Combustível sustentável feito com óleo de soja certificado avança no Brasil antes das metas obrigatórias da aviação, em uma operação que reúne Petrobras, Bunge e Vibra para testar uma cadeia nacional com refino, rastreabilidade agrícola e distribuição ao setor aéreo.
A Petrobras concluiu, em junho de 2026, a produção e a comercialização do primeiro lote de combustível sustentável de aviação feito com óleo de soja certificado no padrão CORSIA de baixo risco ILUC, em operação realizada na Refinaria Duque de Caxias, a Reduc, no Rio de Janeiro.
Com 3,8 mil metros cúbicos, o lote foi vendido à Vibra, responsável pela distribuição ao mercado de aviação por meio da BR Aviation, enquanto o óleo de soja usado no processo foi fornecido pela Bunge, segundo informações divulgadas pelas companhias envolvidas.
O combustível foi produzido por coprocessamento, técnica que permite inserir matéria-prima renovável na estrutura tradicional de refino, sem exigir a substituição imediata da infraestrutura já usada na produção e no abastecimento de querosene de aviação.
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Nesse lote, a composição tem 1% de conteúdo renovável, índice que, segundo a Petrobras, está alinhado às primeiras obrigações previstas pela Lei do Combustível do Futuro para a redução de emissões no transporte aéreo doméstico.
Combustível sustentável de aviação entra na rota das novas regras
Sancionada em 08 de outubro de 2024, a Lei nº 14.993 criou o Programa Nacional de Combustível Sustentável de Aviação, o ProBioQAV, e definiu metas para reduzir emissões em voos domésticos a partir de 2027.
Pelas regras divulgadas pelo governo federal, os operadores aéreos deverão reduzir as emissões de gases de efeito estufa em 1% a partir de 01 de janeiro de 2027, com avanço gradual até 10% em 2037.
Antes mesmo do início da obrigação compulsória, a iniciativa da Petrobras reforça a disputa para estruturar uma cadeia nacional de combustível sustentável de aviação, envolvendo produção industrial, fornecimento agrícola certificado e distribuição ao mercado aéreo.
No setor, o SAF é tratado como uma das alternativas para diminuir a intensidade de carbono das rotas aéreas, embora sua adoção ainda dependa de escala produtiva, oferta regular de matéria-prima e competitividade frente ao querosene convencional.

Apesar de o título destacar a soja, o lote não abandona totalmente a base fóssil, já que o produto comercializado tem 1% de conteúdo renovável e foi fabricado em uma rota que combina insumo renovável e refino tradicional.
Certificação CORSIA mira menor risco de desmatamento indireto
Segundo a Petrobras, este é o primeiro SAF de soja do mundo com certificação internacional CORSIA de baixo risco ILUC associado, um reconhecimento ligado à avaliação de impactos indiretos do uso da terra na cadeia de biocombustíveis.
A sigla ILUC se refere à mudança indireta do uso da terra, conceito usado para medir se a expansão de uma matéria-prima pode pressionar novas áreas, mesmo quando a produção certificada não ocorre sobre áreas desmatadas.
Com essa certificação, a matéria-prima usada no combustível atende a critérios de sustentabilidade e apresenta menor risco de estimular a abertura de novas áreas, conforme os parâmetros adotados para o reconhecimento internacional informado pela Petrobras.
De acordo com a estatal, o selo garante que o óleo de soja não vem de desmatamento nem incentiva indiretamente esse processo, ponto considerado central para validar a rota sustentável do combustível produzido na Reduc.
Bunge certifica soja e produz óleo em Mato Grosso
Na cadeia produtiva, coube à Bunge a originação e a certificação da soja, além da produção do óleo vegetal em sua unidade de esmagamento localizada em Rondonópolis, em Mato Grosso.
A empresa afirma ter comprovado ganhos de produtividade da soja brasileira para atender exigências internacionais de sustentabilidade, etapa necessária para sustentar a certificação usada no lote comercializado pela Petrobras.
Em declaração divulgada pelas empresas, a diretora de Soluções para Combustíveis Renováveis da Bunge na América do Sul, Christini Kubo, disse que dados da Conab mostram ganho de produtividade superior a 20% na soja brasileira ao longo da última década.
Para ela, a certificação comprova essa evolução “cumprindo os mais rígidos padrões internacionais de sustentabilidade”, ao associar a origem da matéria-prima a critérios verificáveis de produção e menor impacto sobre novas áreas.
Petrobras, Bunge e Vibra dividem etapas da cadeia do SAF
Dentro da operação, a Petrobras produziu o combustível na Reduc, a Bunge forneceu o óleo de soja certificado e a Vibra assumiu a distribuição ao setor aéreo por meio da BR Aviation.
Essa divisão mostra como a nova cadeia depende da articulação entre refino, origem agrícola rastreada e logística de abastecimento, três etapas decisivas para que o combustível sustentável de aviação avance no mercado brasileiro.
A diretora de Logística, Comercialização e Mercados da Petrobras, Angélica Laureano, afirmou que a venda do lote demonstra o compromisso da companhia com sustentabilidade e transição energética, além de estimular práticas verificáveis entre fornecedores.
Também em declaração divulgada pelas empresas, Laureano disse que a iniciativa reflete o propósito da companhia de incentivar a cadeia produtiva de fornecedores a adotar práticas sustentáveis passíveis de verificação.
Pelo lado da Vibra, o vice-presidente de Operações, Daniel Drumond, afirmou que a companhia abastece seis em cada dez voos no país e tem papel estratégico na preparação do mercado para o SAF.
Na avaliação do executivo, o projeto reforça a oferta de ferramentas necessárias à transição energética do setor aéreo, ao mesmo tempo em que ajuda a desenvolver uma cadeia nacional sustentável para o combustível de aviação.
Redução de emissões e desafios para ganhar escala
As empresas afirmam que o produto tem potencial de reduzir em cerca de 70% as emissões de gases de efeito estufa na comparação com o querosene de aviação tradicional, considerando metodologia de análise de ciclo de vida.
Esse tipo de comparação considera diferentes etapas da cadeia produtiva, e não apenas a queima do combustível no motor, o que permite avaliar o impacto ambiental desde a origem da matéria-prima até o uso final.
Para a Petrobras, o movimento também amplia o portfólio de matérias-primas certificadas disponíveis para a produção de SAF, ao incorporar óleo de soja com rastreabilidade e certificação reconhecida internacionalmente.
O uso do coprocessamento na Reduc, segundo a estatal, aumenta a flexibilidade industrial e permite ofertar combustíveis com menor intensidade de carbono ao mercado de aviação, sem romper imediatamente com a estrutura atual de refino.
Em meio à preparação de empresas aéreas, distribuidoras e produtores de energia para metas ambientais mais rígidas, a consolidação dessa cadeia ainda depende de escala, certificação de matérias-primas, logística eficiente e competitividade econômica diante do querosene convencional.


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