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Preço do leite despenca e produção deve perder força em 2026

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Escrito por Sara Aquino Publicado em 29/12/2025 às 21:19
Com margens apertadas, pecuaristas seguram a produção de leite enquanto importações de lácteos seguem pressionando preços.
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Com margens apertadas, pecuaristas seguram a produção de leite enquanto importações de lácteos seguem pressionando preços.

A queda acumulada de mais de 18% no preço do leite ao produtor, registrada nos últimos 12 meses, está levando pecuaristas brasileiros a reverem planos de investimento e a segurar o avanço da produção de leite em 2026.

O movimento ocorre em todo o país e reflete um cenário de margens pressionadas, consumo interno mais moderado e aumento das importações de lácteos, fatores que ajudam a explicar a nova postura do setor. 

Após um primeiro semestre positivo em 2025, o mercado mudou de direção na segunda metade do ano.

A retração nos preços pagos pela matéria-prima passou a afetar diretamente a margem do produtor, levando analistas a projetarem um crescimento mais contido da produção no próximo ciclo. 

Margem do produtor entra em alerta com preços nos níveis mais baixos desde 2021 

Segundo Natália Grigol, pesquisadora do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), o setor inicia 2026 em um ambiente de maior cautela.

“O setor produtivo deve iniciar o ano num clima de mais cautela e margens mais limitadas.

Os preços [ao produtor] estão nos valores mais baixos desde 2021, o que deve causar uma contenção nos investimentos”, afirma. 

De acordo com a pesquisadora, a expectativa de crescimento do PIB em torno de 2% no próximo ano aponta para um consumo interno menos aquecido.

Além disso, o calendário eleitoral adiciona instabilidade ao cenário macroeconômico, o que reforça a postura defensiva dos pecuaristas. 

Nesse contexto, o Cepea projeta que a captação industrial de leite cresça entre 2% e 2,5% em 2026, bem abaixo da alta próxima de 7% registrada em 2025. 

Produção de leite perde força após estímulo em 2025 

A analista Juliana Pila, da Scot Consultoria, explica que o avanço expressivo da produção de leite em 2025 foi impulsionado principalmente pela queda nos custos de insumos, com destaque para o milho.

Esse cenário favoreceu investimentos em nutrição do rebanho e ampliou a oferta de leite no mercado. 

Para 2026, porém, o ambiente é diferente. Com a queda no preço do leite, os produtores tendem a reduzir gastos e desacelerar a produção.

“Em 2025, o ano começou com uma remuneração bastante positiva ao produtor e 2026 começa com o produtor com as margens um pouco mais achatadas”, avalia. 

Investimentos feitos em 2024 agravam pressão sobre pecuaristas 

Na avaliação de Geraldo Borges, presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Leite (Abraleite), a situação atual é agravada pelos investimentos realizados em 2024, quando o cenário era favorável.

“A gente vê produtores, inclusive pessoas mais simples dizendo que estão vendendo o almoço para comprar o jantar.

Aqueles que fizeram investimentos e financiamentos não estão conseguindo arcar com seus compromissos”, afirma. 

O impacto direto recai sobre a margem do produtor, que vem sendo comprimida pela combinação de preços baixos, custos ainda relevantes e maior concorrência no mercado interno. 

Importações de lácteos ampliam pressão sobre o mercado interno 

Apesar das dificuldades, especialistas evitam classificar o momento como uma crise estrutural. Para Valter Galan, sócio da Milkpoint, o problema está no descompasso entre oferta e demanda.

“Conceitualmente um setor em crise não cresce 7%. Temos problemas sérios de fluxo de informação ao longo da cadeia produtiva, mas acho que não é exatamente uma crise”, afirma. 

Segundo Galan, a produção cresce em ritmo muito superior ao consumo.

“Estamos num momento duro porque a gente está crescendo 7% na produção enquanto a demanda está crescendo 2%. Então a conta não fecha”, explica. 

Nesse cenário, as importações de lácteos passaram a ser vistas como um agravante.

O setor aguarda medidas antidumping contra produtos da Argentina e do Uruguai, enquanto estados como Santa Catarina e Goiás já proibiram a reconstituição de leite em pó importado para venda como leite fluido. 

Queda nas importações ainda é insuficiente, avalia setor 

Dados do Centro de Inteligência do Leite da Embrapa (CILeite) indicam que as importações de lácteos caíram 13,2% no acumulado de 12 meses até novembro.

Apesar disso, Natália Grigol ressalta que os produtos importados ainda representam cerca de 10% da produção nacional, o dobro do registrado há três anos. 

Para Borges, da Abraleite, essa redução ainda está longe de resolver o problema.

“Precisava ter uma queda drástica nas importações, de no mínimo 50%, e ainda assim o volume estaria muito acima da média histórica”, afirma. 

Setor defende medidas estruturantes e foco em exportação 

Ciente das limitações das medidas antidumping, a Abraleite também cobra ações estruturais para aumentar a competitividade do setor.

A proposta é tornar o leite uma cadeia autossuficiente e exportadora, capaz de absorver excedentes sem pressionar o mercado interno. 

“Temos o exemplo de várias cadeias grandes exportadoras, e o leite precisa entrar nesse grupo de cadeias autossuficientes, que produzem aquilo que o país precisa, mas que também exportam excedentes trazendo divisas para o Brasil”, conclui Borges. 

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Sara Aquino

Farmacêutica e Redatora. Escrevo sobre Empregos, Geopolítica, Economia, Ciência, Tecnologia e Energia.

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