Erasmo Carlos Souza Coelho tem 57 anos, é pedreiro e passou a vida erguendo parede para os outros, até que a sala de aula veio até ele: a formatura aconteceu dentro do canteiro de obras onde trabalha, no Guará II, e ele subiu para receber o certificado ainda de bota.
A cerimônia foi em 21 de agosto, no canteiro da construtora CONBRAL, em Brasília. Não houve auditório alugado nem palco montado em hotel.
Segundo o Seconci-DF, que mantém o programa, 14 trabalhadores da construção civil concluíram naquele dia o ciclo de alfabetização e de ensino fundamental oferecido pela entidade. Todos estudaram no próprio local de trabalho.
Erasmo não estava sozinho na turma. Pedro Antônio Oliveira Filho, de 51 anos, que trabalha na limpeza da obra, também concluiu o ciclo. Dois homens na casa dos cinquenta, com décadas de carteira assinada nas costas, terminando o fundamental no mesmo mês.
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A sala de aula foi montada dentro da obra, e não o contrário
O desenho do programa é a parte que resolve o problema real. Conforme o Seconci-DF, foram instaladas duas salas de aula em canteiros de obras de empresas participantes, e as aulas acontecem ali dentro.
Parece detalhe logístico, mas não é. O trabalhador da construção começa cedo, costuma morar longe do canteiro e chega em casa quando a escola noturna já fechou a chamada. Tirar o curso do bairro e colocar dentro da obra elimina exatamente a barreira que faz a maioria desistir na terceira semana.
Geórgia Grace, gerente-geral do Seconci-DF, resumiu o esforço do grupo em uma frase durante a formatura: “Concluir os estudos enquanto se concilia uma rotina de trabalho é uma demonstração de determinação”.
Do lado da construtora, o diretor Paulo Muniz colocou a conta de outro jeito: “Acreditamos que investir nos nossos colaboradores é tão importante quanto investir na própria obra”. Vindo de uma empresa que precisa entregar prazo, é uma afirmação menos óbvia do que parece.

Treze mil e quinhentos operários depois
A turma de agosto não é um piloto. De acordo com a entidade, mais de 13,5 mil trabalhadores de empresas parceiras já passaram pelas classes de alfabetização e pelos segmentos do ensino fundamental oferecidos pelo Seconci-DF desde o início da década de 1990.
São mais de trinta anos de programa rodando em canteiro, o que dá uma média que passa de quatrocentas pessoas por ano. Boa parte dessa gente construiu Brasília por dentro sem conseguir ler o letreiro do ônibus que pegava para chegar lá.
A permanência do programa por três décadas diz algo que o número isolado não diz. Iniciativa de alfabetização de adulto costuma morrer no segundo ano, quando o entusiasmo do lançamento acaba e sobra a parte difícil: manter turma de trabalhador cansado até o fim do ciclo. Chegar a 13,5 mil concluintes significa que a evasão foi contornada muitas vezes seguidas.
A professora Vera Lúcia da Silva, que dá aula no programa, falou do outro lado da mesa: “Eu estou muito realizada e fico muito feliz por eles, pela vontade que eles têm de aprender”. Dá pra entender o alívio na frase de quem ensina adulto que já trabalhou oito horas antes de sentar na carteira.
Por que isso importa justamente agora
O momento não é aleatório. A construção civil virou, neste ano, a principal porta de entrada do trabalhador brasileiro no emprego formal, e o setor sozinho respondeu por mais de um quinto de todas as vagas com carteira abertas no país em julho.
O gargalo, porém, mudou de lugar. Não falta vaga, falta gente com a base para ocupar a vaga seguinte. Um servente que não lê não vira armador, não lê projeto, não faz o curso de norma regulamentadora, não sobe para encarregado. A escolaridade trava a carreira antes da habilidade travar.
Na prática, o certificado que Erasmo recebeu destrava uma fila de portas fechadas. Matrícula em curso técnico costuma exigir fundamental completo. Prova de reciclagem de operador de equipamento é escrita. Ficha de inspeção, ordem de serviço e checklist de segurança são documentos que alguém tem de ler e assinar por conta própria, sem pedir para o colega conferir.
Há também o lado que ninguém coloca em planilha. Assinar o próprio nome sem constrangimento diante do encarregado muda a forma como o trabalhador se apresenta na obra seguinte. Aos 57 anos, Erasmo ainda tem uma década de canteiro pela frente, e agora entra nela com um documento que antes não tinha.
É por isso que programa de alfabetização em canteiro deixou de ser assistência social e virou política de mão de obra. A mesma lógica aparece em iniciativas parecidas espalhadas pelo país, como o curso que já formou mais de mil pessoas em alvenaria e coloca oito de cada dez direto na obra.

Vale olhar o número pequeno antes do número grande. Quatorze pessoas numa turma não muda estatística nacional nenhuma. Mas para Erasmo, aos 57 anos, muda o que ele pode assinar, o que consegue ler numa ordem de serviço e o que pode responder quando o filho pergunta alguma coisa da lição.
Confesso que a imagem que fica é a da sala improvisada no meio do canteiro, com barulho de betoneira do lado de fora e homens de cinquenta e poucos anos copiando do quadro depois do expediente. É pouco fotogênico e é exatamente ali que a coisa acontece. O programa completo, com histórico e critérios de participação, está descrito na página do próprio Seconci-DF.
Se você conhece alguém que parou de estudar cedo para trabalhar, provavelmente já ouviu a frase de que agora é tarde. Erasmo e Pedro acabaram de mostrar que a conta não fecha desse jeito.
Você voltaria a estudar aos 57 anos se a sala de aula estivesse dentro do seu trabalho?
