Venda de petróleo da Venezuela rende centenas de milhões de dólares aos EUA, mas recursos são mantidos em custódia no Catar, levantando questionamentos sobre transparência, sanções internacionais e uso do dinheiro.
A comercialização de petróleo da Venezuela voltou a ganhar destaque no cenário internacional. Desta vez, porém, não apenas pelo volume financeiro envolvido, mas sobretudo pelo destino dos recursos arrecadados.
Centenas de milhões de dólares obtidos com a venda do petróleo venezuelano pelos Estados Unidos estão sendo mantidos em custódia no Catar, segundo fontes familiarizadas com o processo. A estratégia, embora possa acelerar a entrada de recursos no país sul-americano, também desperta dúvidas sobre transparência e controle do dinheiro.
Esse caminho indireto surge em meio a um histórico de sanções severas, isolamento financeiro e disputas judiciais envolvendo ativos petrolíferos da Venezuela. Ao mesmo tempo, o fluxo de petróleo volta a gerar receitas significativas, algo raro nos últimos anos para a economia venezuelana.
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Primeiras vendas de petróleo arrecadam US$ 500 milhões
O governo do presidente Donald Trump confirmou na quarta-feira (14) a realização da primeira venda de petróleo venezuelano, que resultou em US$ 500 milhões. Esse valor, no entanto, representa apenas o início de uma sequência de operações que podem render bilhões de dólares nos próximos meses e, possivelmente, ao longo dos próximos anos.
De acordo com um ex-funcionário do governo dos EUA, os recursos não foram mantidos em bancos americanos nem enviados diretamente à Venezuela. Em vez disso, o dinheiro foi transferido para instituições financeiras no Catar, um movimento considerado estratégico para evitar entraves legais e disputas com credores internacionais.
Catar surge como peça-chave no fluxo do dinheiro do petróleo
O secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent, afirmou em entrevista à Newsmax que a receita da venda de petróleo começaria a entrar na Venezuela já na quinta-feira (15). Paralelamente, bancos venezuelanos passaram a anunciar a disponibilidade de dinheiro vivo, indicando que parte desses recursos já teria chegado ao país, segundo duas fontes com conhecimento do sistema financeiro local.
A escolha do Catar não é inédita. Especialistas apontam que o país do Oriente Médio tem atuado, há anos, como facilitador financeiro e diplomático entre Washington e governos sob sanções, incluindo a Venezuela e, anteriormente, o Irã.
Sanções, isolamento bancário e disputas por ativos petrolíferos
Durante anos, a Venezuela permaneceu praticamente isolada do sistema bancário internacional. Sanções impostas por governos ocidentais dificultaram transações financeiras, enquanto o governo venezuelano confiscou ativos de petróleo ao longo das últimas décadas. Como resultado, empresas estrangeiras do setor energético passaram a exigir indenizações bilionárias.
O próprio Donald Trump já afirmou que a Venezuela estaria “roubando” ativos petrolíferos americanos. Ainda assim, o presidente também defendeu que a receita obtida com o petróleo deve beneficiar diretamente a população venezuelana, impedindo que credores ou empresas com direitos sobre esses ativos tenham acesso aos valores arrecadados pelos EUA.
Ordem executiva bloqueia ações judiciais contra os recursos
Na sexta-feira (9), Trump assinou uma ordem executiva determinando que quaisquer tentativas de penhorar, bloquear ou reivindicar judicialmente esses fundos estariam proibidas. O documento afirma que tais ações poderiam “interferir substancialmente em nossos esforços cruciais para garantir a estabilidade econômica e política na Venezuela”.
Nesse contexto, manter o dinheiro do petróleo em uma conta no Catar, fora do alcance direto de credores ocidentais, tornou-se uma alternativa viável para atender aos objetivos do governo americano.
Destinação dos recursos prioriza áreas sensíveis da economia
Segundo Alejandro Grisanti, diretor fundador da consultoria Ecoanalítica, os bancos do Catar receberam instruções para leiloar os recursos a bancos venezuelanos. A prioridade, conforme explicado, será dada a alimentos, medicamentos e pequenas empresas. O dinheiro será recolhido pelo Banco Central da Venezuela e distribuído de acordo com exigências estabelecidas pelos Estados Unidos.

Bessent declarou ainda que a receita do petróleo será utilizada para financiar operações do governo venezuelano, além de reforçar a segurança e o fornecimento de alimentos.
Catar já teve papel semelhante em outros acordos internacionais
Especialistas ouvidos pela CNN destacam que bancos catarianos já desempenharam função intermediária durante o governo Biden. Naquele período, algumas receitas provenientes da venda de petróleo voltaram a fluir para o Irã durante uma fase de flexibilização das sanções, usando mecanismos financeiros semelhantes.
Um especialista em relações exteriores e Venezuela, que falou sob condição de anonimato, resumiu o desafio: “É um problema muito sério. A Venezuela deve dinheiro a todos”.
Preocupações crescem em torno da transparência dos fundos do petróleo
Apesar das garantias formais, a retenção do dinheiro no Catar levantou alertas entre analistas. Para alguns, a medida reduz a transparência sobre a movimentação dos recursos e dificulta a fiscalização direta por parte dos Estados Unidos.
“A menos que haja um plano público que defina a estrutura governamental para esse montante, quem terá o controle, quais serão os diversos controles anticorrupção e de combate à lavagem de dinheiro que serão implementados… isso está sendo configurado como uma espécie de fundo secreto”, disse o especialista que pediu anonimato. “É muito preocupante.”
Embora não haja indícios de uso indevido por parte do governo americano, analistas temem que autoridades venezuelanas utilizem os recursos do petróleo para manter estruturas de poder internas. Segundo o mesmo especialista, existe o risco de que a presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, direcione parte dos valores para setores corruptos do aparato estatal, incluindo grupos paramilitares e cartéis de drogas.
Críticas políticas questionam legalidade da operação
A decisão de enviar o dinheiro do petróleo ao Catar também gerou críticas no cenário político americano. A senadora democrata Elizabeth Warren foi uma das vozes mais contundentes ao comentar o caso.
“Não há qualquer fundamento legal para um presidente criar uma conta offshore que ele controle para vender bens apreendidos pelos militares americanos”, afirmou Warren em declaração à Semafor. “Essa é exatamente uma manobra que atrairia um político corrupto.”
Enquanto isso, a Casa Branca evitou comentar diretamente a escolha do Catar como destino inicial dos recursos antes da transferência à Venezuela, reforçando apenas que o país segue isolado do sistema bancário internacional e que os parâmetros legais ainda estão sendo revisados.

