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Pesquisadores desenvolvem “nariz eletrônico” para identificar comida estragada e até vestígios de alergênicos

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Escrito por Andriely Medeiros de Araújo Publicado em 30/06/2026 às 15:15 Atualizado em 30/06/2026 às 15:17
Nariz eletrônico para alimentos criado em Berkeley usa 16 sensores e inteligência artificial para detectar deterioração e substâncias alergênicas.
Nariz eletrônico para alimentos criado em Berkeley usa 16 sensores e inteligência artificial para detectar deterioração e substâncias alergênicas. Fonte: Brandon Sánchez-Mejia/UC Berkeley.
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Nariz eletrônico para alimentos criado em Berkeley usa 16 sensores e inteligência artificial para detectar deterioração e substâncias alergênicas.

Pesquisadores da Universidade da Califórnia em Berkeley desenvolveram um nariz eletrônico capaz de reconhecer gases emitidos por produtos em deterioração e identificar pequenas quantidades de substâncias ligadas a alergias alimentares.

Apresentado em um estudo publicado pela revista científica Science Advances em 17 de junho de 2026, o dispositivo utiliza 16 sensores químicos e modelos de aprendizado de máquina para interpretar diferentes padrões de odor.

A tecnologia foi testada com frutas, leite, ovos, frango cru, nozes, amêndoas e amendoim. Além de distinguir produtos frescos, o sistema conseguiu reconhecer alimentos mantidos em temperatura ambiente durante 24 ou 48 horas, indicando diferentes etapas do processo de deterioração.

O projeto ainda está em fase experimental, mas já possui uma versão portátil conectada a um aplicativo de celular. Entre as possíveis aplicações estão refrigeradores capazes de avisar quando um alimento começa a estragar e equipamentos voltados à proteção de pessoas com alergias.

Sistema interpreta uma combinação de gases

O aparelho não tenta identificar os alimentos por meio de um único componente químico. Seu funcionamento depende da leitura simultânea de diferentes moléculas liberadas no ar.

A matriz reúne 16 sensores, cada um preparado para reagir a determinadas combinações de gases. Quando essas moléculas entram em contato com os materiais do dispositivo, provocam alterações transformadas em sinais elétricos.

Isoladamente, esses sinais podem não revelar com clareza qual alimento está sendo analisado. Por isso, a equipe de Berkeley recorreu ao aprendizado de máquina para comparar as respostas dos sensores e encontrar padrões característicos.

O método se aproxima da maneira como o olfato reconhece cheiros a partir de várias informações recebidas ao mesmo tempo. A diferença é que o nariz eletrônico converte essas respostas químicas em dados processados por modelos computacionais.

Inteligência artificial aprendeu sinais de deterioração

Para treinar o sistema, os pesquisadores expuseram os sensores a alimentos em diferentes condições. Leite, ovos e frango cru foram incluídos nos experimentos, assim como frutas e oleaginosas. As amostras foram avaliadas frescas e depois de permanecerem fora de refrigeração durante períodos determinados.

Ao comparar os sinais, os modelos aprenderam a diferenciar um produto recém-analisado de outro mantido em temperatura ambiente por 24 ou 48 horas. Essa capacidade pode permitir que futuros equipamentos detectem alterações antes que o consumidor perceba sinais evidentes de deterioração.

Nariz eletrônico para alimentos criado em Berkeley usa 16 sensores e inteligência artificial para detectar deterioração e substâncias alergênicas.
Carla Bassil, doutoranda do quarto ano em Engenharia Elétrica e Ciência da Computação na UC Berkeley e integrante do Javey Research Group, liderou o estudo responsável pelo desenvolvimento do inovador nariz eletrônico. Foto: Brandon Sánchez-Mejia/UC Berkeley.

Em um refrigerador inteligente, por exemplo, a tecnologia poderia acompanhar carnes, vegetais e laticínios e emitir alertas quando os gases liberados indicassem perda de qualidade.

Sensor encontrou quantidade mínima de noz

Os testes também avaliaram a sensibilidade do equipamento diante de alimentos associados a reações alérgicas. Segundo os resultados divulgados no estudo da Science Advances, o dispositivo conseguiu detectar uma quantidade de noz equivalente a aproximadamente um centésimo de uma unidade comum.

O sistema também recebeu treinamento para reconhecer compostos relacionados ao amendoim e a outras oleaginosas, como a amêndoa.

A precisão abre uma possível aplicação voltada a pessoas que precisam evitar contato com ingredientes específicos. Um equipamento portátil poderia auxiliar na análise de ambientes ou produtos, embora o dispositivo ainda dependa de novos testes antes de uma utilização cotidiana.

Nanotubos permitem operação sem aquecimento

A equipe substituiu materiais frequentemente empregados em sensores de gás por nanotubos de carbono.

Esses nanotubos funcionam como elementos condutores e permitiram que o aparelho operasse em temperatura ambiente. A escolha também aumentou a sensibilidade às moléculas presentes nas amostras.

Sensores baseados em óxidos metálicos costumam exigir aquecimento durante o funcionamento. A arquitetura criada em Berkeley elimina essa necessidade e permite incorporar materiais que poderiam perder suas propriedades sob temperaturas elevadas.

A fabricação dos filmes sensíveis foi realizada em uma única etapa de deposição. Segundo o projeto, essa abordagem simplifica a produção da matriz e facilita a combinação de diferentes materiais no mesmo dispositivo.

Nariz eletrônico já ganhou versão portátil

Além do equipamento utilizado nos testes laboratoriais, os pesquisadores desenvolveram um protótipo portátil integrado a um aplicativo de celular.

Nariz eletrônico para alimentos criado em Berkeley usa 16 sensores e inteligência artificial para detectar deterioração e substâncias alergênicas.
Nariz eletrônico para alimentos criado em Berkeley usa 16 sensores e inteligência artificial para detectar deterioração e substâncias alergênicas. Fonte: Brandon Sánchez-Mejia/UC Berkeley.

Essa configuração amplia as possibilidades de aplicação fora dos laboratórios. Em vez de depender de uma estrutura fixa, o usuário poderia aproximar o dispositivo do alimento e acompanhar a interpretação pelo smartphone.

O formato também pode interessar a empresas que trabalham com armazenamento, transporte e controle de qualidade de produtos alimentícios.

Em ambientes industriais, sensores desse tipo poderiam atuar no acompanhamento de estoques e na identificação antecipada de alterações que comprometam a segurança ou a conservação das mercadorias.

Mistura de odores ainda representa desafio

Apesar do desempenho apresentado, os próprios pesquisadores reconhecem que o aparelho ainda precisa ser avaliado em situações mais próximas da rotina doméstica.

Os experimentos não incluíram ambientes com grande variedade de gases misturados. Uma cozinha ou geladeira pode armazenar diversos produtos ao mesmo tempo, cada um liberando suas próprias moléculas.

Essa sobreposição pode dificultar a separação dos padrões e reduzir a precisão do nariz eletrônico.

Os próximos avanços dependerão da capacidade de o sistema distinguir o odor de um alimento específico em meio a sinais produzidos por carnes, vegetais, frutas, bebidas e recipientes armazenados no mesmo espaço.

Pesquisa reúne engenharia, sensores e computação

O trabalho foi conduzido por integrantes das áreas de engenharia elétrica e ciência da computação da Universidade da Califórnia em Berkeley.

A pesquisa foi liderada por uma doutoranda vinculada a um grupo dedicado ao desenvolvimento de sensores avançados. O projeto também recebeu colaboração de outros cientistas da instituição e de uma universidade parceira localizada na Coreia do Sul.

A publicação dos resultados na revista Science Advances apresenta a validação acadêmica dos experimentos e detalha a combinação entre materiais sensíveis, sinais elétricos e modelos de aprendizado de máquina.

A integração dessas áreas permitiu transformar moléculas invisíveis liberadas pelos alimentos em padrões que podem ser reconhecidos por um sistema computacional.

Tecnologia pode mudar a relação com a geladeira

Caso avance para o uso comercial, o nariz eletrônico poderá acrescentar uma nova função aos eletrodomésticos conectados.

Em vez de apenas controlar a temperatura ou registrar quais produtos estão armazenados, uma geladeira equipada com sensores químicos poderia avaliar o estado de conservação do conteúdo.

O consumidor receberia alertas sobre alimentos próximos da deterioração e poderia tomar decisões antes de consumir ou descartar o produto. A tecnologia também poderia contribuir para reduzir riscos ligados à ingestão de itens impróprios.

A aplicação contra alergênicos amplia o alcance do projeto, mas exige cuidados adicionais e novos testes em condições reais.

Por enquanto, o dispositivo desenvolvido em Berkeley permanece como um protótipo experimental. Ainda assim, os resultados mostram que a combinação entre nanotubos de carbono e inteligência artificial pode dar às máquinas uma capacidade semelhante ao olfato para analisar aquilo que chega à mesa.

Com informações do Olhar Digital

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Andriely Medeiros de Araújo

Ensino superior em andamento. Escreve sobre Petróleo, Gás, Energia e temas relacionados para o CPG — Click Petróleo e Gás.

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