A promessa de uma cidade de ficção científica no coração do deserto saudita acabou em obra parada, demissões em massa e uma reviravolta que ninguém esperava
Em janeiro de 2021, o príncipe herdeiro da Arábia Saudita, Mohammed bin Salman, apresentou ao mundo o projeto mais ambicioso da história da construção civil.
Chamava-se The Line — uma cidade linear de 170 quilômetros cortando o deserto, com paredes espelhadas de 500 metros de altura e capacidade para 9 milhões de moradores.
Segundo reportagem da Euronews, publicada em janeiro de 2026, o projeto faz parte do megacomplexo NEOM, financiado pelo fundo soberano saudita (PIF) com orçamento inicial de US$ 500 bilhões.
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A visão era tão grandiosa que parecia impossível. Cinco anos depois, ficou claro que era mesmo.
Apenas 2,4 km de fundação em um deserto de 170 km planejados
De acordo com levantamento do House of Saud, atualizado em março de 2026, apenas 2,4 quilômetros de fundação foram concluídos.
Isso representa pouco mais de 1,4% dos 170 quilômetros originalmente planejados.
Nenhuma estrutura acima do solo foi erguida. Não há paredes espelhadas. Não há andares habitáveis.
O que existe são trincheiras de concreto no meio do deserto, onde o calor ultrapassa 50 graus no verão.

Além disso, a construção foi oficialmente suspensa em 16 de setembro de 2025, após uma revisão estratégica ordenada pelo próprio fundo soberano.
Até abril de 2026, as obras seguem paralisadas. Conforme reportou o The Middle East Insider, não há previsão concreta para retomada.
35% dos trabalhadores cortados e mil funcionários transferidos para Riade
A paralisação trouxe consequências imediatas para os trabalhadores. Aproximadamente 35% da força de trabalho foi dispensada.
Mais de mil funcionários foram realocados do canteiro no deserto para escritórios em Riade, a capital saudita.
Contratos com diversas construtoras foram cancelados. Segundo a revista de arquitetura Dezeen, os cancelamentos atingiram não apenas The Line, mas também outros subprojetos de NEOM, como Trojena — a estação de esqui no deserto.
Por consequência, o fundo soberano saudita registrou uma baixa contábil de US$ 8 bilhões relacionada ao projeto.

O custo real pode chegar a US$ 9 trilhões — nove vezes o PIB da Arábia Saudita
Contudo, o número mais surpreendente veio de uma auditoria interna. Segundo reportagem do New Atlas, baseada em informações do Wall Street Journal, o custo total para completar The Line poderia atingir US$ 8,8 trilhões.
Esse valor é aproximadamente nove vezes o PIB inteiro da Arábia Saudita, que gira em torno de US$ 1 trilhão por ano.
Para colocar em perspectiva, o projeto mais caro do mundo atualmente — a hidrelétrica de Motuo no Tibete — custa US$ 170 bilhões. The Line custaria 50 vezes mais.
Dessa forma, o prazo para conclusão total foi estendido para 2080 — mais de meio século à frente.
- Custo estimado total: US$ 8,8 trilhões (auditoria interna)
- Investido até agora: US$ 40-50 bilhões
- Meta de população (2030): reduzida de 1,5 milhão para menos de 300 mil
- Extensão concluída: 2,4 km de 170 km (1,4%)
- Prazo revisado: 2080 para versão completa
Nesse sentido, o Financial Times reportou que o próprio príncipe Mohammed bin Salman aceitou em privado que a visão original será realizada como algo “muito menor” do que o sonho inicial.
De cidade do futuro a parque de data centers: a reviravolta que ninguém previa
Ainda assim, nem tudo está perdido para o megacomplexo NEOM. Em fevereiro de 2026, uma nova direção estratégica começou a tomar forma.
Segundo o Data Center Dynamics, a Arábia Saudita planeja converter parte da infraestrutura de NEOM em um polo de data centers para inteligência artificial.

Uma parceria de US$ 5 bilhões com a empresa DataVolt foi anunciada para construir um campus de data centers no local.
A lógica faz sentido. A infraestrutura de energia e telecomunicações já estava sendo instalada para a cidade. Agora, em vez de alimentar apartamentos e shopping centers, ela pode alimentar servidores.
Da mesma forma, o deserto oferece terras baratas e abundantes — exatamente o que grandes operações de IA precisam.
Portanto, o projeto que foi concebido como a cidade mais futurista do planeta pode acabar como um dos maiores parques de servidores do mundo.
O padrão dos megaprojetos: grandioso na apresentação, modesto na entrega
A história de NEOM não é única. Megaprojetos ao redor do mundo enfrentam padrões similares de atraso e redimensionamento.
No Brasil, a Ponte Salvador-Itaparica levou 60 anos entre a promessa e o início efetivo das obras. A Transnordestina completa 20 anos de construção com 79% pronta.
Sobretudo, o que diferencia NEOM é a escala do gap entre promessa e realidade. Nenhum outro projeto na história prometeu tanto e entregou tão pouco em tão pouco tempo.
De fato, os US$ 40-50 bilhões já investidos teriam sido suficientes para construir quatro vezes o Canal do Panamá expandido.
Por outro lado, especialistas do setor apontam que projetos assim raramente são abandonados por completo. O investimento já feito cria pressão política e econômica para que algo seja entregue — mesmo que seja radicalmente diferente da visão original.
O que resta da cidade que prometia reinventar a civilização
Apesar disso, algumas partes de NEOM avançaram. A ilha resort de Sindalah — o primeiro componente habitável — começou a receber turistas em testes limitados.
Igualmente, a cidade industrial de Oxagon segue em desenvolvimento, com foco em automação e manufatura avançada.
Ainda assim, essas são versões modestas da visão original. A cidade de espelhos de 170 km, com transporte por hiperloop e moradores vivendo sem carros, parece cada vez mais distante.
Consequentemente, a pergunta que resta não é se The Line será construída — é se alguma versão dela justificará os trilhões que foram prometidos.
Será que o mundo verá a cidade mais ambiciosa já planejada se transformar no maior monumento ao excesso da história? Ou a conversão para data centers vai redimir o investimento?
Contudo, é preciso cautela. Os números apresentados nas auditorias internas ainda não foram confirmados oficialmente pelo governo saudita. As decisões finais sobre o futuro do projeto dependem de fatores que vão desde o preço do petróleo até negociações geopolíticas que não são públicas.
O que é certo, por ora, é que a maior promessa arquitetônica do século XXI está estacionada em 2,4 quilômetros de concreto no meio do deserto — e o relógio continua correndo.

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