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Pesquisadores mostram que pessoas em sono REM conseguem perceber comandos externos e até responder perguntas e isso obriga neurocientistas a rever o que sabem sobre sonhos lúcidos

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Escrito por Valdemar Medeiros Publicado em 15/01/2026 às 21:50
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Pesquisas mostram comunicação durante o sono REM em pessoas com sonho lúcido, desafiando teorias sobre consciência e processamento sensorial.

Pouca gente imagina que o cérebro humano, enquanto sonha, possa não apenas construir narrativas internas, mas também interagir com o mundo externo. Por décadas, o sono REM foi descrito como um estado de desconexão sensorial, dominado por atividade cerebral intensa e paralisia muscular. Só que experimentos recentes conduzidos por equipes nos Estados Unidos, Alemanha, França e Países Baixos mostraram algo surpreendente: pessoas em estado de sonho lúcido podem perceber perguntas feitas do lado de fora, interpretar comandos simples e até responder em tempo real usando movimentos oculares e contrações musculares faciais.

Embora pareça ficção científica, esse fenômeno foi documentado com protocolos controlados, eletroencefalograma (EEG) e métodos de verificação cruzada. O resultado desafia o consenso tradicional sobre a impermeabilidade sensorial do REM e abre espaço para novas hipóteses sobre a consciência em estados alterados, além de aplicações científicas e clínicas.

O que é o sono REM e por que ele sempre foi considerado “desconectado”?

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Para entender o impacto da descoberta, é preciso situar o sono REM no mapa neurofisiológico. O ciclo do sono humano é dividido em fases NREM (N1, N2, N3) e REM. Durante o sono REM (Rapid Eye Movement):

  • ocorrem sonhos mais vívidos e narrativos,
  • há aumento da atividade cortical,
  • a respiração se torna irregular,
  • o corpo entra em atonia muscular,
  • os olhos fazem movimentos rápidos sob as pálpebras.

Desde os anos 1960, pesquisas mostraram que durante o REM o cérebro responde a alguns sons, mas sem integração consciente. A visão predominante era que o REM funcionava como um “mundo fechado”, onde a experiência sensorial interna predominava e a percepção externa era minimizada.

A exceção seria o sonho lúcido, um estado em que parte da consciência desperta se mistura à narrativa do sonho. Até pouquíssimo tempo, porém, os dados sobre interação bidirecional eram raros e controversos.

Experimentos internacionais mostram comunicação em tempo real

O ponto de virada veio quando grupos de pesquisa em quatro países coordenaram experimentos usando sonhadores lúcidos como ponte para comunicação. Os voluntários treinados em lucidez foram conectados a EEG, eletromiografia (EMG) e monitoramento de movimentos oculares.

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A tarefa era simples: ao perceber que estavam sonhando, eles deveriam confirmar lucidez com sequências de movimentos oculares previamente combinadas, como “olhar duas vezes para a esquerda e duas para a direita”.

Depois disso, os pesquisadores apresentavam estímulos auditivos, como perguntas simples ou comandos matemáticos. Exemplos reais incluem:

  • “2 + 1?”
  • “6 – 2?”
  • “Sim ou não?”
  • “Olhe para a esquerda se sim”

O inesperado foi que, durante o REM, alguns participantes responderam corretamente usando movimentos oculares ou contrações musculares faciais detectadas pelos aparelhos. Essas respostas eram consistentes e significativamente acima do acaso.

O resultado mais importante não foi o desempenho matemático, mas o fato de que houve comunicação, indicando que o cérebro em REM:

  • recebe estímulo externo,
  • interpreta cognitivamente, e
  • executa uma resposta voluntária,
    tudo isso sem acordar.

O que isso muda na visão neurocientífica do sono?

A neurociência tradicional descrevia o sonho como um estado fenomenológico interno, isolado da percepção sensorial. A comunicação em tempo real desafia essa fronteira. A partir desses achados, alguns pontos entram em debate:

  • a permeabilidade sensorial do REM pode ser maior do que se acreditava,
  • parte das redes responsáveis por atenção e cálculo permanecem funcionais,
  • consciência pode existir em um contínuum entre vigília e sonho,
  • o cérebro pode alternar rapidamente entre modo “interno” e modo “externo”.

A descoberta também fortalece a hipótese de que o estado lúcido é um híbrido neurofisiológico, coexistindo com atonia muscular e narrativa onírica. Isso não significa que todo REM seja lúcido nem que todo sonho permita comunicação. O experimento dependeu de treinamento e protocolos específicos.

Como o cérebro recebe estímulos durante o sonho?

Um dos aspectos mais complexos da pesquisa envolve o trajeto sensorial. Mesmo em sono profundo, o ouvido continua captando vibrações. A diferença está no nível de processamento central. Nos experimentos, parece que o estímulo auditivo consegue atingir áreas corticais suficientes para ativar circuitos cognitivos básicos.

Ainda não há consenso sobre como isso acontece, mas hipóteses incluem:

  • reativação parcial de redes atencionais,
  • preservação de canais talâmicos sensoriais,
  • modulação de dopamina e acetilcolina durante o REM.

A neurociência do sono já sabia que sons externos podem influenciar o conteúdo dos sonhos (um alarme pode virar sirene dentro do sonho), mas não havia evidência robusta de resposta consciente dirigida.

Agora existe.

Possíveis aplicações científicas e clínicas

O interesse não é apenas filosófico. Se consolidada, a comunicação com sonhadores lúcidos pode gerar aplicações em três grandes áreas:

Pesquisa da consciência
Estudar como a mente constrói realidades internas e externas em paralelo.

Terapia de pesadelos recorrentes
Sonho lúcido já é usado experimentalmente para modular enredos oníricos e reduzir sofrimento em pacientes com transtornos do sono.

Neuroreabilitação e interface cérebro–máquina
No futuro, pode ser possível acessar estados cognitivos sem acordar o paciente, algo potencialmente útil em quadros neurológicos.

Tudo isso ainda é especulativo, e os próprios pesquisadores destacam que mais estudos são necessários.

Limites, controvérsias e o que ainda não sabemos

Apesar da empolgação, há importantes ressalvas:

  • A taxa de resposta correta foi baixa — não houve comunicação fluida.
  • A técnica exige sonhadores lúcidos, que são minoria.
  • Não sabemos se o fenômeno ocorre sem lucidez.
  • Não sabemos se tarefas mais complexas são possíveis.
  • A replicação ainda está em andamento em outros laboratórios.

Ou seja: ninguém está “conversando com pessoas adormecidas” de forma contínua. O avanço está na prova de conceito.

Além disso, não existe consenso sobre como treinar lucidez, e parte da população não consegue atingir o estado facilmente. As pesquisas são recentes e passam por revisão constante.

O que significa estar consciente?

A descoberta abre um debate filosófico e científico: a consciência é binária ou graduada?

Se o cérebro dorme, sonha e responde ao mundo ao mesmo tempo, talvez seja necessário abandonar a ideia rígida de que vigília e sonho são estados opostos. Na prática, podem ser posições diferentes em um espectro.

A pergunta que fica é simples e profunda: se conseguimos acessar alguém durante um sonho e receber uma resposta, onde termina o sonho e começa a consciência?

Esse debate está só começando e o sono, que parecia um território fechado, acaba de ganhar janelas inesperadas.

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Valdemar Medeiros

Formado em Jornalismo e Marketing, é autor de mais de 20 mil artigos que já alcançaram milhões de leitores no Brasil e no exterior. Já escreveu para marcas e veículos como 99, Natura, O Boticário, CPG – Click Petróleo e Gás, Agência Raccon e outros. Especialista em Indústria Automotiva, Tecnologia, Carreiras (empregabilidade e cursos), Economia e outros temas. Contato e sugestões de pauta: valdemarmedeiros4@gmail.com. Não aceitamos currículos!

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