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O Afeganistão tem uma das maiores reservas de cobre não exploradas do mundo e a China quer controlar tudo isso com um acordo bilionário que pode mudar o destino do país mais pobre da Ásia

Escrito por Bruno Teles
Publicado em 14/06/2026 às 22:51
Atualizado em 14/06/2026 às 22:54
Assista o vídeoA China avança sobre Mes Aynak, maior depósito de cobre não explorado do Afeganistão, num acordo de mineração bilionário que mistura estratégia e geopolítica.
A China avança sobre Mes Aynak, maior depósito de cobre não explorado do Afeganistão, num acordo de mineração bilionário que mistura estratégia e geopolítica.
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A mina de Mes Aynak, localizada a 40 km de Cabul, concentra uma das maiores reservas de cobre ainda intactas do mundo. A China entrou nesse jogo em 2007 e, quase duas décadas depois, o projeto continua parado entre promessas bilionárias, instabilidade política e um sítio arqueológico budista que ninguém sabe muito bem como preservar.

Em 2007, um consórcio chinês liderado pela Metallurgical Corporation of China (MCC) assinou um contrato com o governo afegão para explorar o depósito de cobre de Mes Aynak, na província de Logar. O valor do negócio foi anunciado à época em torno de 2,8 bilhões de dólares, com projeções econômicas que chegavam a cifras muito maiores dependendo do tamanho real das reservas, segundo o relato publicado pelo Global Voices. Era para ser um divisor de águas para o país mais pobre da Ásia. Quase vinte anos depois, a mina ainda não entrou em operação.

O projeto voltou ao radar em 2024 e 2025, quando autoridades do Talibã e representantes chineses retomaram negociações práticas e anunciaram o início das obras de acesso ao local. A movimentação reacendeu o debate sobre o que Mes Aynak representa: uma oportunidade real de desenvolvimento para o Afeganistão ou mais um caso em que um país pobre exporta sua riqueza mineral sem ver mudança concreta na vida da sua população. A China, por sua vez, joga um jogo de longo prazo num tabuleiro onde as outras grandes potências simplesmente saíram de campo.

O cobre que o mundo inteiro precisa

A China avança sobre Mes Aynak, maior depósito de cobre não explorado do Afeganistão, num acordo de mineração bilionário que mistura estratégia e geopolítica.
Antes de falar da mina, vale entender por que esse metal importa tanto agora. O cobre não é ouro.

Não tem apelo estético nem função de reserva de valor. Ele vale porque funciona: está nos cabos de energia, nos motores elétricos, nas turbinas eólicas, nos data centers, nos veículos elétricos.

Um carro a combustão usa uma quantidade razoável de cobre.

Um veículo elétrico consome muito mais. E quanto mais a economia global caminha para a eletrificação, maior fica a pressão sobre as reservas disponíveis.

É nesse contexto que Mes Aynak deixa de ser apenas um problema afegão e vira um nó geopolítico. 

O Afeganistão pode estar sentado sobre um dos maiores depósitos de cobre ainda não tocados do planeta, segundo as estimativas citadas pelo Global Voices, enquanto a demanda global pelo mineral sobe sem parar.

Para a China, que é a maior consumidora de matéria-prima industrial do mundo, garantir acesso a esse recurso não é apenas conveniente. É estratégico.

O que a China quer com o Afeganistão

A China já importa cobre do Chile, do Peru, da República Democrática do Congo e de outros países. Mas o que Pequim busca não é apenas comprar no mercado aberto.

A lógica é outra: construir cadeias de fornecimento que a China possa influenciar diretamente, com acordos de longo prazo, corredores de transporte e infraestrutura conectada às suas próprias fábricas.

Mes Aynak se encaixa perfeitamente nessa equação.

Fica perto de Cabul. Está num país onde as empresas ocidentais hesitam em entrar.

E oferece um recurso enorme num momento em que a China pode ganhar influência regional sem competidores diretos, conforme aponta a análise do Global Voices. 

O que parece um risco para outros investidores é, para Pequim, uma janela de oportunidade rara.

Quase duas décadas de promessas e atrasos

O contrato de 2007 era ambicioso. Previa estradas, fornecimento de energia, alojamentos para trabalhadores e capacidade de processamento local.

O governo afegão esperava royalties, empregos e infraestrutura.

O consórcio chinês olhava para os números e via uma conta que não fechava tão facilmente: sem estradas, sem energia, sem segurança e com ruínas arqueológicas no meio do caminho, o projeto se tornava caro demais para andar rápido.

Os ataques insurgentes criavam risco constante.

A corrupção e a fragilidade institucional do governo de Cabul complicavam as negociações. Ano após ano, Mes Aynak permaneceu praticamente congelado. 

O contrato existia. O depósito existia. O cobre é que não saía do chão. 

Em 2021, com a tomada do Talibã, o cenário mudou de figura mas os problemas estruturais continuaram os mesmos.

Uma cidade budista enterrada sob a mina

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Há um obstáculo que raramente aparece nas análises econômicas sobre Mes Aynak, mas que é central para entender os atrasos: o sítio arqueológico.

A área abriga os restos de um importante assentamento budista com mais de mil anos de história.

Arqueólogos encontraram mosteiros, estupas, estátuas, pinturas murais, moedas e manuscritos espalhados pelo local. Parte das estruturas data dos séculos V e VI, segundo os registros históricos.

Uma mina a céu aberto nessa escala não convive com sítios arqueológicos. Ela remove camadas inteiras de terra e rocha, altera a paisagem permanentemente.

Antes de qualquer extração em larga escala, equipes precisaram documentar, escavar, mapear e recuperar o que fosse possível. 

Esse trabalho levou tempo e dinheiro, e ainda não terminou completamente.

A pergunta que fica em aberto é quanto do patrimônio histórico afegão será sacrificado em nome do cobre que o mundo quer.

O projeto em 2024 e 2025: passos cautelosos

Em 2024, autoridades do Talibã e representantes chineses marcaram o início das obras da via de acesso que liga Mes Aynak à rede de transporte regional.

Em 2025, as conversas avançaram para tópicos de mineração propriamente dita, segundo o Global Voices, alimentando expectativas de que o projeto pode enfim ir além das estradas e entrar numa fase de desenvolvimento mais sério.

Mas o ritmo lento também revela algo. Se a China confiasse plenamente na estabilidade do ambiente, o projeto avançaria mais rápido.

As obras rodoviárias funcionam como uma etapa de teste: permitem que o projeto progrida sem assumir o risco total de uma operação de extração em larga escala imediata. 

É um movimento inteligente, mas também mostra o quanto o projeto ainda é frágil. Minas são lentas, caras e técnicas. Um obstáculo atrasa o próximo passo.

O que o Afeganistão ganha de verdade

Essa é a pergunta mais difícil. Em tese, Mes Aynak pode trazer empregos, estradas, receita fiscal e o começo de uma indústria de mineração real num país que nunca teve uma.

O Afeganistão não tem base manufatureira, não tem grandes indústrias de exportação, depende há décadas de ajuda externa e de agricultura. A mineração seria uma saída possível.

Na prática, a história de países pobres com recursos minerais e investidores externos nem sempre termina bem para a população local. 

O risco de o Afeganistão exportar sua riqueza sem transformar a vida de quem vive lá é real e merece mais atenção do que costuma receber no debate público.

Empregos locais, participação na cadeia de processamento e fiscalização dos contratos são variáveis que definirão se Mes Aynak vira desenvolvimento ou apenas extração.

Uma aposta de longo prazo sem garantias

O que o caso de Mes Aynak revela, no fim das contas, é a lógica de como a China pensa recursos naturais e influência geopolítica.

Não é uma estratégia de curto prazo.

É um posicionamento cuidadoso num país que todos os outros preferiram abandonar, feito em passos pequenos para testar o terreno antes de comprometer recursos maiores.

Para o Afeganistão, o cenário é mais ambíguo. O país precisa de receita, de infraestrutura e de emprego. Mes Aynak pode fornecer parte disso.

Mas a forma como os contratos são estruturados, como os royalties são definidos e como o patrimônio arqueológico é tratado determinará se esse projeto será lembrado como uma virada ou como mais um episódio em que um país pobre saiu perdendo. 

O cobre está lá embaixo. O que ninguém sabe ainda é quem vai se beneficiar quando ele finalmente sair.

A China está fazendo um movimento estratégico inteligente ao investir no cobre afegão, ou os riscos são grandes demais para esse projeto chegar a algum lugar? O Afeganistão tem condições reais de usar a mineração para construir uma economia mais independente? Deixe sua opinião nos comentários.

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Falo sobre tecnologia, inovação, petróleo e gás. Atualizo diariamente sobre oportunidades no mercado brasileiro. Com mais de 7.000 artigos publicados nos sites CPG, Naval Porto Estaleiro, Mineração Brasil e Obras Construção Civil. Sugestão de pauta? Manda no brunotelesredator@gmail.com

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