Enquanto o continente europeu enfrenta recordes de temperatura cada vez mais frequentes, tradição arquitetônica, custo de energia, burocracia e metas climáticas seguem travando a popularização dos aparelhos de refrigeração residencial
As ondas de calor que atravessam a Europa nos últimos anos deixaram de ser um fenômeno isolado. Tornaram-se rotina. E, junto com elas, cresce uma pergunta que incomoda especialistas, autoridades e moradores: por que, mesmo debaixo de temperaturas recordes, o ar-condicionado continua sendo um item raro dentro das casas europeias?
A resposta não é simples. Ela mistura história, arquitetura, economia e política climática — e ajuda a explicar por que o continente reage ao calor de um jeito tão diferente do resto do mundo.
Segundo informações divulgadas pela CNN, em reportagem publicada originalmente em inglês pelo portal CNN International e replicada pela CNN Brasil em 24 de junho de 2026, milhões de europeus enfrentam atualmente temperaturas extremamente altas com recursos limitados. Ventiladores elétricos, bolsas de gelo e banhos frios continuam sendo, para boa parte da população, as principais — e às vezes únicas — ferramentas de alívio térmico.
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Um continente que nunca precisou se refrigerar
Por décadas, a Europa simplesmente não enxergou o ar-condicionado como uma necessidade. Diferente dos Estados Unidos, onde o calor extremo sempre foi parte da paisagem climática, o continente europeu construiu sua relação com as estações do ano sob outra lógica: a de que o frio, e não o calor, era o problema a ser resolvido.
“Na Europa… simplesmente não temos a tradição do ar-condicionado… porque, até relativamente pouco tempo atrás, ele não era uma necessidade importante”, explicou Brian Motherway, chefe do Escritório de Eficiência Energética e Transições Inclusivas da Agência Internacional de Energia (IEA), em declaração reproduzida pela reportagem.
Os números reforçam esse contraste histórico. Enquanto quase 90% das residências americanas possuem ar-condicionado, na Europa esse percentual gira em torno de apenas 20%. Uma diferença enorme — e que ajuda a explicar por que, quando o termômetro dispara, grande parte da população do continente simplesmente não tem para onde correr.
Além disso, o custo pesa contra a popularização do equipamento. Os preços da energia em diversos países europeus são, em geral, mais altos do que nos Estados Unidos, enquanto os rendimentos médios tendem a ser menores. Resultado: manter um aparelho de ar-condicionado funcionando durante semanas de calor intenso pode ser um luxo fora do alcance de muitas famílias.
Casas antigas, arquitetura desafiadora e burocracia
Nesse sentido, a arquitetura também cumpre um papel decisivo na equação. No sul da Europa, regiões historicamente mais quentes desenvolveram soluções próprias contra o calor: paredes espessas, janelas pequenas que bloqueiam a entrada direta do sol e projetos voltados para maximizar a ventilação natural. Essas construções, pensadas séculos atrás, ainda hoje ajudam a manter os ambientes mais frescos sem qualquer tecnologia adicional.
Por outro lado, em outras regiões do continente, essa preocupação nunca existiu. “Nós não tivemos o hábito… de pensar em como nos manter frescos no verão. É realmente um fenômeno relativamente recente”, afirmou Motherway.
A idade dos imóveis também complica a equação. Na Inglaterra — que, segundo a reportagem, acabou de registrar o junho mais quente já medido —, uma em cada seis casas foi construída antes de 1900. Adaptar essas estruturas com sistemas modernos de refrigeração central é tecnicamente possível, mas costuma ser caro e trabalhoso.
Ainda assim, segundo Richard Salmon, diretor da empresa britânica The Air Conditioning Company, o maior obstáculo muitas vezes nem é técnico — é burocrático. Conforme relatado por ele à reportagem, autoridades britânicas frequentemente recusam pedidos de instalação de ar-condicionado “com base na aparência visual da unidade condensadora externa, especialmente em áreas de preservação ou em edifícios tombados”.
Metas climáticas, calor nas ruas e uma mudança em curso
Existe, contudo, uma camada política por trás dessa resistência. A Europa assumiu o compromisso de se tornar neutra em carbono até 2050, e a expansão acelerada do uso de ar-condicionado tornaria essa meta ainda mais difícil de alcançar. Isso porque, além de consumirem grande quantidade de energia, os aparelhos liberam calor para o ambiente externo — agravando o problema que tentam resolver dentro de casa.
Um estudo conduzido em Paris mostrou que o uso intenso de ar-condicionado pode elevar a temperatura externa entre cerca de 2 e 4 graus Celsius, um efeito especialmente preocupante em cidades densamente povoadas, como costumam ser as europeias.
Diante disso, alguns países já adotaram medidas regulatórias para conter o avanço do consumo energético ligado à refrigeração. Em 2022, a Espanha determinou que o ar-condicionado em locais públicos não pode ser ajustado para temperaturas inferiores a 27 graus Celsius — uma tentativa direta de equilibrar conforto térmico e eficiência energética.
Apesar de todas essas barreiras, o cenário está mudando. A Europa vem se consolidando como um verdadeiro “ponto quente” do clima global, com aquecimento duas vezes mais rápido do que a média mundial. E isso está forçando uma reavaliação coletiva sobre o papel do ar-condicionado na vida cotidiana do continente.
“Nossas casas precisam ser resilientes não apenas ao frio, mas também ao calor cada vez mais intenso”, defendeu Yetunde Abdul, diretora do UK Green Building Council, em trecho citado pela reportagem original.
Os dados confirmam essa virada de comportamento. Um relatório da própria Agência Internacional de Energia projeta que o número de unidades de ar-condicionado na União Europeia deve saltar para 275 milhões até 2050 — mais que o dobro do registrado em 2019.
Richard Salmon confirma essa tendência na prática. Segundo ele, as consultas residenciais por instalação de ar-condicionado mais do que triplicaram nos últimos cinco anos. “Essa onda de calor em particular fez tudo explodir… As pessoas simplesmente não conseguem funcionar quando estão fervendo às 3 da manhã”, relatou.
Contudo, especialistas alertam para um paradoxo importante: o ar-condicionado oferece alívio imediato, mas tem um custo ambiental elevado, já que a maior parte da energia que o alimenta ainda vem de combustíveis fósseis. Para Radhika Khosla, professora associada da Escola Smith de Negócios e Meio Ambiente da Universidade de Oxford, esse uso intensivo alimenta “um ciclo vicioso de agravamento das mudanças climáticas” — já que mais emissões geram mais calor, que por sua vez gera mais demanda por refrigeração.
A própria Agência Internacional de Energia reconhece que essa transição é inevitável. Segundo Motherway, a forma como a Europa pensa sobre ar-condicionado vai mudar conforme o calor extremo — e seus impactos diretos sobre a saúde pública — se intensificar nos próximos anos.
O desafio, segundo ele, será garantir regulamentações rígidas sobre a eficiência energética dos novos sistemas vendidos no continente, já que cada equipamento comprado hoje trava o padrão de consumo de energia e emissões pelas próximas duas décadas. “Porque cada ar-condicionado vendido hoje trava o consumo de energia e as emissões pelos próximos dez ou vinte anos. Então é importante fazermos isso corretamente desde a primeira vez”, concluiu.
A informação foi divulgada originalmente pelo portal CNN International (edition.cnn.com) e replicada pela CNN Brasil em 24 de junho de 2026, no contexto das ondas de calor recordes registradas em diversas partes da Europa, incluindo Reino Unido, França e Espanha.
