Auditoria interna pressiona megaprojeto saudita e reabre debate sobre custos. Relatório de auditores citado pelo Financial Times indica redução de escopo do NEOM, com reaproveitamento do que já foi construído e reorientação para metas mais viáveis. Pressão por prazos da Expo 2030 e da Copa de 2034 pesa na decisão. Discussão inclui foco em infraestrutura digital, como centros de dados.
A Arábia Saudita discute um redesenho profundo do NEOM, seu principal megaprojeto no noroeste do país, depois que uma auditoria interna passou a recomendar cortes e mudanças de rumo.
Segundo reportagem do Financial Times, os auditores sugerem reduzir o escopo do empreendimento, aproveitar estruturas já iniciadas e direcionar a estratégia para iniciativas com retorno mais palpável, o que inclui a hipótese de transformar parte da área em um polo de infraestrutura digital, como um centro de dados.
O diagnóstico aparece em um momento em que o governo saudita precisa administrar compromissos internacionais de grande visibilidade, como a Expo 2030, em Riad, e a Copa do Mundo de futebol de 2034.
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Esses eventos, já confirmados por organismos internacionais, aumentam a pressão por prazos, investimentos e entregas concretas, reduzindo a margem para atrasos e projetos com horizonte de maturação mais longo.
Corte de escopo no NEOM entra no radar do governo saudita
De acordo com pessoas ouvidas pelo Financial Times, a revisão do NEOM estava perto de ser concluída e deixava pouco espaço para ajustes marginais.
A avaliação, segundo o jornal, coloca o príncipe herdeiro Mohammed bin Salman diante de uma necessidade prática: aplicar cortes adicionais e reformular planos de construção para que o projeto se torne “muito menor”, com metas mais compatíveis com as restrições financeiras e operacionais descritas na auditoria.
Em vez de sustentar, ao mesmo tempo, uma série de frentes gigantescas com cronogramas ambiciosos, a reorientação discutida no relatório priorizaria o que já avançou e o que pode ser conectado a receitas e uso imediato.
Nesse contexto, a possibilidade de dar ao NEOM um papel mais ligado a serviços digitais e infraestrutura de tecnologia é apresentada como alternativa para reduzir o descompasso entre promessas e capacidade de execução, segundo a mesma apuração.
Ainda assim, o texto do Financial Times trata o movimento como uma reconfiguração de prioridades, e não como encerramento formal do empreendimento.
A leitura é a de um corte que tenta preservar parte do investimento já feito, enquanto limita o risco de manter a expansão em ritmo incompatível com o financiamento disponível.
Expo 2030 e Copa do Mundo de 2034 aumentam pressão por entregas
A discussão sobre redução do NEOM se dá em paralelo à necessidade de mobilizar recursos para projetos ligados à Expo 2030 e à Copa de 2034.
No caso da exposição mundial, a escolha de Riad como sede foi definida em votação do Bureau International des Expositions, com calendário oficial entre 1º de outubro de 2030 e 31 de março de 2031.
Já a Copa de 2034 foi confirmada pela Fifa em dezembro de 2024, em processo que oficializou a Arábia Saudita como anfitriã da competição.
Em termos práticos, isso cria um roteiro de obras e exigências logísticas que não dependem apenas de planejamento, mas de execução com cronograma rígido, o que tende a concentrar decisões e verbas em entregas com data marcada.
Essa combinação de prazos e vitrine global ajuda a explicar por que uma auditoria interna pode ganhar peso político na condução do NEOM.
Quando o país precisa conciliar metas de diversificação econômica com compromissos já assumidos, projetos considerados difíceis de sustentar no formato original passam a ser revistos com mais rapidez.
Fundo soberano PIF e o desafio de financiar megaprojetos
O texto original atribui o aperto ao “colapso do fundo de US$ 1 trilhão” e descreve o Fundo de Investimento Público saudita como tendo “quase 1 bilhão de dólares”.
Os dados públicos mais recentes do próprio PIF, porém, apontam outra ordem de grandeza: o fundo informou que seus ativos sob gestão chegaram a US$ 913 bilhões ao fim de 2024.
Isso não elimina a discussão sobre restrições, porque o fundo e os megaprojetos domésticos estão sujeitos a ajustes, reavaliações e mudanças de portfólio.
Uma reportagem do Financial Times publicada em 2025 informou que o PIF registrou baixa contábil em 2024 no valor de US$ 8 bilhões relacionada a megaprojetos domésticos e citou pressões associadas a custos e revisões operacionais, em um cenário em que os projetos da estratégia Vision 2030 seguem no centro da agenda econômica saudita.
Nesse quadro, a auditoria citada na nova reportagem aparece como parte de um esforço para tornar o NEOM mais executável e menos dependente de expansão contínua.
Em outras palavras, o ponto não é apenas a ambição do desenho urbano, mas a capacidade de sustentar contratos, cronogramas e financiamento simultaneamente, sem comprometer outras frentes consideradas estratégicas pelo governo.
O que é o NEOM e por que The Line virou vitrine global
Anunciado em 2017, o NEOM foi apresentado como um dos eixos para diversificar a economia saudita e reduzir a dependência de petróleo, conectando investimentos, turismo e novas indústrias a uma grande área no noroeste do país.
O lançamento do projeto foi divulgado pela agência oficial saudita em comunicação atribuída ao príncipe herdeiro.
Dentro desse conjunto, The Line ganhou destaque por prometer uma cidade linear e altamente planejada, desenhada como vitrine tecnológica e urbana.
A ideia foi revelada publicamente em 2021, em anúncio noticiado pela Reuters, que descreveu a proposta como parte do NEOM e vinculada a uma narrativa de cidade de “zero carbono”, com forte apelo a inovação e reorganização do espaço urbano.
Com o tempo, o próprio desenho de The Line passou a ser tratado, em reportagens internacionais, como um símbolo das tensões entre escala, custo e execução.
Em novembro de 2024, a Reuters noticiou revisões no NEOM, com foco em elementos considerados prioritários para eventos esportivos e com redução do que seria entregue no curto prazo, citando, por exemplo, uma concentração em um trecho menor do projeto linear.
É nesse ambiente que volta a circular, agora com mais força, a expressão de que o plano corre o risco de deixar de ser uma “miragem no deserto” apenas como provocação e passar a ser um alerta sobre o tamanho do ajuste necessário para compatibilizar ambição e orçamento.
A auditoria mencionada pelo Financial Times se insere nessa mesma linha: reduzir, reordenar e tentar atribuir usos imediatos ao que já saiu do papel.
Com tantos compromissos internacionais no horizonte e um projeto que já consumiu anos de planejamento e obras, até que ponto o governo saudita conseguirá recalibrar o NEOM sem esvaziar a promessa que transformou The Line em vitrine global?


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