Um programa criado por empresários da construção em Joinville para resolver a própria falta de mão de obra acabou de passar de mil trabalhadores formados em dois anos e meio, sendo setenta e cinco deles mulheres, e coloca oito de cada dez direto no canteiro assim que o curso termina.
O número foi divulgado pela Câmara Brasileira da Indústria da Construção. Segundo a entidade, o Instituto Profissão Construir chegou a 1.022 alunos formados e a 1.545 matriculados desde que começou a funcionar, em outubro de 2023. Foram 80 turmas e 14 cursos diferentes, todos concentrados nas funções que faltam de verdade na obra.
A lista de cursos explica bem a lógica do programa: pedreiro de alvenaria, auxiliar de eletricista, auxiliar de pintor predial, instalador hidráulico e ajudante da construção civil. Nenhum deles exige diploma anterior, e todos correspondem a vaga que existe hoje, aberta, esperando alguém que saiba fazer.
Oito de cada dez saem empregados
O dado mais forte não é o de formados, é o do que acontece depois. Conforme a CBIC, 80% dos alunos são absorvidos pelo mercado de trabalho ao concluir o curso. Em formação profissional, esse patamar é alto, e a explicação é menos nobre do que parece: as empresas que sustentam o programa são as mesmas que estão contratando.
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A construção abriu 12.691 vagas em julho, ficou com 21,67% de tudo que o país gerou de emprego formal no mês e paga hoje o maior salário de entrada entre todos os setores: R$ 2.634,50
O instituto nasceu dentro do Sinduscon de Joinville, o sindicato patronal da construção na região. Não foi criado como projeto social e sim como resposta a um gargalo de produção. Havia obra contratada e não havia quem levantasse a parede. Assim, formar o próprio trabalhador deixou de ser filantropia e virou logística.
É difícil não ver a inversão aí. Durante anos o discurso do setor foi que faltava qualificação no mercado, como se isso fosse problema de outra pessoa. Em Joinville, o setor decidiu que o problema era dele e montou a escola.

Setenta e cinco mulheres na alvenaria
Entre os 1.022 formados, 75 são mulheres. O número parece pequeno diante do total, e é: pouco mais de 7% das vagas. Mas ele precisa ser lido contra o ponto de partida, porque a construção civil brasileira é um dos setores mais masculinizados da economia formal, e a presença feminina se concentrou historicamente em escritório, engenharia e administração, não em canteiro.
Setenta e cinco mulheres formadas em curso de pedreiro de alvenaria, auxiliar de eletricista e instalador hidráulico significa setenta e cinco pessoas habilitadas a ocupar posto de obra, com registro e salário de obra. Em um setor que paga hoje R$ 2.634,50 de salário médio de admissão, acima da média nacional de todos os setores, isso muda a conta de vida de quem entra.
Há ainda um efeito prático pouco comentado. Em obra, a presença de mulher na equipe operacional costuma esbarrar em detalhes que ninguém previu, como vestiário único, ausência de banheiro feminino no canteiro e equipamento de proteção fabricado só em numeração masculina. Quando dezenas de trabalhadoras entram no mercado ao mesmo tempo, essas ausências deixam de ser exceção administrável e viram problema de cronograma, que a empresa precisa resolver para não perder produtividade.
O programa também se espalhou geograficamente. Além de Joinville, onde fica a sede, hoje atende Itapoá, Piçarras, Itajaí e Brusque. A expansão para Itapoá aconteceu em 2025, e no mesmo ano a iniciativa deixou de ser apenas um projeto do sindicato para virar instituto próprio, com estrutura e nome independentes.

Um certificado que não encerra o assunto
Carlos Lopes, engenheiro civil que preside o Instituto Profissão Construir, resumiu o alcance do marco sem transformá-lo em vitória final. De acordo com ele, formar mais de mil profissionais representa um avanço real para a construção civil, porém a missão não termina no certificado.
A ressalva faz sentido. Formar é a parte visível e mensurável; o que vem depois é mais difícil de acompanhar. Quanto tempo o egresso permanece no setor, se ele progride de ajudante para oficial, se consegue especialização, se sai do canteiro em dois anos por causa do esforço físico. Nada disso aparece na conta de 1.022, e é justamente aí que se decide se o programa formou trabalhador ou apenas passou gente por uma sala.
Vale registrar o que o material da CBIC não traz. Não há, no anúncio, o nome de nenhum aluno, nenhuma idade, nenhuma trajetória individual. Sabemos que 1.022 pessoas terminaram o curso e que cerca de 818 delas estavam empregadas em seguida, mas não sabemos quem são. Por isso o número, por mais robusto que seja, ainda é uma silhueta.

Por que isso importa fora de Santa Catarina
O modelo interessa porque chega junto com um problema nacional. A construção vem sendo, mês após mês, o segundo setor que mais abre vaga formal no Brasil, atrás apenas de serviços, e o crescimento está concentrado em obra de infraestrutura, que exige exatamente as funções que o programa de Joinville ensina.
Enquanto isso, a formação profissional para essas funções continua escassa e mal distribuída pelo país. O resultado é o cenário atual, no qual sobra contrato assinado e falta quem execute. Um instituto regional, mantido por quem contrata, formando mil pessoas em dois anos e meio, é pequeno diante da demanda brasileira. Ainda assim, é uma das poucas respostas concretas que existem, e ela veio do setor privado, não de política pública.
Fico imaginando quantas cidades industriais do país têm exatamente o mesmo gargalo, a mesma obra parada por falta de oficial, e ainda tratam qualificação como despesa em vez de insumo. Quem já esperou meses por um pedreiro disponível para uma reforma simples entende o tamanho do problema sem precisar de tabela.
Empresa que não acha trabalhador qualificado deveria formar o próprio, ou isso é obrigação do poder público?
