Pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisa de Astronomia e Geofísica do Egito instalaram 37 sismômetros pela estrutura da Grande Pirâmide de Gizé e descobriram que a geometria simétrica, a base larga e cinco câmaras escondidas acima da Câmara do Rei combinam para dissipar a energia dos terremotos antes de chegar ao topo.
A Grande Pirâmide de Gizé, construída há cerca de 4.600 anos para o faraó Khufu, sobreviveu a milênios de movimentos sísmicos por uma razão que a engenharia moderna leva décadas para entender. Um estudo publicado na Scientific Reports, da Nature, mostrou agora exatamente como ela faz isso.

O paper saiu assinado pelos sismólogos Mohamed ElGabry e Asem Salama, ambos do NRIAG, o Instituto Nacional de Pesquisa de Astronomia e Geofísica do Egito, e foi referenciado pela Reuters em 21 de maio.
O método foi físico e direto. A equipe instalou 37 sismômetros em pontos distribuídos pela estrutura, desde o leito de calcário da base até a Câmara do Rei no interior, e mediu vibrações contínuas por meses.
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O que aparece nos dados é uma engenharia milenar pensada em escala. A base mede aproximadamente 230 metros de cada lado e cobre mais de 5 hectares de área, o equivalente a sete campos de futebol unidos lado a lado.
O centro de gravidade fica baixo. A massa diminui de forma gradual em direção ao topo. A geometria é simétrica em quatro lados. Tudo isso reduz o efeito da vibração que sobe pela estrutura quando o solo treme abaixo da pirâmide.
Mas o pulo do gato está dentro. Acima da Câmara do Rei existem cinco câmaras menores, lacradas, posicionadas em sequência vertical. Elas funcionam como amortecedores naturais.
Quando uma onda sísmica entra pela base e sobe pelo bloco de calcário, parte da energia se dispersa nessas câmaras vazias em vez de continuar pressionando o teto da Câmara do Rei e o granito polido em volta.
O topo balança. A base segura.
Os terremotos do Cairo em 1847 e 1992 que a pirâmide ignorou
A pesquisa cita dois eventos como prova prática. O Cairo registrou terremoto significativo em 1847 e outro em 1992, o segundo com centenas de mortos e milhares de edifícios atingidos na capital egípcia.
Nos dois casos, a Grande Pirâmide registrou danos mínimos. Os pesquisadores compararam o nível de estresse das estruturas modernas próximas com o das paredes internas da pirâmide e a diferença é gritante.
Para Asem Salama, autor sênior do estudo, a conclusão é uma só. Eles realmente construíram uma obra para a posteridade, disse o sismólogo na entrevista oficial publicada junto com o paper.

A engenharia moderna que projeta arranha-céus antissísmicos em Tóquio, em São Francisco ou em Santiago do Chile usa princípios parecidos, com sistemas de amortecedores de massa sintonizada e contraventamentos diagonais em aço.
A diferença é que os engenheiros do Antigo Império precisavam fazer isso sem cálculo modal, sem simulação por elementos finitos e sem nenhum dos instrumentos que a NRIAG instalou na pirâmide para testar. A intuição era a ferramenta.
Confesso que olho para essa pirâmide e penso no quanto a engenharia humana volta no tempo só para entender o que civilizações antigas já tinham resolvido por intuição estrutural. Quatro mil e seiscentos anos depois, continuamos atrás.
A Pirâmide de Quéops já apareceu por aqui em outra camada, quando uma câmara secreta lacrada há 4.500 anos foi encontrada a 30 metros de profundidade perto do topo, e o Vale dos Reis revelou outra tumba que desce 100 metros dentro da rocha.
A análise do NRIAG fecha um capítulo da fascinação técnica em torno do monumento. Falta ver o que a próxima medição revela sobre as outras pirâmides do complexo de Gizé e sobre tumbas similares espalhadas pelo deserto egípcio.
Fontes: Scientific Reports (Nature), Reuters, Olhar Digital.
Você acredita que os engenheiros de Khufu sabiam, há 4.600 anos, exatamente como dissipar a energia de um terremoto, ou foi tudo intuição estrutural e sorte?
