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Por que o Brasil abandonou o ônibus? Dados revelam queda histórica de passageiros, tarifas mais caras, frotas envelhecidas e um colapso silencioso nas cidades

Escrito por Felipe Alves da Silva
Publicado em 06/01/2026 às 13:54
Assista o vídeoÔnibus urbano brasileiro com poucos passageiros em meio a congestionamento de carros e motos.
Ônibus urbanos circulam com menos passageiros enquanto o transporte individual domina as cidades brasileiras.
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Em apenas uma década, o principal meio de transporte urbano do país perdeu quase metade dos passageiros, enquanto carros, motos e aplicativos dominaram as ruas e redefiniram a mobilidade brasileira

Durante décadas, o ônibus foi o verdadeiro motor das cidades brasileiras. Era ele que ligava casa, trabalho e escola, garantindo que milhões de pessoas se deslocassem diariamente. No entanto, esse cenário mudou de forma acelerada. Em apenas dez anos, o Brasil perdeu quase metade dos passageiros do transporte público coletivo, transformando ônibus antes lotados em veículos que hoje circulam quase vazios fora dos horários de pico. Ao mesmo tempo, ruas congestionadas, estações ociosas e tarifas cada vez mais caras passaram a fazer parte da rotina urbana.

A informação foi divulgada por levantamentos da Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos (NTU), complementados por dados da Confederação Nacional do Transporte (CNT) e pesquisas de mobilidade recentes. Segundo esses estudos, o transporte público brasileiro não apenas perdeu usuários, como também deixou de acompanhar as transformações das cidades, criando um descompasso entre oferta, qualidade e novas demandas da população.

Esse processo não aconteceu de forma repentina. Pelo contrário, foi resultado de decisões estruturais, falta de investimento, mudanças no comportamento social e um modelo financeiro que se mostrou insustentável ao longo do tempo.

O ônibus perdeu eficiência, infraestrutura e passageiros ao longo dos anos

Historicamente, o Brasil priorizou a construção de estradas e rodovias, deixando o transporte coletivo urbano dependente quase exclusivamente do ônibus. Segundo a NTU, ele ainda responde por cerca de 85,7% das viagens do transporte coletivo urbano e, até 2017, era utilizado por 45,2% da população. Apesar disso, a expansão das cidades não veio acompanhada da criação de corredores exclusivos, faixas dedicadas ou melhorias estruturais capazes de manter a eficiência do sistema.

Com o crescimento urbano desordenado e o aumento dos congestionamentos, a velocidade média dos ônibus caiu, os tempos de viagem aumentaram e a experiência do usuário piorou. Esse cenário impactou diretamente a produtividade do sistema. O índice de passageiros por quilômetro rodado despencou de 2,52 em 1993 para 1,53 em 2023, uma queda de 40%.

Os reflexos desse declínio são visíveis nas grandes regiões metropolitanas. Em São Paulo, o número de viagens de ônibus caiu cerca de 30% entre 2013 e 2022. Já na Região Metropolitana de Porto Alegre, a perda foi ainda mais drástica: 65% em apenas 20 anos, com o volume anual de passageiros caindo de 144 milhões em 2006 para apenas 51 milhões em 2024.

Além disso, enquanto a demanda diminuía, a frota envelhecia. Em 2023, os ônibus urbanos atingiram uma idade média de 6,42 anos, a mais alta em quase três décadas. Desde 2011, não houve redução significativa dessa média, quando o ideal seria uma frota com até cinco anos de uso. Com menos renovação, o conforto caiu, os custos de manutenção aumentaram e a percepção negativa do serviço se consolidou.

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Crise financeira, tarifas altas e um modelo que penaliza o usuário

Se a infraestrutura já dava sinais de esgotamento, o modelo financeiro do transporte público agravou ainda mais a crise. No Brasil, o sistema depende quase totalmente da tarifa paga pelo passageiro. Sem subsídios consistentes, qualquer aumento de custo — seja combustível, salários ou manutenção — é repassado diretamente ao usuário.

Para Francisco Christovam, diretor-executivo da NTU, a ausência de uma política nacional de financiamento tornou o transporte por ônibus “pouco atrativo, pouco flexível e muito pouco competitivo em relação aos outros modos existentes nas cidades”. Quando a pandemia de covid-19 chegou, o sistema já operava no limite.

Embora muitos associem a crise ao período pandêmico, os dados mostram que o problema é anterior. Em 2013, os ônibus transportavam 390 milhões de passageiros por mês. Dez anos depois, esse número caiu para 214 milhões, uma perda de 45%. No mesmo intervalo, a quilometragem mensal despencou de 230 milhões para 138 milhões de quilômetros rodados.

Em março de 2020, a situação se transformou em colapso. Segundo a NTU, a demanda chegou a cair 80% naquele mês. Mesmo após a reabertura das cidades, o retorno foi parcial: atualmente, o número de usuários permanece 15% abaixo do nível pré-pandemia. As empresas perderam receita, reduziram frotas e aumentaram tarifas, criando um ciclo vicioso difícil de romper.

Os custos continuaram subindo. Apenas a mão de obra representa 42,7% dos custos operacionais e teve alta de 11,8% entre 2022 e 2023, mais que o dobro da inflação do período. Em 2023, as tarifas subiram 6,6%, chegando a R$ 6,50 em algumas capitais, afastando ainda mais passageiros.

Aplicativos, insegurança e mudanças de hábito aceleraram o abandono

Ao mesmo tempo em que o transporte coletivo perdia eficiência, novas alternativas ganharam espaço. O avanço do home office, das aulas remotas e do comércio eletrônico reduziu a necessidade de deslocamentos diários. Paralelamente, os aplicativos de transporte deixaram de ser opção eventual e passaram a integrar o cotidiano urbano.

Segundo a Pesquisa CNT de Mobilidade 2024, o uso de aplicativos saltou de 1% em 2017 para 11,1% em 2024, tornando-se o quarto meio de transporte mais utilizado no país. Esse fenômeno não se restringe às classes mais altas: 68,4% dos usuários de aplicativos pertencem às classes C, D e E, justamente as mais dependentes do transporte coletivo. A própria Uber estima que 80% da população brasileira já utilizou o serviço ao menos uma vez.

Nos números gerais, o ônibus perdeu espaço para quase todos os concorrentes. Entre 2017 e 2024, sua participação nos deslocamentos caiu de 45% para 30,9%. No mesmo período, o uso do carro subiu de 22,2% para 29,6%, enquanto a motocicleta mais que dobrou, passando de 5,1% para 10,9%.

Apesar de ainda ser o meio mais barato — cerca de R$ 9,75 por dia, contra R$ 27 em aplicativos e R$ 30 com carro próprio — o custo-benefício deixou de compensar. Falta de conforto, horários inflexíveis, viagens longas, tarifa elevada e insegurança são os principais motivos citados para o abandono.

A questão da segurança pesa especialmente para as mulheres. Uma pesquisa nacional dos Institutos Patrícia Galvão e Locomotiva, em parceria com a Uber, revela que 71% das brasileiras já sofreram algum tipo de violência durante seus deslocamentos, incluindo assédio, importunação sexual, furtos e agressões. Em 2024, 97% das mulheres afirmaram sentir medo ao se locomover, o que as leva a mudar trajetos, horários ou abandonar o transporte coletivo.

Tentativas de solução, Tarifa Zero e um futuro ainda incerto

Diante desse cenário, parte da demanda perdida dificilmente deve retornar. A própria NTU admite que uma parcela significativa dos usuários que migraram para outros meios não voltará ao ônibus. Para conter a espiral negativa, municípios passaram a adotar subsídios públicos com mais frequência.

Entre 2019 e 2024, o número de cidades que subsidiam o transporte coletivo mais que dobrou, passando de 120 para 241 municípios. Atualmente, 154 cidades adotam algum modelo de Tarifa Zero, sendo 127 com gratuidade total. Esse movimento gerou aumento de 9,8% no total de passageiros e 4,7% nos pagantes em 2024. Ainda assim, a cobertura média dos subsídios no Brasil é de cerca de 30% dos custos, bem abaixo do padrão europeu, próximo de 50%, e sem fonte permanente de financiamento.

No campo político, o Marco Legal do Transporte Público Coletivo (PL 3.278/2021) tenta reformular o modelo nacional. A proposta separa a tarifa técnica da tarifa pública, cria fontes estáveis de custeio e busca dar segurança jurídica aos contratos. Incorporado pelo Ministério das Cidades em 2024, o projeto já passou pelo Senado e segue em tramitação na Câmara dos Deputados.

Enquanto isso, os impactos econômicos se acumulam. Segundo a plataforma Endered, os congestionamentos urbanos custam cerca de 1,5% do PIB nacional por ano, reflexo direto da priorização do transporte individual. O retrato final da crise é visível: ônibus envelhecidos, menos viagens, tarifas altas e cidades cada vez mais paradas.

O transporte público, que já simbolizou integração social e acesso a oportunidades, hoje luta apenas para não parar de vez. O país perde produtividade, as cidades perdem tempo e os passageiros perdem qualidade de vida. E a pergunta que fica é inevitável: até quando o Brasil conseguirá funcionar sem um transporte coletivo eficiente e acessível?

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Felipe Alves da Silva

Sou Felipe Alves, com experiência na produção de conteúdo sobre segurança nacional, geopolítica, tecnologia e temas estratégicos que impactam diretamente o cenário contemporâneo. Ao longo da minha trajetória, busco oferecer análises claras, confiáveis e atualizadas, voltadas a especialistas, entusiastas e profissionais da área de segurança e geopolítica. Meu compromisso é contribuir para uma compreensão acessível e qualificada dos desafios e transformações no campo estratégico global. Sugestões de pauta, dúvidas ou contato institucional: fa06279@gmail.com

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