Escassez global de chips de memória pressiona a indústria de eletrônicos, eleva custos de produção e leva fabricantes a repassar aumentos ou rever configurações de smartphones e PCs, segundo análises da IDC sobre o impacto da demanda por inteligência artificial.
A escassez global de chips de memória já afeta a cadeia de eletrônicos e pode resultar em aparelhos mais caros a partir de 2026.
A avaliação é de analistas da IDC, que relacionam o cenário à combinação entre oferta limitada de componentes e aumento expressivo da demanda por memórias usadas em infraestrutura de inteligência artificial, segundo reportagem publicada pela revista Forbes.
Com centros de dados consumindo volumes crescentes de DRAM, fabricantes de smartphones e computadores passaram a disputar estoques menores.
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Esse movimento ocorre em paralelo a uma alta recente nos preços desses chips, conforme relatos do mercado acompanhados pela consultoria.
De acordo com Francisco Jeronimo, vice-presidente da IDC para dispositivos cliente, a valorização da memória se intensificou nas últimas semanas.
Segundo ele, o impacto tende a ser maior para empresas que operam com margens reduzidas.
Na avaliação do executivo, a elevação de custos aumenta a pressão para repasse ao consumidor final.
Esse repasse, segundo a IDC, deve ocorrer principalmente nos segmentos de entrada e intermediário, onde há menor capacidade de absorver aumentos sem reajustar preços.
Escassez de chips de memória e gargalo na produção
Analistas da IDC apontam que a pressão atual difere de ciclos anteriores do setor de semicondutores.
Neste momento, o fator central identificado pela consultoria é a realocação da capacidade industrial.
Fabricantes de memória estariam direcionando parte maior da produção a componentes de maior valor agregado, voltados a data centers e aplicações de inteligência artificial.

Nesse grupo estão tecnologias como HBM e versões corporativas de DDR5.
Ao mesmo tempo, há redução relativa da disponibilidade de chips voltados a eletrônicos de consumo.
Como resultado, fornecedores de grande porte também passaram a operar com estoques mais apertados, de acordo com apuração da revista Forbes.
Segundo a consultoria, quando a oferta diminui e a demanda permanece elevada, os preços costumam reagir primeiro.
Na sequência, o efeito chega às especificações dos produtos finais oferecidos ao consumidor.
Preço dos smartphones deve subir mais no segmento de entrada
No cenário mais conservador traçado pela IDC, os preços médios dos smartphones podem subir cerca de 8% em 2026.
O impacto, porém, não tende a ser homogêneo entre os diferentes segmentos do mercado.
O relatório indica que os aumentos devem ser mais sentidos nos modelos de menor preço.
Esse é o grupo em que as margens já são historicamente mais estreitas.
Diante desse contexto, fabricantes avaliam alternativas como o repasse integral dos custos ou ajustes nas configurações dos aparelhos.
Especialistas ouvidos pela consultoria alertam que a redução de memória e armazenamento pode afetar o desempenho ao longo do tempo.
Esse efeito se torna mais relevante em um cenário em que sistemas operacionais e aplicativos passam a exigir mais recursos de hardware.
Nesse contexto, Jeronimo menciona um problema recorrente relatado por usuários.
“Todos nós sabemos que o principal motivo de a maioria dos celulares travar é a falta de memória ou armazenamento”, afirmou, em entrevista reproduzida pela revista Forbes.
Segundo ele, a tendência é de agravamento à medida que novas atualizações de software ampliam as exigências técnicas dos aparelhos.
Apple e Samsung enfrentam cenário com mais proteção financeira

Entre os principais fabricantes globais, Apple e Samsung aparecem, segundo a IDC, em posição relativamente mais favorável para atravessar o período de escassez.
A consultoria atribui essa condição a reservas de caixa mais elevadas e a contratos de fornecimento de memória firmados com antecedência.
Em alguns casos, esses acordos possuem horizonte de até dois anos.
Ainda assim, a IDC avalia que nem mesmo esses grupos estão totalmente protegidos, como também apontou a revista Forbes ao analisar o impacto da crise de memória sobre os grandes fabricantes.
A projeção é que os modelos topo de linha do próximo ano mantenham 12 GB de memória.
A expectativa de avanço para 16 GB pode ser adiada diante das condições atuais de custo e oferta.
Para analistas do setor, a combinação de preços mais altos e disponibilidade limitada tende a desacelerar a evolução das especificações técnicas.
Esse movimento ocorreria independentemente do interesse do mercado por aparelhos mais potentes.
Fabricantes de PCs sob pressão maior em 2026
No mercado de computadores pessoais, o cenário é descrito pela IDC como mais sensível, sobretudo para fabricantes de menor porte.
Segundo Jeronimo, executivos do setor demonstram preocupação com a continuidade dos negócios diante do aumento de custos.
“Conversei com fabricantes de PCs — marcas menores — esta semana, e eles estavam dizendo: ‘não sabemos se vamos sobreviver a essa crise’”, afirmou.
As projeções da consultoria indicam que os preços médios dos PCs também podem subir cerca de 8% em 2026.
Ao mesmo tempo, o impacto sobre a demanda tende a ser negativo.
A queda estimada é de 9% nos embarques em um cenário considerado mais adverso pela IDC.
Esse efeito combinado é apontado como especialmente problemático para empresas com menor poder de negociação na cadeia de suprimentos.
Relatos de mercado mencionam reajustes ainda mais elevados em determinados contratos.
Segundo Jeronimo, alguns fornecedores enfrentam resistência crescente de clientes diante de aumentos expressivos.
“Não estamos falando de 1% ou 2%, mas de aumentos de 15%, 20% em alguns casos”, disse.
Fim do Windows 10 amplia impacto no mercado corporativo
A crise de memória ocorre em paralelo a um ciclo relevante de renovação de PCs.
O fim do suporte ao Windows 10, encerrado em outubro de 2025, levou empresas a reavaliar seus parques de máquinas.
Esse processo acelerou decisões de compra ou migração de sistema.
O movimento aumentou a demanda por novos equipamentos em um momento de restrição de componentes.
Segundo analistas, a combinação de preços mais altos e necessidade de atualização tecnológica dificulta negociações.
O impacto é mais perceptível em contratos corporativos de grande volume.
A disputa por memória com data centers e a tendência de PCs com mais RAM em segmentos premium reforçam a instabilidade projetada para 2026, conforme destacou a revista Forbes ao tratar do tema.
Produção de memória não deve reagir rapidamente
Especialistas do setor avaliam que a situação não deve ser resolvida no curto prazo.
A expansão da capacidade produtiva exige investimentos elevados e prazos longos.
A construção e a operação de novas fábricas envolvem planejamento de vários anos.
Além disso, fabricantes demonstram cautela diante de incertezas sobre a duração da demanda associada à inteligência artificial.
Jeronimo afirma que decisões desse porte dependem de perspectivas de médio e longo prazo.
“Esse tipo de fornecedor não sai anunciando imediatamente que vai gastar bilhões comprando e construindo fábricas, wafers e tudo mais, se não tiver certeza de que haverá mercado para vender essa produção em dois ou três anos”, afirmou.
Segundo ele, o foco atual está no atendimento ao segmento de IA, considerado mais rentável do que o de eletrônicos de consumo.
Projeções recentes da IDC indicam que o crescimento da oferta global de DRAM e NAND em 2026 deve ficar abaixo da média histórica.
Isso ocorre mesmo com a demanda elevada.
Para a consultoria, esse descompasso pode prolongar os efeitos sobre preços e configurações de produtos.
O cenário influencia decisões tanto de fabricantes quanto de consumidores.
Com reajustes mais frequentes e possíveis limitações técnicas em parte dos lançamentos, o mercado entra em uma fase de maior cautela.
Até que ponto consumidores e empresas estarão dispostos a aceitar aparelhos mais caros ou com menos memória ao planejar a próxima troca de smartphone ou computador?


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