Estudo revela convecção térmica no gelo da Groenlândia, fenômeno que pode alterar modelos de nível do mar e dinâmica da camada de gelo
Por mais de uma década, cientistas observaram estruturas incomuns nas profundezas da camada de gelo da Groenlândia sem conseguir explicá-las. Em 2026, um estudo publicado no periódico The Cryosphere por pesquisadores da Universidade de Bergen, NASA, Universidade de Oxford e ETH Zurique revelou que essas formações são causadas por convecção térmica no gelo, um fenômeno físico até então associado apenas a fluidos como magma e água.
As estruturas, detectadas por radar, se apresentam como colunas espiraladas que deformam camadas internas do gelo de forma inesperada. A descoberta redefine a compreensão científica sobre o comportamento interno das geleiras e pode impactar diretamente modelos climáticos e projeções de elevação do nível do mar.
Mistério científico na Groenlândia: plumas detectadas por radar desafiaram modelos por mais de 10 anos
As estruturas foram identificadas por meio da radioestratigrafia, técnica que utiliza radar para mapear camadas internas do gelo. Normalmente, essas camadas aparecem como linhas horizontais regulares, representando períodos de acumulação de neve ao longo dos anos.
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No entanto, em regiões profundas do norte da Groenlândia, essas linhas estavam distorcidas, formando padrões espiralados ascendentes. Esses “redemoinhos congelados” não eram previstos por modelos glaciológicos tradicionais.
O comportamento contradizia a ideia de que o gelo, por ser sólido, não poderia se mover de forma convectiva, levantando uma das maiores incógnitas recentes da ciência do clima.
Convecção térmica no gelo: mesma física que move magma e placas tectônicas
A equipe liderada pelo glaciologista Robert Law aplicou ao gelo a mesma matemática utilizada para modelar a convecção no manto terrestre.
A convecção térmica ocorre quando há diferença de temperatura entre regiões de um material. A parte mais quente e menos densa sobe, enquanto a mais fria desce, criando um ciclo contínuo.
Esse processo é responsável por:
- Movimento de placas tectônicas
- Formação de correntes no manto terrestre
- Ebulição da água
No caso da Groenlândia, o fenômeno ocorre com gelo sólido. Colunas de gelo mais quente sobem lentamente enquanto gelo mais frio desce ao redor, formando estruturas espiraladas internas.
Gelo profundo é até um milhão de vezes mais maleável que rocha
A descoberta só é possível porque o gelo profundo não se comporta como um sólido rígido convencional.
Sob altas pressões e temperaturas encontradas a quilômetros de profundidade, o gelo se torna altamente viscoso e deformável. Estudos indicam que ele pode ser até um milhão de vezes mais mole que o manto terrestre.
Segundo Robert Law, isso torna a convecção possível mesmo em um material sólido. O pesquisador Andreas Born comparou o fenômeno a uma panela de água fervendo, mas em câmera lenta e com gelo.
Nova descoberta mostra que gelo da Groenlândia é até 10 vezes mais mole que o previsto
Os resultados indicam que o gelo profundo pode ser cerca de dez vezes mais maleável do que os modelos anteriores consideravam.
Essa diferença altera diretamente a forma como o gelo flui internamente em direção ao oceano. A dinâmica de fluxo é um dos fatores mais críticos na previsão do aumento do nível do mar.
Isso significa que modelos climáticos podem precisar ser revisados, já que utilizavam parâmetros de rigidez incorretos.
Os pesquisadores destacam que gelo mais maleável não implica necessariamente em derretimento mais rápido. A convecção térmica afeta a deformação interna do gelo, não diretamente sua taxa de fusão na superfície.
No entanto, a descoberta reduz incertezas nos modelos climáticos, o que é fundamental para previsões mais precisas sobre mudanças ambientais futuras.
Modelo geodinâmico ASPECT confirma convecção térmica na Groenlândia
Para validar a hipótese, os cientistas utilizaram o modelo geodinâmico ASPECT, normalmente aplicado ao estudo do manto terrestre.
Os parâmetros foram ajustados para o gelo, incluindo:
- Temperatura
- Densidade
- Espessura
- Viscosidade
- Taxa de acumulação de neve
Os resultados mostraram que, em regiões específicas do norte da Groenlândia, todas as condições necessárias para convecção estavam presentes. Isso confirmou que o fenômeno observado por radar era resultado de convecção térmica real.
Radioestratigrafia revela deformações internas na camada de gelo da Groenlândia
A camada de gelo da Groenlândia possui mais de mil anos e pode ultrapassar 3 quilômetros de espessura.
Cada camada anual pode ser identificada por radar, funcionando como um registro climático histórico. Quando a convecção ocorre, essas camadas são distorcidas, criando padrões irregulares visíveis nos dados.
Essas deformações funcionam como evidência direta do movimento interno do gelo, semelhante a anéis de árvores alterados por forças internas.
Groenlândia pode elevar o nível do mar em até 7 metros
A camada de gelo da Groenlândia contém água suficiente para elevar o nível global dos oceanos em cerca de 7 metros caso derreta completamente.
Por isso, qualquer mudança no comportamento interno dessa massa de gelo tem implicações globais. A descoberta da convecção térmica pode melhorar significativamente as projeções climáticas, reduzindo incertezas sobre o futuro das regiões costeiras.
A origem da convecção está no calor vindo do interior da Terra. A Groenlândia passou sobre um ponto quente vulcânico ao longo de milhões de anos, criando uma distribuição irregular de calor geotérmico sob a camada de gelo.
Estudo publicado no PNAS em 2025 confirmou essa variação térmica, mostrando que algumas regiões da base do gelo são mais quentes que outras.
Essas diferenças criam o ambiente ideal para o surgimento da convecção térmica, funcionando como uma “fonte de calor” que alimenta o movimento interno.
Modelos antigos de gelo da Groenlândia ignoravam convecção interna
Antes desta descoberta, modelos glaciológicos tratavam o gelo profundo como material uniforme. A possibilidade de convecção térmica não era considerada, o que significa que as simulações podem ter subestimado ou superestimado o fluxo de gelo.
A inclusão dessa nova variável pode alterar significativamente projeções climáticas futuras, especialmente em cenários de longo prazo.
O artigo foi selecionado como destaque pelo periódico The Cryosphere, reconhecimento reservado a pesquisas de alto impacto científico. A colaboração envolveu instituições de três continentes, incluindo NASA e Universidade de Oxford.
A principal implicação é clara: o gelo não é apenas um sólido passivo, mas um sistema dinâmico que pode se comportar como um fluido em condições específicas.
Impacto humano e cultural da camada de gelo da Groenlândia
A Groenlândia abriga cerca de 56 mil habitantes, em sua maioria de origem inuíte, e a camada de gelo influencia diretamente o clima, a economia e a cultura local.
A nova descoberta não é apenas científica. Ela afeta diretamente a compreensão do ambiente em que essas populações vivem, com implicações para o futuro da região.
A descoberta da convecção térmica no gelo da Groenlândia representa uma mudança fundamental na ciência do clima. O fenômeno mostra que, mesmo em temperaturas extremamente baixas, a física da convecção continua atuando.
O gelo, sob certas condições, não é estático — é dinâmico, lento e em constante movimento interno, redefinindo o entendimento sobre uma das maiores massas de gelo do planeta.


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