Pesquisa em Linhares (ES) detectou metais potencialmente tóxicos em banana, mandioca e cacau cultivados em solo afetado pela lama de 2015. Para adultos, os índices ficaram abaixo do limiar de risco, mas para crianças o consumo de banana pode ultrapassar o patamar considerado preocupante.
Dez anos após o rompimento da barragem de Fundão, em Mariana (MG), uma nova pesquisa reacende o debate sobre segurança alimentar no estuário do rio Doce, em Linhares (ES). O estudo identificou concentrações elevadas de metais associados aos rejeitos e encontrou possível risco não cancerígeno para crianças ao consumirem bananas cultivadas em áreas impactadas.
O trabalho foi publicado em outubro de 2025 na revista Environmental Geochemistry and Health e avaliou banana, mandioca e cacau produzidos em solos que recebem rejeitos ricos em ferro desde 2015. As amostras foram coletadas em agosto de 2021, segundo o artigo indexado no PubMed.
A conclusão central é direta: cádmio, cromo, cobre, níquel e chumbo apareceram em níveis acima de valores de referência citados pelos autores nas partes comestíveis das culturas analisadas.
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O alerta, porém, não é uniforme para todos os públicos. Os cálculos de risco indicaram que, para adultos, não haveria risco provável pelos indicadores usados, mas para crianças o consumo de banana pode superar o limiar adotado no estudo.
O que o estudo encontrou em bananas, mandioca e cacau cultivados em Linhares
A pesquisa analisou solos agrícolas do estuário do rio Doce e mediu a presença de metais ligados ao rejeito, frequentemente associados a óxidos de ferro. Esses óxidos são um componente importante da lama e podem influenciar como os contaminantes ficam disponíveis no ambiente.
Nos resultados divulgados, a banana e a mandioca concentraram a maior parte desses elementos nas partes subterrâneas, como raízes e tubérculos. Ainda assim, o estudo identificou metais também nas porções consumidas.
No caso do cacau, o cenário foi diferente. Houve acúmulo elevado em partes acima do solo e, na polpa, os teores de cobre e chumbo ultrapassaram valores-limite citados pela FAO na reportagem que resumiu o trabalho.
Por que o chumbo vira o foco quando o assunto é criança
Entre os contaminantes avaliados, o chumbo aparece como o principal “motor” do risco calculado para crianças no consumo de banana. A reportagem da Agência FAPESP aponta que o resultado para crianças ultrapassou o limiar 1 no índice total usado pelos autores, puxado principalmente pelo chumbo, com cádmio também acima do recomendado no recorte citado.
A preocupação não é abstrata. A Organização Mundial da Saúde afirma que o chumbo pode afetar de forma permanente o desenvolvimento do cérebro infantil, com impactos como redução de QI e mudanças comportamentais, incluindo menor atenção.
O CDC dos EUA também lista problemas de aprendizagem e comportamento, além de menor capacidade de atenção, como consequências associadas à exposição. A mensagem é que a prevenção importa porque parte do dano pode ser duradoura.
É por isso que o estudo olha com lupa para o grupo mais sensível. Crianças pequenas tendem a ter maior vulnerabilidade por fatores biológicos e também porque a dose “por quilo de corpo” pode ficar mais alta quando se come o mesmo alimento.
Como os pesquisadores mediram os metais e transformaram isso em “risco”
Para chegar aos números, a equipe coletou solo e plantas e separou partes como raízes, caule, folhas e frutos. Depois, lavou, secou, triturou e fez análises químicas para estimar concentrações em massa seca.
A etapa seguinte foi conectar “quanto tem no alimento” com “quanto uma pessoa pode ingerir”, usando métricas padronizadas de avaliação de risco à saúde. O artigo descreve o uso de Hazard Quotient, Hazard Index e Total Hazard Index, e a síntese é que crianças que consomem banana podem ultrapassar o patamar considerado preocupante no modelo.
Na divulgação, os autores também consideraram hábitos de consumo local e parâmetros de exposição. A Agência FAPESP cita o uso de dados do IBGE para estimar o quanto da alimentação vinha de fora e o quanto era produzido e consumido na própria região.
Há um ponto técnico que chama atenção no resumo do PubMed. O estudo afirma que a associação dos metais com óxidos de ferro, que em tese poderia reduzir a disponibilidade, não foi um mecanismo eficiente no cenário avaliado, o que amplia a preocupação com produção de alimentos nesses ambientes.
O que isso diz sobre o legado do rompimento da barragem de Fundão
O rompimento ocorreu em 5 de novembro de 2015 e liberou dezenas de milhões de metros cúbicos de rejeitos que percorreram a bacia do rio Doce até o oceano. Uma análise publicada em Perspectives in Ecology and Conservation descreve a dimensão do desastre e a extensão da contaminação ao longo do sistema hídrico.
O estudo atual reforça a ideia de que o impacto não é só na água e na pesca. Ele chega ao solo e pode entrar na cadeia alimentar por cultivos, especialmente em áreas estuarinas onde as condições químicas favorecem a mobilidade de contaminantes.
Na comunicação institucional, a Universidade Federal do Espírito Santo também tratou os resultados como um sinal de alerta para segurança alimentar, apontando que a contaminação crônica e o risco maior para crianças merecem atenção e ampliação de amostragem.
O tema ganha peso adicional porque a pesquisa é parte de uma linha contínua de investigação e recebeu reconhecimento acadêmico. A tese relacionada ao trabalho foi premiada na USP em 2025 e a Esalq também registrou premiação no Prêmio Capes de Tese 2025.
Você acha que deveria haver restrição imediata ao plantio e venda de alimentos em áreas do estuário do rio Doce até um monitoramento independente “carimbar” a segurança, ou isso puniria quem não tem culpa e vive da agricultura local? Deixe seu comentário.

Esse plantio deve ser realocado para áreas nao contaminadas e as pessoas indenizadas. Nao tem cabimento vender produtos envenenados!
Entre não ter o que comer e passar fome ao ter que comer produtos agrícolas contaminados com metais pesados, com certeza, o povo vai comer os alimentos contaminados.