Singapura constrói cidade subterrânea com cavernas a 150 metros para liberar espaço urbano ao mover refinarias, munição e esgoto.
Singapura, uma das cidades mais densas do mundo, está construindo uma cidade subterrânea para expandir seu espaço urbano e resolver a escassez de território. O país tem 736 quilômetros quadrados de área total. Para se ter uma noção do que isso significa: Nova York tem 778. Jakarta tem 661. A diferença é que Nova York e Jakarta têm o luxo de crescer para os lados. Singapura está cercada pelo Mar de China Meridional, pelo Estreito de Malaca e pela Malásia, e esgotou praticamente todo o território reclamável do oceano nos últimos 60 anos, período em que aterrou 150 km² de mar para criar terra firme, expandindo a ilha em 25% desde a independência em 1965. Agora o país está abrindo uma nova frente. Não para cima, não para o lado, não para o mar, mas para baixo.
Segundo a Urban Redevelopment Authority de Singapura, a agência responsável pelo planejamento urbano do país, Singapura é a única cidade do mundo com um Plano Diretor dedicado exclusivamente ao espaço subterrâneo. O objetivo é claro: mover para o subsolo tudo o que não precisa estar na superfície — refinarias de petróleo, depósitos de munição, sistemas de esgoto, cabos de alta tensão, túneis de carga industrial — para liberar o que está acima para habitação, parques, comunidades e espaço público. O cálculo é simples: cada hectare liberado debaixo da cidade é um hectare a mais de vida na superfície.
Escassez de espaço em Singapura: por que o país não pode mais crescer para os lados
Desde a independência, Singapura resolveu sua escassez de espaço de duas maneiras: aterrando o mar com areia importada de países vizinhos e construindo verticalmente. As duas abordagens, no entanto, chegaram a limites claros.
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A Indonésia, a Malásia e o Camboja restringiram progressivamente a exportação de areia para Singapura, tornando a expansão territorial mais cara e politicamente sensível. Ao mesmo tempo, os limites verticais estão definidos por restrições estruturais, pelo espaço aéreo e pela densidade urbana já existente.
O subsolo, por outro lado, permanece praticamente inexplorado. A ilha repousa sobre formações de granito da Formação Bukit Timah, com resistência à compressão de até 300 megapascais — cerca de seis vezes mais resistente que o concreto convencional. Trata-se de uma base geológica ideal para escavações profundas e cavernas de grande escala.
Em 2007, o governo criou uma força-tarefa interagências para estruturar o planejamento subterrâneo. O princípio central é objetivo: mover para o subsolo apenas o que for significativo e viável, priorizando infraestruturas que liberem o maior volume possível de área na superfície. É uma lógica de troca espacial — substituir rocha por cidade.
Depósito subterrâneo de munição liberou área equivalente a 400 campos de futebol
O primeiro projeto de grande escala que comprovou essa estratégia foi militar. Singapura precisa armazenar munição dentro do próprio território urbano. Em depósitos convencionais acima do solo, normas de segurança exigem áreas de isolamento ao redor das instalações, impedindo qualquer uso urbano no entorno.
A solução foi transferir essa infraestrutura para o subsolo. A Instalação de Munição Subterrânea (UAF) foi construída sob a antiga Pedreira Mandai, levando uma década para ser concluída e sendo inaugurada em 2008.
As câmaras subterrâneas possuem cerca de 100 metros de comprimento por 26 metros de largura e são conectadas por túneis capazes de acomodar caminhões de carga. A profundidade exata não foi divulgada oficialmente.
O impacto foi imediato: ao mover o armazenamento para o subsolo, cerca de 300 hectares de superfície foram liberados, o equivalente a aproximadamente 400 campos de futebol. A própria rocha de granito substitui a necessidade de zonas de segurança externas, reduzindo em até 90% a área inutilizada.
Além disso, o ambiente subterrâneo reduziu pela metade o consumo de energia necessário para refrigeração.
Cavernas a 150 metros de profundidade armazenam petróleo abaixo do mar
O segundo projeto levou a engenharia subterrânea a um nível ainda mais complexo. As Jurong Rock Caverns são cinco cavernas escavadas a cerca de 150 metros de profundidade, abaixo do leito do mar na região de Jurong Island. Elas armazenam petróleo bruto, condensados e produtos petroquímicos.
Cada caverna possui aproximadamente 27 metros de altura, 20 metros de largura e 340 metros de comprimento, dimensões comparáveis a um edifício de nove andares deitado horizontalmente dentro da rocha. O sistema total, conectado por cerca de 8 km de túneis, tem capacidade de armazenamento de até 1,47 milhão de metros cúbicos, equivalente a cerca de 600 piscinas olímpicas.
Inaugurado em 2014, o projeto custou cerca de 1,7 bilhão de dólares de Singapura na primeira fase. Em troca, liberou aproximadamente 60 hectares de superfície que antes eram ocupados por tanques industriais.
O funcionamento depende de um princípio físico específico: a pressão da água subterrânea ao redor das cavernas atua como barreira natural, impedindo vazamentos e mantendo a estabilidade do sistema.
Sistema de esgoto com 200 km de túneis funciona por gravidade e libera espaço urbano
O maior projeto subterrâneo do país não envolve petróleo nem defesa, mas infraestrutura urbana básica. O Deep Tunnel Sewerage System (DTSS) é uma rede de cerca de 200 quilômetros de túneis escavados a até 55 metros de profundidade. Projetado para funcionar inteiramente por gravidade, o sistema elimina a necessidade de estações intermediárias de bombeamento.
A primeira fase foi concluída em 2008. A segunda está em fase final de execução. Quando completo, o sistema será capaz de tratar até dois milhões de metros cúbicos de água residual por dia.
A planta de Tuas, uma das principais instalações associadas ao sistema, terá capacidade para tratar cerca de 800 mil metros cúbicos diários.
O impacto espacial é direto: cerca de 150 hectares de superfície ocupados por estações tradicionais de tratamento e infraestrutura associada serão liberados para outros usos urbanos.
Cidade em camadas: como Singapura organiza o subsolo por profundidade
O resultado dessa estratégia é uma cidade estruturada em camadas verticais. Nos níveis mais superficiais ficam redes de utilidades e passagens urbanas. Entre 15 e 40 metros de profundidade operam as linhas de metrô MRT e túneis rodoviários. Entre 40 e 60 metros estão os sistemas de esgoto profundo e cabos de transmissão elétrica.
Abaixo de 100 metros, ficam as cavernas de armazenamento de petróleo e munição. Para gerenciar essa complexidade, o governo desenvolve um modelo tridimensional do subsolo, conhecido como Digital Underground, que permite mapear e planejar novas obras sem interferência entre sistemas existentes.
Uma mudança legal foi essencial para viabilizar o modelo: desde 2015, a legislação define que a propriedade privada não se estende indefinidamente para baixo. O subsolo profundo pertence ao Estado, permitindo grandes projetos sem negociações individuais.
O futuro subterrâneo de Singapura e os próximos projetos em estudo
O plano subterrâneo não está concluído. Novas iniciativas estão em desenvolvimento. Entre elas estão cavernas para armazenamento de materiais de construção, reservatórios subterrâneos de água potável e sistemas de drenagem profunda para enfrentar eventos climáticos extremos.
O aeroporto de Changi também integra essa lógica. O Terminal 5 está sendo projetado com cerca de 18 quilômetros de túneis subterrâneos para integração operacional.
Singapura não tem mais fronteiras físicas para expandir. O que resta é a rocha sob seus pés. E o país decidiu que isso é suficiente para construir a próxima camada da cidade.


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