Produção orgânica em Ibiporã abastece merendas escolares após advogado deixar carreira corporativa e investir em estufas, rotação de culturas e venda direta.
Aos 35 anos, o advogado Émerson Amorim trocou a rotina de reuniões e metas comerciais pelo cultivo de hortaliças na propriedade da família, em Ibiporã, no Paraná. Desde que deixou o cargo de gerente de uma empresa de elevadores automotivos, em 2023, ele estruturou uma produção orgânica em Ibiporã que hoje destina cerca de 70% dos alimentos à merenda escolar de Ibiporã e Jataizinho.
A mudança profissional transformou uma área de pouco mais de um hectare, antes usada pelos pais apenas para o consumo da família, em um empreendimento com estufas, certificação orgânica e diferentes canais de comercialização.
O tomate tornou-se o principal produto da propriedade, com cerca de 6 mil quilos colhidos por estufa em cada um dos dois ciclos anuais. Pepino, pimentão, alface, cebolinha, abobrinha e, mais recentemente, pitaya completam a produção.
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Merenda escolar garante destino para a maior parte da colheita
Um dos principais desafios enfrentados por Émerson não estava no plantio, mas em encontrar compradores para os alimentos produzidos sem produtos químicos. Para garantir a saída da produção, ele buscou programas públicos como o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e o Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae).
Atualmente, aproximadamente sete de cada dez alimentos colhidos na propriedade seguem para escolas dos municípios de Ibiporã e Jataizinho. O restante é comercializado por distribuidores ou entregue diretamente aos consumidores por meio de pedidos feitos pelo WhatsApp.
A presença dos produtos na alimentação escolar também criou uma ligação pessoal com a família do agricultor. Émerson é casado com Aline, de 35 anos, e pai de Pedro, de dez, e Samuel, de cinco. “Quando entregamos na escola do meu filho, ele diz: ‘Meu papai produz alimento orgânico, não tem veneno’. É muito gratificante”, relata.
Embora a agricultura orgânica exija mudanças no modo de cuidar da terra, Émerson considera que a maior insegurança do produtor está na venda. “A maior preocupação do produtor, ao se tornar orgânico, não é o manejo, e sim a comercialização. Eu vou me tornar orgânico e vender para quem?”, questiona.
A busca por compradores começou junto com a transformação da propriedade. Para que o empreendimento se tornasse financeiramente viável, não bastava ampliar a colheita: era necessário construir uma rede capaz de absorver os produtos.
Os programas de alimentação pública, os distribuidores e as entregas diretas passaram a exercer funções diferentes dentro dessa estratégia.
Principais canais usados pela propriedade
- Programa de Aquisição de Alimentos;
- Programa Nacional de Alimentação Escolar;
- fornecimento para escolas de Ibiporã e Jataizinho;
- venda por meio de distribuidores;
- entrega direta organizada pelo WhatsApp.
Essa combinação reduz a dependência de um único comprador e permite que a produção encontre diferentes destinos ao longo dos ciclos agrícolas.
Pequena escala levou à escolha pelo cultivo orgânico
A propriedade possui pouco mais de um hectare, dimensão que dificultaria a concorrência direta com produtores convencionais de maior escala. Diante dessa limitação, Émerson decidiu buscar diferenciação e valor agregado por meio dos alimentos orgânicos.
A estratégia não foi produzir grandes volumes a qualquer custo, mas obter melhor aproveitamento da área disponível e oferecer produtos cultivados com práticas voltadas à preservação do solo e do ambiente.
As estufas foram parte importante dessa transformação. A estrutura protege as plantações e permite colher uma quantidade maior de alimentos em espaços menores.
Tomate rende 6 mil quilos por ciclo em cada estufa
Entre todos os produtos cultivados, o tomate ocupa a posição central no negócio. Cada estufa produz aproximadamente 6 mil quilos por ciclo, e a propriedade realiza dois ciclos ao ano.
Além do tomate, a produção orgânica em Ibiporã inclui:
- pepino;
- pimentão;
- alface;
- cebolinha;
- abobrinha;
- pitaya.

A diversificação permite alternar cultivos, distribuir a produção durante diferentes períodos e atender compradores interessados em mais de um tipo de alimento. O investimento recente em pitaya também amplia as possibilidades da propriedade além das hortaliças que já faziam parte da rotina.
Rotação de culturas ajuda a proteger o solo
A ausência de produtos químicos exige uma abordagem diferente para lidar com pragas, doenças e conservação da terra. Émerson utiliza a rotação de culturas, alternando o plantio de tomate, pepino, abobrinha e pimentão.
A prática evita que uma única espécie permaneça continuamente na mesma área e contribui para preservar as condições do solo. Para o produtor, a agricultura orgânica não pode ser definida somente pela retirada de produtos químicos.
O processo também envolve o uso responsável da água, a manutenção da biodiversidade e a presença de cobertura vegetal. Esses cuidados ajudam a conservar a umidade, diminuir a erosão e manter maior equilíbrio no ambiente produtivo.
Mudança também transformou práticas da família
A adoção do novo modelo exigiu uma revisão de hábitos antigos na propriedade. Émerson relata que o pai estava acostumado a uma forma de cultivo em que qualquer vegetação espontânea deveria ser retirada e o solo precisava permanecer completamente limpo.
“Meu pai vem de uma geração mais antiga, que estava acostumada com o veneno, com a capinagem. Não podia ver um mato, já queria deixar o solo limpo. Mas hoje a gente vê que não é assim”, afirma.

Na agricultura orgânica adotada pela família, a vegetação e a cobertura do solo passam a cumprir funções dentro do equilíbrio da área. A mudança mostra que a transição não depende apenas da troca de insumos, mas também de uma nova compreensão sobre o funcionamento da propriedade.
Apoio técnico acompanhou a transição
A implantação da produção orgânica em Ibiporã recebeu orientação do Instituto de Desenvolvimento Rural do Paraná, o IDR-PR. O acompanhamento técnico auxiliou a família durante a mudança do sistema produtivo e na adoção das práticas necessárias para o cultivo orgânico.
A propriedade também possui certificação concedida pelo Tecpar e pelo programa Paraná Mais Orgânico. A certificação formaliza o modelo adotado e permite que os alimentos sejam comercializados como orgânicos nos canais utilizados pelo empreendimento.
Antes de assumir a propriedade, Émerson trabalhava no setor corporativo como gerente comercial de uma empresa de elevadores automotivos. Formado em direito, ele decidiu deixar o emprego em 2023 e direcionar seu trabalho para a terra da família.
A rotina passou de uma sequência de reuniões para uma atividade que ele define como mais solitária, mas realizada em um ambiente familiar e ligada diretamente à produção de alimentos.
“Pelo fato de estar trabalhando em um ambiente familiar, produzindo alimento, acho que foi a melhor decisão que eu já tomei”, resume. A escolha também permitiu que o produtor acompanhasse de perto o destino da colheita, inclusive quando os alimentos chegam à escola frequentada pelo próprio filho.
Produção familiar ganhou finalidade comercial
Antes da entrada de Émerson, seus pais cultivavam alimentos principalmente para o consumo da casa. A primeira missão do novo empreendimento foi fazer com que a área passasse a gerar renda.
As estufas, a certificação, os canais públicos de compra e a venda direta transformaram uma produção doméstica em uma atividade comercial organizada. A experiência mostra que uma pequena área pode encontrar espaço no mercado quando combina diferenciação, planejamento e acesso a compradores.
No caso da produção orgânica em Ibiporã, a maior parte da colheita passou a cumprir também uma função social: abastecer refeições destinadas aos estudantes de dois municípios paranaenses.
Ao trocar o escritório pelo campo, Émerson não apenas mudou de profissão. Ele transformou a propriedade da família em um negócio certificado, diversificado e conectado à alimentação escolar da região.
Com informações do Globo Rural

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