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Pesquisadores recuperam sedimentos do Mediterrâneo e revelam uma catástrofe geológica esquecida: há 5,96 milhões de anos, o mar secou, virou um deserto de sal por 630 mil anos e voltou a ser inundado pelo Atlântico em um evento que ainda desafia a ciência

Escrito por Valdemar Medeiros
Publicado em 28/04/2026 às 13:19
Atualizado em 28/04/2026 às 13:30
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Perfuração do Glomar Challenger revelou sal e gipsita no fundo do Mediterrâneo e expôs o debate sobre o mar que quase secou.
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Perfuração do Glomar Challenger revelou sal e gipsita no fundo do Mediterrâneo e expôs o debate sobre o mar que quase secou.

Segundo a Knowable Magazine, em reportagem publicada em 9 de fevereiro de 2026, o navio de perfuração científica Glomar Challenger retornou ao porto de Lisboa, em Portugal, em 6 de outubro de 1970, carregando núcleos de sedimentos que mudariam a interpretação moderna sobre a história geológica do Mar Mediterrâneo.

Durante uma expedição de 54 dias, o navio perfurou 28 pontos no fundo do mar como parte da Leg 13 do Deep Sea Drilling Program, e os materiais extraídos indicavam uma conclusão extrema: há cerca de 6 milhões de anos, o Mediterrâneo passou por uma crise de salinidade capaz de transformá-lo em uma imensa bacia hipersalina, parcialmente ressecada e coberta por depósitos de sal.

Como o Glomar Challenger encontrou gipsita, sal e cascalho no fundo do Mediterrâneo

No primeiro local de perfuração, a broca do Glomar Challenger travou em uma camada extremamente dura cerca de 200 metros abaixo do fundo do mar. No dia seguinte, os dois cientistas-chefes da expedição, Kenneth Hsü, do ETH Zürich, e William Ryan, do Lamont-Doherty Earth Observatory, entenderam o motivo: a broca havia trazido à superfície baldes de cascalho.

Esse detalhe chamou atenção imediatamente porque fundos oceânicos profundos não costumam apresentar leitos de cascalho como aqueles, especialmente misturados a fósseis marinhos e cristais de gipsita.

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A gipsita é classificada pelos geólogos como uma evaporita, isto é, uma rocha associada à precipitação mineral em ambientes de forte evaporação. No mundo atual, esse tipo de formação aparece em corpos d’água rasos e altamente concentrados em sais, como o Mar Morto.

Por isso, encontrar gipsita associada a fósseis marinhos em sedimentos profundos do Mediterrâneo era um sinal geológico difícil de ignorar. Àquela profundidade, a presença desse material sugeria que o mar havia passado por uma fase de isolamento, concentração salina extrema e queda severa do nível da água.

A expedição repetiu o padrão em diferentes pontos do Mediterrâneo. Hsü, Ryan e a equipe encontraram evaporitas como gipsita, halita, anidrita e outros sais associados à evaporação intensa da água do mar. O próprio relatório do Deep Sea Drilling Project registrou a descoberta de uma formação evaporítica disseminada sob os pisos das bacias profundas perfuradas, um achado que reforçou a dimensão regional do fenômeno e retirou a crise de salinidade do campo das hipóteses locais.

A lógica hidrológica que transforma o Mediterrâneo em uma bacia vulnerável à evaporação

A lógica hidrológica do Mediterrâneo é simples e brutal. O mar perde mais água por evaporação do que recebe por chuva e rios. Esse déficit é compensado pela entrada de água do Oceano Atlântico pelo Estreito de Gibraltar. Sem essa reposição, o nível da água cairia rapidamente, e a salinidade aumentaria até atingir condições extremas para a vida marinha comum.

A própria Knowable Magazine explica que, no Mediterrâneo atual, a perda anual por evaporação é muito maior do que a água recuperada por precipitação e rios, e que o Atlântico mantém o equilíbrio por meio do fluxo constante através de Gibraltar.

Pesquisadores recuperam sedimentos do Mediterrâneo e revelam uma catástrofe geológica esquecida: há 5,96 milhões de anos, o mar secou, virou um deserto de sal por 630 mil anos e voltou a ser inundado pelo Atlântico em um evento que ainda desafia a ciência
Perfuração do Glomar Challenger

Nos cálculos clássicos usados pela equipe do Deep Sea Drilling Project, o Mediterrâneo, sem o Mar Negro, tem área aproximada de 2,5 milhões de quilômetros quadrados e volume de cerca de 3,7 milhões de quilômetros cúbicos. O mesmo relatório calculava uma perda evaporativa líquida de aproximadamente 3.310 quilômetros cúbicos por ano, compensada pela entrada atlântica. Isso explica por que o fechamento ou estreitamento severo da ligação com o Atlântico teria consequências rápidas na escala geológica.

Durante décadas, a interpretação mais dramática sustentou que, se o Estreito de Gibraltar fosse fechado, o Mediterrâneo poderia secar em pouco mais de mil anos. Pesquisas mais recentes, porém, ajustaram essa imagem.

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Um estudo divulgado pelo CNRS em 18 de novembro de 2024, com base em isótopos de cloro em sais extraídos do fundo do Mediterrâneo, indica que a crise ocorreu em duas fases: uma primeira etapa de cerca de 35 mil anos, concentrada no Mediterrâneo oriental, e uma segunda fase de rebaixamento rápido, inferior a 10 mil anos, durante a qual o nível caiu entre 1,7 e 2,1 quilômetros no leste e cerca de 0,85 quilômetro no oeste, com perda de até 70% do volume de água da bacia.

Crise de Salinidade Messiniana começou há 5,96 milhões de anos e criou um gigante de sal sob o mar

O evento é conhecido como Crise de Salinidade Messiniana. Ele ocorreu entre aproximadamente 5,97 e 5,33 milhões de anos atrás, no fim do Mioceno, quando a conexão entre o Mediterrâneo e o Atlântico foi drasticamente restringida. A interpretação predominante associa o fenômeno à interação entre tectônica, variações do nível do mar e clima regional seco, em um contexto no qual a colisão entre as placas africana e euroasiática modificava as passagens marinhas da região.

O resultado foi a formação do chamado Mediterranean Salt Giant, ou gigante de sal mediterrânico. Essa camada subterrânea, descoberta em perfurações científicas no início da década de 1970, é descrita por pesquisadores como uma formação de espessura quilométrica sob o fundo do Mediterrâneo. O projeto científico SaltGiant afirma que o depósito pode ultrapassar 3 quilômetros de espessura nas bacias profundas e contém mais de 1 milhão de quilômetros cúbicos de sais evaporíticos, principalmente halita e gipsita.

A escala do depósito mostra que o fenômeno não foi um simples episódio local de salinização. A Knowable Magazine observa que o sal acumulado no Mediterrâneo representa cerca de 5% do sal dos oceanos do mundo, podendo ter correspondido originalmente a uma proporção entre 7% e 10% antes de processos posteriores de dissolução, deformação e soterramento. Em termos geológicos, isso significa que uma bacia marinha inteira funcionou como uma fábrica natural de sal em escala continental.

O fundo do Mediterrâneo seco poderia ter ficado quilômetros abaixo do nível do oceano global

Imaginar o Mediterrâneo quase seco exige abandonar a geografia atual. O que hoje aparece como mar contínuo entre Europa, Norte da África e Oriente Médio pode ter se tornado, em fases extremas, uma depressão colossal, com salmouras isoladas, planícies de sal e encostas continentais expostas.

Em alguns modelos clássicos, o fundo das bacias mais profundas teria ficado entre 2 e 4 quilômetros abaixo do nível global do oceano, criando uma paisagem sem equivalente direto no mundo moderno.

Essa imagem, porém, precisa ser tratada com precisão. A ciência atual ainda debate o grau exato de dessecação. Alguns modelos defendem uma queda quase total do nível da água, enquanto outros sustentam que partes profundas da bacia podem ter permanecido cobertas por salmouras densas e hipersalinas.

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A revisão publicada pela Annual Reviews em 2025 resume justamente essa disputa: a hipótese de uma queda extrema e de um reenchimento catastrófico se tornou muito influente, mas estudos recentes sugerem que a conexão Atlântico-Mediterrâneo pode ter permanecido ativa em certos momentos e que processos mais graduais também precisam ser considerados.

Ainda assim, mesmo os cenários menos extremos continuam apontando para um ambiente geológico extraordinário. Um Mediterrâneo com perda de até 70% de seu volume, queda de mais de 1 quilômetro em parte da bacia e deposição de sais em escala quilométrica já seria suficiente para remodelar rios, margens continentais, ecossistemas marinhos e circulação regional.

A questão central hoje não é se houve crise, mas exatamente como ela ocorreu, em que ritmo e com qual profundidade real de rebaixamento.

A crise não foi um único colapso simples, mas uma sequência de fases de sal, gipsita e salmouras

A Crise de Salinidade Messiniana durou cerca de 630 mil anos, mas não se comportou como um evento linear. Pesquisas recentes indicam uma sequência de fases, com deposição de gipsita, concentração salina, precipitação de halita, possíveis reconexões parciais com o Atlântico e influxos de água doce ou salobra vindos de sistemas continentais. É por isso que muitos geólogos tratam o evento como uma crise dinâmica, e não como um simples “mar que secou de uma vez”.

A fase conhecida como Lago Mare é uma das mais intrigantes. Ela marca o estágio final da crise, quando o Mediterrâneo parece ter recebido água menos salgada, possivelmente ligada ao sistema da antiga Paratétis, um imenso conjunto de mares e lagos que ocupava partes da Europa Oriental e da Ásia.

A Knowable Magazine afirma que pesquisas recentes sugerem justamente essa possibilidade: o Mediterrâneo pode ter sido parcialmente recarregado por água doce ou salobra vinda do leste, enquanto oscilações globais do nível do mar também interferiam na configuração da bacia.

Essa alternância ajuda a explicar por que as camadas de evaporitas aparecem associadas a sinais de diferentes ambientes. Em alguns locais, há minerais típicos de salmouras concentradas. Em outros, há fósseis compatíveis com águas menos salinas.

A própria escala do depósito de sal exige múltiplas entradas de água ou longos períodos de circulação restrita, porque uma única evaporação completa do volume atual do Mediterrâneo não seria suficiente para produzir toda a massa salina observada.

O Dilúvio de Zanclean virou uma das hipóteses geológicas mais famosas do planeta

O fim da Crise de Salinidade Messiniana é tradicionalmente associado ao chamado Dilúvio de Zanclean, ocorrido há cerca de 5,33 milhões de anos, quando o Atlântico teria voltado a invadir o Mediterrâneo pela região do atual Estreito de Gibraltar. Na versão clássica, a água teria erodido progressivamente a barreira rochosa até abrir uma passagem crescente, produzindo uma inundação de escala planetária em termos de vazão.

Essa hipótese ganhou força porque oferece uma imagem poderosa: o Atlântico entrando em uma bacia rebaixada, acelerando a erosão, ampliando o canal e enchendo o Mediterrâneo em um intervalo geologicamente curtíssimo.

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Modelos publicados em 2009 chegaram a sugerir que grande parte do reenchimento poderia ter ocorrido em poucos meses ou poucos anos, com vazões de pico muito superiores às dos maiores rios modernos.

A Universidade de Southampton, ao divulgar um estudo em 21 de janeiro de 2025, afirmou que novas evidências no sudeste da Sicília apontavam para um megaflood associado ao fim da crise.

Durante décadas, essa narrativa dominou o imaginário científico e popular. Kenneth Hsü chegou a descrever a cena como uma gigantesca queda d’água em Gibraltar, e a ideia foi difundida em documentários e materiais de divulgação. O problema é que, quanto mais dados geológicos foram acumulados, mais complexa ficou a história.

Novas pesquisas questionam se o megadilúvio de Gibraltar aconteceu como a versão clássica descreve

A reportagem da Knowable Magazine de 2026 destaca justamente o ponto mais sensível do debate: o megadilúvio pode não ter ocorrido da forma catastrófica, simples e cinematográfica que se popularizou ao longo de meio século. O texto reúne dúvidas recentes sobre a magnitude da dessecação, a continuidade ou não da conexão com o Atlântico e o papel de águas vindas da antiga Paratétis no estágio final da crise.

Isso não significa que o Mediterrâneo não tenha passado por uma inundação importante no fim da crise. Também não significa que o Estreito de Gibraltar não tenha desempenhado papel central.

O ponto é mais técnico: a hipótese de uma única enxurrada final, rápida e dominante, disputa espaço com cenários em que o reenchimento teria sido mais gradual, em fases, ou combinado com oscilações do nível do mar e entradas de água por diferentes rotas.

A revisão publicada pela Annual Reviews em 2025 resume esse impasse ao afirmar que a hipótese do megaflood é bem estabelecida e muitas vezes tratada como fato, mas que vários estudos sugerem a possibilidade de uma conexão Atlântico-Mediterrâneo ativa antes e durante a crise, o que abriria espaço para processos mais longos e menos catastróficos na evolução do Estreito de Gibraltar.

O gigante de sal também provocou uma crise ecológica profunda no Mediterrâneo antigo

A Crise de Salinidade Messiniana não foi apenas um fenômeno mineral. Ela também alterou profundamente a biodiversidade marinha do Mediterrâneo. Um estudo internacional publicado na revista Science, com participação do ICM-CSIC e liderado por Konstantina Agiadi, da Universidade de Viena, analisou fósseis datados entre 12 milhões e 3,6 milhões de anos e quantificou o impacto biológico da crise.

Segundo a divulgação do ICM-CSIC, apenas 11% das espécies endêmicas sobreviveram, e a biodiversidade levou pelo menos 1,7 milhão de anos para se recuperar.

Esse dado reforça a dimensão ambiental do evento. Ao separar o Mediterrâneo do Atlântico e transformar a bacia em um ambiente de salinidade extrema, a crise eliminou grande parte da fauna marinha local. Depois da reconexão com o Atlântico, novas espécies entraram, e o Mediterrâneo passou a desenvolver outro padrão de biodiversidade, com diferenças entre oeste e leste que ainda aparecem no mar atual.

Em outras palavras, o Mediterrâneo moderno não é apenas o mar que voltou a ocupar uma bacia antiga. Ele é também o resultado de uma reconstrução ecológica posterior a uma das maiores perturbações ambientais da história recente da Terra geológica.

O Mediterrâneo pode voltar a fechar no futuro geológico?

A pergunta mais inquietante é se algo parecido poderia acontecer novamente. Em escala humana, não há indicação de que o Mediterrâneo esteja prestes a secar. Em escala geológica, porém, a resposta é diferente.

A região do Mediterrâneo continua sendo uma zona tectonicamente ativa, marcada pela convergência entre a África e a Eurásia. Em milhões de anos, mudanças na configuração das placas podem voltar a restringir ou fechar a comunicação com o Atlântico.

Isso não significa uma ameaça prática para as cidades atuais em prazos históricos. A geologia opera em escalas de tempo muito maiores do que governos, portos, civilizações e infraestrutura costeira. Ainda assim, o registro deixado pelo Glomar Challenger mostra que mares aparentemente permanentes podem desaparecer ou mudar radicalmente quando tectônica, clima e circulação oceânica se combinam.

O que o navio trouxe à superfície em outubro de 1970 não era apenas cascalho, gipsita e sal. Era a prova física de que o Mediterrâneo, hoje associado a rotas comerciais, cidades costeiras, turismo, biodiversidade e história humana, já foi uma bacia extrema, profundamente rebaixada, dominada por salmouras e depósitos minerais. O mar que ajudou a moldar civilizações também guarda, sob o fundo oceânico, a memória de um tempo em que quase deixou de ser mar.

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Valdemar Medeiros

Formado em Jornalismo e Marketing, é autor de mais de 20 mil artigos que já alcançaram milhões de leitores no Brasil e no exterior. Já escreveu para marcas e veículos como 99, Natura, O Boticário, CPG – Click Petróleo e Gás, Agência Raccon e outros. Especialista em Indústria Automotiva, Tecnologia, Carreiras (empregabilidade e cursos), Economia e outros temas. Contato e sugestões de pauta: valdemarmedeiros4@gmail.com. Não aceitamos currículos!

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