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Pesquisadores cruzaram a assinatura química de machados, cutelos e núcleos gigantes com antigas rochas vulcânicas e revelaram que hominídeos de 780 mil anos não usavam qualquer pedra encontrada pelo caminho

Escrito por Geovane Souza
Publicado em 12/06/2026 às 10:06
Atualizado em 12/06/2026 às 10:09
Estudo revela que hominídeos de 780 mil anos selecionavam diferentes fontes de basalto para fabricar ferramentas no norte de Israel
Estudo revela que hominídeos de 780 mil anos selecionavam diferentes fontes de basalto para fabricar ferramentas no norte de Israel (Imagem meramente ilustrativa)
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Análises químicas ligaram artefatos a rochas próximas e hoje soterradas, revelando planejamento, conhecimento do território e uma tradição tecnológica duradoura no norte de Israel

Grupos humanos arcaicos que ocuparam o norte de Israel há aproximadamente 780 mil anos não recolhiam qualquer pedra encontrada pelo caminho. Eles identificavam diferentes fontes de basalto, avaliavam as características do material e escolhiam a rocha mais adequada para cada etapa da fabricação de ferramentas.

A conclusão aparece em um estudo divulgado em junho de 2026 e aceito para publicação em 30 de abril na revista científica Scientific Reports. A pesquisa analisou artefatos do sítio de Gesher Benot Ya‘aqov, localizado no Vale do Jordão Superior, em uma área que no passado ficava próxima às margens do antigo Lago Hula.

Os resultados indicam que os hominínios, como são chamados os humanos e seus parentes evolutivos extintos, conheciam profundamente a paisagem. A escolha do basalto seguia um padrão organizado, repetido em diferentes períodos de ocupação do local, em vez de depender apenas da pedra mais fácil de alcançar.

Essa descoberta não significa que esses grupos controlavam minas ou territórios da mesma maneira que sociedades posteriores. O que os pesquisadores identificaram foi um domínio técnico sobre as fontes de matéria-prima, acompanhado da capacidade de planejar a produção e transmitir conhecimentos ao longo das gerações.

Assinatura química revelou de onde vieram as pedras

O basalto é uma rocha vulcânica dura, formada pelo resfriamento da lava, e pode apresentar diferenças discretas na composição conforme o fluxo vulcânico de origem. Essas variações funcionam como uma espécie de assinatura química, permitindo comparar uma ferramenta arqueológica com possíveis fontes naturais.

Assinatura química revelou de onde vieram as pedras
Assinatura química revelou de onde vieram as pedras (Crédito: Divulgação/N. Goren-Inbar)

De acordo com o estudo publicado na Scientific Reports, os pesquisadores mediram elementos principais, elementos-traço e terras raras presentes tanto nos artefatos quanto nas amostras geológicas. Os resultados foram processados por métodos estatísticos capazes de agrupar rochas com características químicas semelhantes.

A investigação foi conduzida por Tzahi Golan e Yoav Ben Dor, do Serviço Geológico de Israel, e pela arqueóloga Naama Goren-Inbar, da Universidade Hebraica de Jerusalém. Foram examinados núcleos de pedra, lascas, machados de mão e cutelos provenientes de diferentes camadas arqueológicas.

Cientistas compararam ferramentas com fontes próximas e rochas soterradas

A equipe coletou amostras em oito fluxos de basalto localizados em um raio de aproximadamente 10 quilômetros do sítio. Alguns afloramentos estavam a poucas centenas de metros do local onde os artefatos foram encontrados.

Os cientistas também recorreram a uma perfuração realizada em Gesher Benot Ya‘aqov. Seis amostras retiradas de profundidades entre 32 e 117 metros permitiram conhecer camadas vulcânicas que atualmente estão escondidas sob sedimentos.

Segundo informações da Universidade Hebraica de Jerusalém, essa combinação entre arqueologia, geologia e geoquímica ajudou a reconstruir uma paisagem que deixou de existir na superfície. Movimentos tectônicos, erosão e deposição de sedimentos alteraram profundamente o Vale do Jordão durante centenas de milhares de anos.

Os resultados mostraram que grande parte dos artefatos tinha composição compatível com basaltos encontrados a menos de um quilômetro do acampamento. Algumas ferramentas também combinaram com unidades vulcânicas hoje soterradas, indicando que essas rochas provavelmente estavam expostas e acessíveis no período em que os hominínios viveram ali.

Núcleos com mais de 20 quilos exigiam força e planejamento

A fabricação das grandes ferramentas começava com a seleção de placas espessas de basalto. A partir delas, os artesãos pré-históricos produziam os chamados núcleos gigantes, alguns com mais de 20 quilos, dos quais eram destacadas grandes lascas.

Essas lascas serviam como base para a confecção de bifaces, ferramentas trabalhadas em ambos os lados. Entre elas estavam os machados de mão e os cutelos, instrumentos provavelmente usados em diferentes tarefas de corte, processamento de animais, madeira e vegetais.

O processo não era simples. Era necessário identificar a parte mais densa e resistente do fluxo de basalto, escolher uma placa com formato adequado, calcular o ponto de impacto e retirar uma lasca suficientemente grande sem quebrá-la de maneira indesejada.

Boa parte dessas etapas provavelmente acontecia fora da área principal de ocupação. Estudos anteriores já haviam observado que a quantidade de resíduos encontrados no sítio era insuficiente para explicar todas as ferramentas recuperadas, sugerindo que algumas peças eram parcialmente preparadas em outros pontos e depois transportadas.

Cada tipo de ferramenta podia exigir um basalto diferente

Cada tipo de ferramenta podia exigir um basalto diferente
Segmento de núcleo de basalto com vesículas preenchidas com minerais, formadas durante o estágio final da alteração do basalto (Foto: N. Goren-Inbar)

Os núcleos gigantes apresentaram forte correspondência com fontes locais e com camadas identificadas pela perfuração. Isso faz sentido porque o início da produção exigia blocos muito pesados, difíceis de transportar por longas distâncias.

Os cutelos, porém, exibiram uma composição mais variada. Alguns não corresponderam diretamente aos afloramentos analisados, o que pode indicar a busca por fontes diferentes, atualmente soterradas, destruídas pela erosão ou simplesmente não incluídas na amostragem.

Os pesquisadores consideram que determinadas propriedades, como tamanho da placa, formato, densidade, orientação das camadas e facilidade de fratura, poderiam tornar um basalto mais apropriado para um instrumento específico. Não bastava encontrar pedra, era necessário encontrar a pedra certa.

A diferença entre os materiais usados nos núcleos, machados de mão e cutelos reforça a hipótese de escolhas conscientes. O comportamento contrasta com uma coleta puramente oportunista, na qual qualquer rocha disponível seria aproveitada sem distinção.

Os padrões também apareceram em ferramentas retiradas de diferentes horizontes arqueológicos. Para os autores, essa repetição revela uma tradição acheulense contínua, preservada durante sucessivas ocupações e possivelmente ensinada entre indivíduos e gerações.

Gesher Benot Ya‘aqov preserva sinais de uma vida complexa

O sítio foi descoberto na década de 1930, próximo ao Rio Jordão. Escavações mais amplas ocorreram entre 1989 e 1997 e revelaram diversas camadas com ferramentas de basalto, sílex e calcário, além de restos de plantas e animais.

Uma pesquisa divulgada pela revista Science em 2004 encontrou concentrações de pequenos fragmentos de sílex queimado, interpretadas como evidência de uso controlado do fogo há cerca de 790 mil anos. A distribuição dos materiais indicava que as queimadas não teriam ocorrido de maneira totalmente aleatória.

Em 2022, um trabalho publicado na Nature Ecology & Evolution apresentou evidências de que grandes peixes foram cozidos e consumidos em Gesher Benot Ya‘aqov há aproximadamente 780 mil anos. Dentes de peixes encontrados perto de áreas associadas ao fogo mostraram alterações compatíveis com exposição a temperaturas controladas.

Outra pesquisa, publicada em 2025 na revista Proceedings of the National Academy of Sciences, identificou grãos de amido em ferramentas de percussão. Os vestígios estavam associados ao processamento de alimentos vegetais, como bolotas, sementes de gramíneas, castanhas-d’água e rizomas de plantas aquáticas.

Descoberta não permite identificar com certeza quem fabricou as peças

Apesar da sofisticação tecnológica, o novo estudo não determina qual espécie humana produziu as ferramentas. Os pesquisadores empregam expressões como hominínios acheulenses, evitando atribuir os artefatos diretamente ao Homo erectus ou a outra espécie sem evidências fósseis suficientes.

Também é importante considerar os limites da pesquisa. A análise geoquímica utilizou apenas uma parcela do enorme conjunto arqueológico, que inclui centenas de bifaces e lascas encontrados em determinadas camadas.

Em um dos níveis estudados, por exemplo, as escavações já haviam registrado 161 machados de mão, 60 cutelos e mais de 680 lascas relacionadas à produção. Os próprios autores reconhecem que novas amostragens poderão identificar outras fontes de basalto e tornar o mapa de deslocamentos mais detalhado.

Mesmo com essas limitações, o conjunto das evidências mostra que os habitantes de Gesher Benot Ya‘aqov eram capazes de observar diferenças entre rochas, lembrar onde encontrá-las e organizar uma sequência de produção com várias etapas. A tecnologia dependia de memória, aprendizagem social e conhecimento acumulado da paisagem.

O estudo transforma pedaços de basalto em registros de decisões tomadas há quase 800 mil anos. Para os pesquisadores, essas ferramentas demonstram que capacidades como planejamento e transmissão cultural possuem raízes muito mais antigas do que a história das sociedades modernas poderia sugerir.

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Geovane Souza

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