Meta de Trump de reduzir o preço do petróleo para US$ 50 é considerada possível por analistas, mas envolve riscos à OPEP, produtores dos EUA e ao equilíbrio do mercado global de energia.
A meta do presidente Donald Trump de levar o preço do petróleo para a faixa de US$ 50 por barril voltou ao centro das discussões do mercado internacional de energia. Embora o objetivo seja reduzir o custo dos combustíveis para os consumidores americanos, analistas avaliam que o caminho até esse patamar pode gerar impactos relevantes para produtores, países exportadores e o equilíbrio da oferta global.
Antes mesmo de qualquer mudança concreta na produção da Venezuela, o petróleo já vinha operando em trajetória de queda. O contrato futuro de referência nos Estados Unidos era negociado abaixo de US$ 60 por barril e chegou a se estabilizar em torno de US$ 57,76, refletindo um cenário de excesso de oferta e crescimento moderado da demanda.
Nesse contexto, a meta defendida por Trump passou a ser vista como viável do ponto de vista técnico. No entanto, manter preços baixos de forma sustentada envolve variáveis complexas e interesses conflitantes no mercado de petróleo.
-
Petrobras estuda entrar no mercado de etanol de milho e mira virar gigante também dos biocombustíveis
-
Leilão de R$ 44 bilhões contrata novas usinas térmicas para garantir que não falte energia no horário de pico
-
Por que a gasolina não dispara: como o subsídio e a política de preços da Petrobras seguram o combustível no Brasil
-
SpaceX quer reduzir a dependência de comboios de caminhões para transportar combustível e planeja construir gasoduto de 13 km para acelerar lançamentos foguetes Starship nos Estados Unidos
Excesso de oferta já pressionava o mercado internacional
Segundo analistas do setor, o petróleo já se aproximava da faixa dos US$ 50 mesmo sem novas adições relevantes de produção. Dan Pickering, diretor de investimentos da Pickering Energy Partners, observa que a oferta vinha crescendo de forma consistente em países fora da OPEP, como Brasil, Guiana e Canadá.
Além disso, projeções da Administração de Informação de Energia dos Estados Unidos indicam que os estoques globais podem aumentar em mais de 2 milhões de barris por dia ao longo de 2026. Esse movimento reforça a percepção de que o mercado já estava desequilibrado antes de qualquer fator geopolítico adicional.
O Goldman Sachs, em estimativas divulgadas anteriormente, projetava que o petróleo de referência dos EUA poderia ter média próxima de US$ 52 por barril em 2026. O banco avalia que os preços poderiam cair ainda mais caso a produção venezuelana aumente cerca de 400 mil barris por dia.
Papel da Venezuela pode acelerar a queda dos preços
Embora responda por menos de 1% da produção global de petróleo, a Venezuela tem potencial para influenciar o mercado no curto prazo. Atualmente, o país produz cerca de 900 mil barris por dia. Um aumento relativamente modesto pode ter impacto significativo nos preços internacionais.
Segundo o Goldman Sachs, esse crescimento poderia ocorrer com medidas de curto prazo, como a ampliação da oferta de diluentes, a recuperação de poços, a reativação de refinarias danificadas e a flexibilização de sanções. Robert Auers, analista da RBN Energy, afirma que adicionar algumas centenas de milhares de barris por dia pode “reduzir os preços de forma significativa”.
Para efeito de comparação, 400 mil barris diários representam aproximadamente metade do crescimento esperado da demanda global em 2026, segundo a Agência Internacional de Energia.
OPEP e produtores dos EUA surgem como obstáculos
Apesar da viabilidade técnica, dois fatores podem dificultar a manutenção do petróleo na casa dos US$ 50. O primeiro é a reação da OPEP+. O grupo responde por cerca de metade da oferta global e depende de preços mais elevados para equilibrar seus orçamentos.
Gary Ross, CEO da Black Gold Investors, afirma que a Arábia Saudita não se sente confortável com preços do Brent próximos de US$ 50. De acordo com o Fundo Monetário Internacional, o preço de equilíbrio fiscal saudita supera US$ 86 por barril em 2026.
Embora a OPEP+ tenha mantido a produção estável até o fim de março, decisões futuras podem incluir cortes para sustentar os preços. Em outros momentos de crise, no entanto, o grupo também optou por aumentar a produção para defender participação de mercado.
O segundo obstáculo está nos produtores americanos. Empresas do Permiano já indicaram que preços persistentemente baixos podem levar à redução de investimentos. A Diamondback Energy afirmou que, caso o petróleo permaneça na faixa dos “US$ 50 baixos”, cortes de capital se tornam inevitáveis.
Dados do Federal Reserve Bank de Dallas mostram que muitos produtores consideram preços entre US$ 61 e US$ 62 por barril como o mínimo para viabilizar novos poços.
Gasolina mais barata pode não exigir petróleo a US$ 50
Apesar do foco no preço do barril, analistas destacam que a redução do custo da gasolina nos Estados Unidos não depende exclusivamente de um petróleo a US$ 50. Segundo Ross, da Black Gold Investors, o petróleo venezuelano, caso volte ao mercado americano, poderia aliviar gargalos específicos das refinarias do país.
As refinarias dos EUA são otimizadas para processar petróleo pesado, similar ao importado do México e do Canadá. Com a produção mexicana em declínio e parte do petróleo canadense sendo redirecionada após a expansão de oleodutos, o petróleo venezuelano poderia preencher essa lacuna.
Nesse cenário, preços levemente acima de US$ 50 poderiam representar um ponto de equilíbrio. Atenderiam à demanda política por combustíveis mais baratos, sem impor perdas excessivas aos grandes produtores de petróleo.
