artificial, imagens de satélite, gás hélio e pequenas tuneladoras. A tecnologia não substitui obra, investimento e gestão, mas começa a atacar um dos maiores gargalos do setor, a água tratada que é produzida, bombeada e paga, mas não chega a quem precisa.
A diferença aparece dentro da mesma cidade. No Rio de Janeiro, moradores de áreas formais da Zona Sul convivem com abastecimento mais regular, enquanto comunidades próximas passaram anos usando soluções improvisadas para cozinhar, lavar roupa e tomar banho.
Em lugares assim, o problema não é só produzir água, mas distribuir com pressão correta, reduzir vazamentos e ligar casas a redes oficiais de água e esgoto.
-
Existe no universo distante uma galáxia com o formato de uma água-viva gigante, e seus tentáculos brilhantes não são enfeite: são gás sendo arrancado dela à força, dando à luz estrelas enquanto a galáxia foge por um mar de gás escaldante
-
Cilindro com esferas de aço alcança 14% de amortecimento em testes, funciona sem sensores, cabos ou eletricidade e pode reduzir vibrações em prédios altos, pontes e equipamentos sensíveis com patente registrada nos EUA
-
Farol no meio do deserto intriga visitantes por estar a mais de 160 km do mar, ter 15 metros de altura, alcance de 19 km e ter sido criado por artista após anos de burocracia no Mojave
-
Adeus gerador a gasolina: a estação de energia Bluetti AC70 liga geladeira e Wi-Fi no apagão, entrega 1.000 W, recarrega no sol e tem bateria de 3.000 ciclos por R$ 4.499
De acordo com o Instituto Trata Brasil, com base em dados do SINISA 2024, 39,5% da água é perdida antes de chegar às residências, 84,1% dos brasileiros têm acesso à água tratada e cerca de 90 milhões ainda vivem sem coleta de esgoto.
O mesmo painel aponta investimento de R$ 29,1 bilhões em saneamento básico em 2024, número alto, mas ainda insuficiente diante do atraso acumulado em periferias, favelas, áreas rurais e municípios menores.
O vazamento que não aparece na rua virou alvo de satélite e inteligência artificial

Boa parte das perdas ocorre no subsolo. A tubulação rompe, a água escapa, mas o asfalto continua seco. Em redes extensas, esperar o vazamento aparecer na superfície pode significar meses de desperdício, perda de pressão e abastecimento irregular em bairros inteiros.
É aí que entram tecnologias que antes pareciam distantes da rotina do saneamento. A Asterra informou que usa dados de radar de abertura sintética polarimétrico, o PolSAR, combinados com inteligência artificial, para detectar sinais de umidade no solo e orientar equipes de campo. A empresa assinou contrato com a Aegea para fornecer solução de detecção de vazamentos entre 2024 e o fim de 2026.
Na prática, o satélite não “conserta” o cano. Ele indica pontos prováveis, e as equipes confirmam em solo com equipamentos acústicos, como geofones. O método muda a lógica da manutenção: em vez de sair procurando no escuro, o operador passa a trabalhar com mapa de risco.
A Revista Pesquisa Fapesp citou um teste da Sabesp em um trecho de 50 quilômetros de adutoras na região metropolitana de São Paulo. O sistema por satélite encontrou 81 vazamentos, contra 14 localizados por ferramentas convencionais no mesmo recorte, segundo a publicação.
Válvulas inteligentes tentam corrigir uma rede que manda água demais para um lado e de menos para outro
No Rio de Janeiro, a Águas do Rio passou a instalar válvulas inteligentes para controlar a pressão nas tubulações. A concessionária informou, em abril de 2024, que o programa previa 266 válvulas em pontos estratégicos e que as perdas chegavam a 19 bilhões de litros de água por mês em sua área de atuação.
A lógica é simples, mas o efeito operacional é grande. Quando a pressão fica alta demais, a rede estoura mais. Quando fica baixa, a água não vence a altitude de morros, encostas e áreas distantes dos reservatórios. As válvulas ajustam o fluxo por setor e ajudam a enviar o volume necessário para cada região.
Esse controle também reduz a dependência de manobras manuais. Antes, operadores precisavam abrir e fechar registros de acordo com a percepção da rede e reclamações da população. Agora, sensores, hidrômetros, válvulas e centros de operação permitem acompanhar pressão, vazão e falhas em tempo quase real.
O ganho não está apenas na economia de água. Cada litro recuperado evita nova captação em mananciais, reduz energia usada no bombeamento e amplia a chance de atender bairros que vivem com abastecimento intermitente.
O gás hélio entra na tubulação para denunciar fugas escondidas no subsolo
Outra frente de combate aos vazamentos usa um gás conhecido por ser leve, inerte e presente naturalmente na atmosfera. A solução He-Tracer, da Veolia, injeta hélio na rede de água para localizar fugas que não aparecem por ruído ou umidade visível.
Segundo a Veolia, o serviço busca fugas não visíveis sem interromper o fornecimento, usando o hélio como gás traçador. Em aplicação no Chile, a empresa afirmou que a metodologia alcançou eficiência de detecção superior a 95%, com análise da concentração do gás no solo acima das tubulações.
O processo funciona porque o hélio dissolvido na água escapa pelo ponto de vazamento, atravessa o solo e pode ser detectado por equipamentos na superfície. Em redes profundas ou barulhentas, onde geofones perdem precisão, a técnica ajuda a reduzir escavações desnecessárias.
Mesmo assim, há limitações. A tecnologia funciona melhor em redes públicas com traçado conhecido e menor interferência de estruturas particulares. Em áreas com ligações improvisadas, redes antigas sem cadastro preciso ou múltiplas tubulações sobrepostas, a confirmação em campo continua indispensável.
Tatuzinhos levam tubulação por baixo das ruas sem abrir valas por toda a comunidade
Encontrar vazamentos é uma parte do problema. A outra é levar rede nova a locais onde abrir uma vala pode bloquear vielas, garagens, comércio e acesso de moradores. Em comunidades densas, a obra tradicional fica cara, lenta e socialmente difícil.
No Complexo da Maré, na Zona Norte do Rio, a Águas do Rio começou uma obra de saneamento que prevê 18 quilômetros de redes de esgoto, tronco coletor de 4,5 quilômetros, tubulação de até 1,50 metro de diâmetro e investimento de R$ 120 milhões. A obra deve encaminhar o esgoto para a ETE Alegria e evitar que cerca de 1,3 bilhão de litros de esgoto por mês cheguem à Baía de Guanabara.
Para reduzir o impacto nas ruas, parte da instalação usa pequenos equipamentos chamados de “tatuzinhos”. Eles escavam o subsolo e avançam instalando a tubulação, em processo parecido com o usado em obras de metrô, mas em escala menor.
O método não elimina canteiros, barulho e transtornos. Porém, reduz a necessidade de rasgar ruas inteiras e permite trabalhar em pontos onde a circulação de moradores, motos, carros, ambulâncias e comércio local não pode parar por longos períodos.
A meta de 2033 depende de tecnologia, mas também de ligação regular e tarifa que caiba no bolso
O Novo Marco Legal do Saneamento fixou metas nacionais duras: até o fim de 2033, 99% da população deve ter acesso à água tratada e 90% à coleta e tratamento de esgoto, segundo o Ministério das Cidades.
A distância até esse ponto ainda é grande. O próprio SINISA descreve que as perdas podem ser reais, quando a água escapa por vazamentos em adutoras, ramais e reservatórios, ou aparentes, quando o consumo existe, mas não é medido ou faturado por falhas cadastrais, hidrômetros, erros de leitura, fraudes e ligações clandestinas. O relatório de abastecimento de água de 2025 apontou 39,5% de perdas totais na distribuição e 39,1% de perdas de faturamento.
Nas comunidades, a palavra “perda” nem sempre significa só desperdício físico. Muitas ligações informais surgiram porque o serviço regular nunca chegou ou chegou de forma instável. Quando a rede oficial entra, o desafio deixa de ser apenas técnico e passa a envolver cadastro, tarifa social, medição justa e comunicação clara com os moradores.
A tecnologia pode mostrar onde o cano vaza, qual válvula deve ser ajustada e onde a obra causa menos transtorno. Mas saneamento universal exige outra parte menos visível: contratos fiscalizados, investimento contínuo, manutenção preventiva e capacidade de atender quem hoje está fora da rede formal.
Se satélites, robôs, hélio e tatuzinhos estão chegando ao saneamento, a pergunta agora é se essas ferramentas vão virar melhoria diária na torneira e no esgoto das comunidades. Você acha que a tecnologia pode acelerar a universalização ou o problema principal ainda está na gestão e no investimento? Deixe sua opinião nos comentários.
