Dois arquitetos trocaram Nova Délhi por uma encosta perto de Rishikesh para erguer uma casa de barro, pedra e palha, em uma obra feita com trilha, mulas e voluntários.
Dois irmãos arquitetos de Nova Délhi trocaram a rotina urbana por uma encosta perto de Rishikesh, no norte da Índia, para construir à mão uma casa de barro, pedra e palha em meio à vegetação.
O projeto, chamado Tiny Farm Fort, foi concluído em 2024, virou hospedagem em plataformas de aluguel por temporada e passou a ser citado em reportagens sobre construção natural, vida nas montanhas e turismo fora das rotas convencionais.
A história de Ansh Kumar e Raghav Kumar voltou a circular em 2026, quando a Business Insider publicou que a casa funcionava como hospedagem no Airbnb, com cerca de 60% de ocupação, segundo os próprios irmãos.
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A acomodação também seguia listada publicamente como uma casa de terra em Rishikesh, com acesso apenas por trilha de aproximadamente 1,5 quilômetro, sem chegada direta de carro.
A curiosidade do caso está no caminho até a construção.
Em vez de comprar materiais prontos e contratar uma obra convencional, os irmãos marcaram o desenho da casa no terreno com paus e pedras, carregaram milhares de rochas até o local, levaram areia em mulas e chamaram voluntários estrangeiros para participar da obra.
Ao longo de cerca de três anos, mais de 100 voluntários de 18 países ajudaram na construção, segundo estimativa dos irmãos citada pela Business Insider.
Trabalhadores locais também participaram do processo.
Em outra publicação, a Geeli Mitti, organização ligada a construções naturais, descreve o projeto como uma obra feita ao longo de 18 meses de trabalho distribuídos por mais de três anos, com 100 voluntários de 18 países.
Casa de barro no Himalaia
A construção fica em uma área montanhosa próxima a Rishikesh, cidade conhecida por templos, retiros de ioga, trilhas e pela presença do rio Ganges.
Para chegar à hospedagem, o visitante precisa deixar o carro em uma área mais baixa e caminhar pela floresta com mochila.
O formato da casa é um dos elementos que ajudaram o projeto a ganhar repercussão.
As paredes curvas, o telhado de palha, os desenhos em espiral e os tons terrosos fizeram visitantes compararem a construção a casas de fantasia.

“Algumas pessoas veem como uma casa de Harry Potter, outras como uma casa de hobbit, outras como uma casa de conto de fadas”, disse Raghav à Business Insider.
Para os irmãos, a obra tem ligação direta com o processo coletivo de construção.
“Para nós, é um trabalho de amor, e cada curva conta a história de todas as pessoas bonitas que vieram e colocaram esforço ali”, afirmou Raghav na mesma entrevista.
A casa tem dois quartos, um banheiro e cerca de 600 pés quadrados, o equivalente a pouco menos de 56 metros quadrados, segundo reportagem da Architectural Digest.
A publicação descreveu o imóvel como uma construção esculpida à mão, feita com materiais locais e técnicas de construção natural.
Por que os irmãos deixaram Nova Délhi
Raghav trabalhou em escritórios de arquitetura após se formar e chegou a atuar em uma empresa alemã com base na Índia.
Segundo ele, o ambiente corporativo oferecia aprendizados importantes, mas também vinha acompanhado de longas jornadas e pressão por produtividade.
À Business Insider, Raghav afirmou que havia dias em que trabalhava por até 48 horas seguidas para cumprir prazos.
Ele também disse que passou a perceber uma distância entre o arquiteto que projeta em escritórios climatizados e o trabalhador que executa a obra no canteiro.
Ansh, irmão mais novo, também teve experiência com arquitetura e projetos sustentáveis em áreas rurais e montanhosas da Índia.
Durante a pandemia, os dois começaram a testar materiais de construção em casa, em Nova Délhi, incluindo micélio de cogumelos e uma técnica feita com terra, água e palha.
Foi nesse período que a ideia de viver e construir nas montanhas ganhou forma, segundo os irmãos.
“A Covid mostrou que a vida é curta”, disse Raghav. “Concordamos que precisávamos dar um salto de fé.”
Em março de 2021, os dois se mudaram para uma pequena vila perto de Rishikesh, em um terreno arrendado de um amigo da família.
O acordo incluía a promessa de construir ali uma estrutura sustentável.

Pedras, mulas e barro no lugar de concreto
A construção foi feita principalmente com barro, pedras, palha e madeira.
No lugar de começar por plantas digitais detalhadas, os irmãos usaram o próprio terreno para desenhar o projeto, marcando o espaço com elementos encontrados ao redor.
Depois veio a etapa física mais trabalhosa, segundo os relatos publicados sobre a obra.
As pedras precisaram ser transportadas uma a uma até o local.
A areia chegou com ajuda de mulas, já que o terreno não tinha acesso por carro.
Outros materiais foram obtidos na própria região sempre que possível.
A técnica central usada na casa é conhecida internacionalmente como cob, uma mistura de terra, palha, água e outros componentes naturais.
Em português, ela pode ser entendida como uma forma de construção com barro reforçado por fibras vegetais, moldado manualmente em paredes espessas.
Segundo a Architectural Digest, a casa foi feita com barro retirado a poucos metros do local da obra.
A publicação também informou que milhares de pedras grandes e pequenas foram carregadas para fortalecer as paredes e a base da construção.
A escolha por materiais naturais não eliminou os custos financeiros.
De acordo com a Business Insider, os irmãos gastaram cerca de US$ 30 mil no projeto, usando economias próprias e apoio dos pais.
Já a Geeli Mitti registra o custo em 20 lakhs, valor equivalente a cerca de 2 milhões de rúpias indianas, com variações possíveis conforme câmbio e critérios de cálculo.
Voluntários de 18 países na construção
Para atrair voluntários, Ansh e Raghav divulgaram o projeto na Workaway, plataforma que conecta viajantes a anfitriões que oferecem hospedagem e alimentação em troca de colaboração.
A chamada levou pessoas de diferentes países até a vila para participar da construção.
Os irmãos estimaram que mais de 100 voluntários de 18 países participaram da obra, ao lado de cerca de 20 trabalhadores locais contratados.
Outras publicações falam em mais de 90 participantes internacionais, diferença que parece refletir formas distintas de contar voluntários, visitantes e trabalhadores envolvidos ao longo dos anos.

A obra avançava de forma visível no terreno, segundo Ansh.
“Você consegue ver o progresso todos os dias; a casa ficava mais alta diariamente, de cerca de 15 a 30 centímetros”, disse ele à Business Insider.
Para Ansh, esse avanço físico contrastava com a experiência de passar horas diante de um computador.
A comparação foi feita por ele ao descrever a diferença entre a rotina anterior e o trabalho manual no canteiro.
O resultado foi uma casa de formas orgânicas, com paredes espessas, áreas de dormir em estilo caverna, cama em mezanino, cozinha compacta e banheiro com claraboia.
A hospedagem é apresentada como uma experiência de isolamento, caminhada e contato direto com a floresta, e não como uma acomodação urbana padronizada.
Hospedagem em Rishikesh exige trilha
A casa foi anunciada no Airbnb em abril de 2024, segundo a Business Insider, por cerca de US$ 140 por noite na época da reportagem.
Como valores em plataformas de hospedagem variam conforme data, demanda, taxas e políticas do anfitrião, esse preço deve ser entendido como referência daquele período, não como tarifa fixa.
O próprio anúncio alerta que a experiência exige disposição física.
A propriedade não é acessível de carro, e os hóspedes precisam caminhar cerca de 1,5 quilômetro por uma trilha na floresta, carregando mochilas leves.
Outro ponto destacado é a ausência de internet sem fio na mata.
O texto da hospedagem informa que não há conexão no local, mas apresenta isso como parte da proposta de desconexão digital e contato com o ambiente natural.
A região também exige cuidados com fauna local.
O anúncio menciona a presença de animais silvestres, incluindo elefantes, e informa que há cerca solar para proteção durante a noite.
Os anfitriões pedem que visitantes cheguem antes do anoitecer.
Tiny Farm Lab e arquitetura natural
Após a conclusão do Tiny Farm Fort, Ansh e Raghav estruturaram o Tiny Farm Lab, um estúdio rural de design, pesquisa e construção natural em Rishikesh.
O site do estúdio informa que a equipe trabalha com casas de terra, arte biobaseada, arquitetura sustentável, consultorias, cursos e experimentos com materiais como micélio, algas e fibras vegetais.
Em entrevista à Platform, os fundadores afirmaram que o Tiny Farm Fort continuou influenciando projetos posteriores.
A publicação cita trabalhos em Agra, Rishikesh e Hampi, incluindo renovação de casa de adobe, restauração de uma construção colonial e treinamento de moradores locais em técnicas de construção.
Essas informações indicam que a casa nas montanhas passou a funcionar também como referência pública para o trabalho do estúdio.
O projeto deixou de ser apenas uma hospedagem isolada e passou a integrar a apresentação dos irmãos sobre construção com materiais locais, trabalho manual e colaboração comunitária.
Ainda assim, a experiência não é descrita pelos próprios irmãos como uma solução simples ou universal.
Construir em área remota exige tempo, esforço físico, adaptação à falta de infraestrutura, relação com moradores locais, cuidados com fauna e dependência de uma rede de pessoas dispostas a colaborar.
O caso reúne arquitetura, turismo, vida rural e experimentação com materiais naturais.
O que começou como uma mudança de rota profissional terminou em uma hospedagem de barro no Himalaia, feita com pedras carregadas à mão, areia levada por mulas e voluntários de vários países.

